quarta-feira, 18 de abril de 2012

Quem deveria poupar mais no Brasil?

Um dos meus primeiros posts neste blog foi sobre a poupança das famílias brasileiras. Alguns estudiosos, como Samuel Pessôa e Alberto Carlos Almeida (links do Valor, para assinantes), defendem que o Brasil optou politicamente por uma taxa de poupança baixa ao financiar a saúde e a previdência públicas. Rolf Kuntz, porém, considera que essa escolha política não existiu, porque nunca houve no país um debate sério sobre política fiscal. Meus dois tostões para a conversa foram ponderar que em outros países com uma ampla rede de amparo social, como França e Suécia, é possível encontrar uma alta taxa de poupança, e que talvez uma melhora dos serviços oferecidos pelo governo - saúde e educação, por exemplo - pudesse significar mais poupança das famílias no Brasil.

Ao ler o post, minha mulher apontou uma contradição: eu estava associando uma baixa taxa de poupança das famílias a uma ineficiente rede pública de amparo social, mas Pessôa e Almeida estavam justamente considerando essa rede como o motivo da baixa poupança. Voltei a pensar sobre essa contradição aparente nos últimos dias, e para mim ela se resume a uma questão: quais famílias brasileiras deveriam poupar mais?

Suponha que amanhã o governo anuncie um esforço hercúleo para reduzir o déficit que inclua uma completa eliminação dos gastos públicos com saúde, educação e previdência. Quais seriam os impactos diretos dessa medida sobre a sua taxa marginal de poupança? A minha, até onde posso ver, ficaria inalterada. Meu filho ainda não está na escola, mas certamente irá a uma escola privada; quando ele caiu da cama e bateu com a cabeça no chão fomos correndo para um hospital privado de primeira linha que aceita o nosso plano de saúde. Tenho dois planos de previdência privada - um pelo trabalho, outro pelo banco - e é com base neles que calculo quanto terei para gastar após minha aposentadoria. Hoje, em resumo, não uso nem o sistema educacional propiciado pelo governo nem o sistema hospitalar, e minha decisão de poupança para a aposentadoria independe da previdência pública.

É possível que houvesse um grande aumento da demanda por serviços privados de saúde e educação após essa medida do governo, o que provavelmente encareceria esses serviços. Mas é incerto que esse aumento de preços chegasse aos serviços que compro. Gastarei com a escola do meu filho bem mais do que o salário mínimo nacional. Há um hospital privado em frente à minha casa, mas nós quase nunca vamos lá porque ele não é de qualidade. Em suma, o tipo de estabelecimento educacional e hospitalar que veria um aumento de demanda com o fim dos serviços públicos não é o tipo que me oferece serviços.

Acho que o mesmo se aplica à maior parte das pessoas do meu círculo social e familiar: os ricos brasileiros. Considero-me rico não pela minha riqueza absoluta - estou começando agora a juntar uma poupança respeitável, o custo da minha viagem de férias me fez pensar duas vezes antes de comprar a passagem - mas pela minha riqueza relativa. Num país com uma distribuição de renda tão desigual, estou indubitavelmente bem de vida.

Se a poupança das famílias ricas brasileiras não seria significativamente abalada por uma eliminação da rede pública de amparo social, conclui-se que para Pessôa e Almeida a razão de não termos mais poupança familiar no país é o consumo excessivo dos mais pobres. Só que a distribuição de renda desigual torna os mais pobres do Brasil pobres mesmo. É gente que poupa pouco por não ter outra opção.

Mais: o sistema tributário brasileiro é regressivo. O que quer dizer que associar a rede pública de amparo social à baixa taxa de poupança das famílias é dizer que quem deveria poupar mais do que está poupando são as pessoas mais pobres (de um país com distribuição de renda extremamente desigual) e que pagam mais impostos (em proporção à sua renda total).

Não creio, portanto, que faça sentido jogar a nossa baixa taxa de poupança na conta da rede pública de amparo social. Talvez seja mais interessante relacioná-la com nosso passado recente de inflação alta, quando fazia sentido consumir imediatamente para evitar uma perda do poder aquisitivo da moeda. Deixando o passado de lado e olhando para frente, para aumentar a poupança das famílias é mais importante desincentivar o consumo dos mais ricos do que eliminar as poucas garantias e os medíocres serviços oferecidos aos mais pobres.


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