terça-feira, 20 de outubro de 2026

O Programa de Flávio Bolsonaro passa pelo teste de "Imagine"? E o de Lula?

Um comentário inicial: a ideia de escrever sobre o assunto foi motivada por uma conversa rápida com um  conterrâneo sobre a política brasileira. Trata-se de um fã fervoroso dos Beatles (e de John Lennon) e, surpreendentemente, apoiador do bolsonarismo.

Entre a paz para todos e a suposta “guerra ao crime”, a preservação ambiental e a exploração econômica desmedida, a solidariedade e a lógica implacável do mercado, os programas dos dois candidatos revelam diferentes maneiras de imaginar o futuro do Brasil.

Em 1971, John Lennon e Yoko Ono lançaram “Imagine”, uma canção que atravessou gerações ao propor um exercício de imaginação política e humanista: pensar em um mundo menos dividido por fronteiras, religiões, disputas nacionais e interesses materiais; uma humanidade capaz de compartilhar o planeta, superar antagonismos e viver em paz.

Mais do que uma canção sobre a paz, “Imagine” tornou-se uma provocação sobre os valores que organizam a vida coletiva. 

Que sociedade estamos construindo? 

A segurança deve ser obtida a qualquer custo? 

O crescimento econômico justifica a degradação ambiental? 

A prosperidade de alguns é suficiente quando milhões enfrentam a fome e a desigualdade?

Essas perguntas oferecem um ponto de partida interessante para examinar os programas de governo de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva para o período 2027-2030.

Trata-se, sobretudo, de exercício de imaginação, orientado por uma música que toca profundamente a minha alma.

É importante esclarecer, principalmente neste momento de profunda divisão que marca o povo brasileiro: “Imagine” não é um programa de governo, tampouco apresenta uma política ambiental detalhada. A comparação proposta aqui é interpretativa, especialmente imaginativa. Trata-se de confrontar os valores humanistas, pacifistas e solidários associados à obra de Lennon e Ono com as prioridades, os instrumentos e as contradições presentes nas propostas dos candidatos.

O resultado não é uma disputa sobre quem gosta mais de paz ou de natureza, mas uma análise de como cada projeto pretende transformar esses valores – ou subordiná-los a outras prioridades – em políticas públicas. Certamente, e infelizmente, nenhum dos dois candidatos considerou a mensagem da canção “Imagine” para construir suas propostas.

1. Paz para quem? O significado da segurança pública

A primeira diferença aparece na concepção de paz.

Em “Imagine”, a paz está associada à superação das divisões que transformam diferenças em motivos para matar ou morrer. A mensagem sugere que a humanidade precisa questionar as estruturas culturais e políticas que alimentam conflitos.

No programa de Flávio Bolsonaro, a segurança pública ocupa lugar central, com propostas de endurecimento penal, ampliação da capacidade prisional, reconhecimento facial, fortalecimento das forças policiais e combate ostensivo ao crime organizado. A linguagem de enfrentamento, inclusive com a expressão “guerra ao crime”, evidencia uma concepção de segurança fortemente apoiada na capacidade coercitiva do Estado.

Há uma finalidade legítima nessa preocupação: proteger a população contra homicídios, roubos, tráfico de drogas e organizações criminosas. Nenhuma sociedade pode prescindir de instituições capazes de garantir direitos e enfrentar a violência.

A questão essencial, porém, é saber se a paz será compreendida apenas como imposição da ordem ou também como redução das causas da violência, prevenção, respeito aos direitos fundamentais e diminuição das mortes.

Uma política de segurança compatível com o horizonte humanista de “Imagine” precisaria ser avaliada pela redução dos homicídios, das mortes em intervenções policiais, da reincidência criminal e da violência contra grupos vulneráveis.

O programa de Lula, por sua vez, associa a segurança pública à atuação coordenada do Estado, ao fortalecimento das instituições e à articulação com políticas sociais. Sua orientação geral é menos centrada na retórica de guerra e mais vinculada à coordenação institucional e à prevenção.

No teste de “Imagine”, a pergunta decisiva é: qual estratégia tem melhores condições de proteger vidas, reduzir a violência e preservar os direitos de todos.

2. Soberania nacional ou humanidade sem fronteiras?

Lennon e Ono convidam o público a imaginar um mundo no qual os países não sejam razões para matar ou morrer. Trata-se de uma crítica ao nacionalismo quando ele transforma a identidade nacional em antagonismo permanente. Para um país existir não é necessário eliminar os outros, como parecem acreditar Trump, Putin e outros mais.

Flávio Bolsonaro enfatiza a soberania brasileira, o controle territorial, o fortalecimento das fronteiras. Porém, trata-se de uma soberania limitada, uma vez que as relações estratégicas com países como Estados Unidos e Israel são apresentadas como essenciais. 

Essa orientação corresponde a uma visão de política externa na qual essas alianças estratégicas ocupam posição central. O alinhamento, principalmente com Trump, parece se sobrepor a posição que a diplomacia brasileira construiu ao longo de décadas. E o delineamento geral sinaliza que as guerras do Trump também poderão ser do Brasil bolsonarista.

Lula também defende a soberania nacional, mas dá maior destaque ao multilateralismo, à diplomacia, à cooperação internacional e à solução pacífica de controvérsias. Sua proposta de política externa procura ampliar a atuação brasileira em organismos internacionais e fortalecer as relações com países do Sul Global.

Nesse aspecto, há uma aproximação mais explícita entre o programa de Lula e o universalismo de “Imagine”. A valorização do diálogo e das instituições multilaterais está mais próxima da ideia de que os conflitos devem ser enfrentados pela negociação, e não pela transformação de adversários em inimigos permanentes.

Isso não significa que defender a soberania nacional seja incompatível com o pacifismo. Tampouco significa que a política externa de Lula corresponda integralmente ao ideal de Lennon. Os dois candidatos atuam dentro de uma ordem internacional na qual interesses econômicos, disputas geopolíticas e necessidades de defesa continuam determinantes.

O teste mais rigoroso consiste em perguntar se o Brasil utilizará sua influência para promover negociações, defender o direito internacional e aplicar princípios consistentes diante de conflitos envolvendo aliados e adversários? Ou vai aderir ao belicismo patrocinado por Trump?

Nesse eixo, Lula apresenta maior convergência programática com o ideal de cooperação internacional de “Imagine”, embora a atuação efetiva de qualquer governo precise ser julgada por suas decisões concretas.

3. Meio ambiente: patrimônio da humanidade ou ativo econômico?

É no debate ambiental que a comparação ganha uma dimensão particularmente importante.

A canção “Imagine” não formula uma agenda ecológica. Entretanto, sua mensagem de solidariedade e compartilhamento do mundo permite elaborar o seguinte questionamento: a natureza deve ser protegida apenas quando sua conservação oferece retorno econômico ou também porque dela dependem a vida, a saúde e o futuro das próximas gerações?

O programa de Flávio Bolsonaro, em seu capítulo dedicado ao meio ambiente, procura conciliar conservação e desenvolvimento econômico. Entre as propostas apresentadas estão o combate ao desmatamento ilegal até 2029, o uso de tecnologias para fiscalização, o pagamento por serviços ambientais, o incentivo à bioeconomia e a ampliação das energias renováveis.

O problema está na coerência entre esses compromissos e outras propostas do mesmo programa, como a exploração de gás não convencional por fraturamento hidráulico (fracking) e a flexibilização de procedimentos de licenciamento ambiental.

Agilizar o licenciamento não é necessariamente prejudicial. Prazos claros e processos eficientes podem melhorar a administração pública. Entretanto, a simplificação torna-se problemática quando compromete a qualidade dos estudos, a fiscalização, a participação das comunidades ou a prevenção de danos irreversíveis.

A questão central é se a conservação continuará sendo prioridade quando entrar em conflito com interesses econômicos imediatos. Os posicionamentos públicos de inúmeros políticos do PL e aliados, de membros da família Bolsonaro e do próprio candidato não permitem dúvidas de que os interesses econômicos serão preponderantes em relação as questões ambientais. 

O desmonte da fiscalização ambiental, a tolerância com garimpo ilegal e invasões de terras indígenas e outras mazelas ambientais patrocinadas durante o governo de Jair Bolsonaro sinalizam para um futuro tenebroso para a agenda ambiental.

O programa de Lula apresenta uma agenda climática mais abrangente. Propõe alcançar o desmatamento líquido zero até 2030, proteger os biomas, ampliar a adaptação às mudanças climáticas, fortalecer a segurança hídrica e expandir as fontes renováveis de energia.

A diferença não é apenas a existência de compromissos ambientais, mas o lugar que a crise climática ocupa na organização do programa. No caso de Lula, ela aparece como questão transversal ao desenvolvimento, à infraestrutura e à política externa.

Ainda assim, há uma contradição importante: o governo também pretende manter investimentos em petróleo e gás, ao mesmo tempo que promove a transição energética. A exploração de combustíveis fósseis pode ser justificada por razões de segurança energética e financiamento público, mas seus efeitos precisam ser confrontados com as metas de redução das emissões.

No teste ambiental de “Imagine”, Lula apresenta uma convergência programática mais ampla.

Flávio, por sua vez, reúne propostas subordinadas a uma estratégia que enfatiza mais explicitamente a exploração econômica dos recursos naturais brasileiros.

4. Fome, desigualdade e a lógica da acumulação

Outra passagem fundamental de “Imagine” é a crítica à ganância e a possibilidade de imaginar um mundo sem fome, no qual os recursos sejam compartilhados.

A mensagem de Lennon e Ono traz uma provocação moral e política: por que a abundância material convive com a privação de tantas pessoas?

Os programas de Lula e Flávio oferecem respostas diferentes a essa questão.

Lula prioriza a redução das desigualdades por meio de políticas sociais, segurança alimentar, valorização do trabalho, serviços públicos e medidas de redistribuição. Sua proposta procura reduzir a pobreza e ampliar as condições materiais de vida sem abandonar a economia de mercado.

Flávio Bolsonaro enfatiza a propriedade privada, o empreendedorismo, o crédito, a autonomia econômica e a criação de oportunidades para que as famílias ampliem seu patrimônio. A aposta é que o crescimento, o investimento e a atividade privada contribuam para a prosperidade.

Essas orientações não são inteiramente incompatíveis. O empreendedorismo pode gerar renda e emprego, assim como o investimento privado pode contribuir para o financiamento de serviços e infraestrutura. Políticas sociais, por sua vez, podem ampliar a capacidade das pessoas de trabalhar, estudar e empreender.

A divergência está na prioridade atribuída à distribuição dos resultados econômicos e no papel do Estado para garanti-la.

O Brasil ainda é um dos países mais desiguais do planeta, mesmo após os inúmeros avanços sociais conquistados a partir da estabilidade econômica conquistada a partir do Plano Real e, sem sombra de dúvidas, pelo conjunto de políticas públicas instituídos por Lula/Dilma.

A acusação de que o PT é comunista não se sustenta por nenhuma justificativa, mas a persistência da desigualdade é a prova definitiva. Fosse o PT um partido minimamente comunista não persistiria o cenário de desigualdade. Não obstante, os avanços conquistados parecem um grande desaforo para os devotos do bolsonarismo.

Uma leitura inspirada em “Imagine” perguntaria se o crescimento econômico consegue reduzir a fome e a pobreza de forma duradoura, se os ganhos são distribuídos de maneira justa e se as pessoas que não conseguem transformar trabalho em patrimônio dispõem de condições dignas de vida.

Por que esse ódio em recusar a necessidade de políticas de cotas? Por que recusar o combate da insegurança alimentar? Da desigualdade de renda? Da pobreza? Por que não reconhecer os direitos da comunidade LGBTQIA+? Por que não reconhecer que as mulheres, na sociedade machista brasileira, precisam de leis como Maria da Penha e do feminicídio? Por que não aceitar que as pessoas mais vulneráveis tenham acesso à moradia, à educação e à saúde? 

Por que algo assim é tão inaceitável?

5. Dois projetos, duas hierarquias de valores

A comparação permite identificar uma diferença mais profunda do que a oposição entre esquerda e extrema direita.

Flávio Bolsonaro organiza seu programa em torno da guerra ao crime (cujo campo de batalha coloca milhões de civis pobres na zona de ‘guerra’), da soberania limitada, pois declara alinhamento explicito aos interesses do governo Trump, da defesa da propriedade privada acima do interesse coletivo, da liberdade individual em que o pobre tem que competir sem suporte de políticas sociais e do crescimento econômico a qualquer custo. A preservação ambiental aparece subordinada à geração de riqueza.

Lula organiza o seu programa em torno da redução das desigualdades, da proteção social, da cooperação internacional, do desenvolvimento sustentável e do enfrentamento da crise climática. Ainda assim, mantém compromissos com a expansão econômica e com setores produtivos que podem gerar tensões ambientais.

Para tornar essa avaliação mais clara, podemos sintetizar o resultado do teste:

Critério inspirado em Imagine

Flávio Bolsonaro

Lula

Paz e redução dos antagonismos

Ênfase maior na repressão e no fortalecimento coercitivo do Estado – guerra ao crime, cujo campo de batalha é o lar da pobreza suburbana

Maior ênfase na diplomacia, na cooperação e na coordenação institucional

Cooperação internacional

Soberania limitada e alianças estratégicas como prioridades explícitas e totalmente alinhadas aos interesses de Trump

Multilateralismo e diálogo internacional como prioridades explícitas

Proteção ambiental

Conservação subordinada à exploração econômica, inclusive de biomas como a floresta amazônica.

Agenda climática transversal, com metas de conservação e adaptação

Transição energética

Expansão da exploração de gás, petróleo, conciliada com biocombustíveis

Renováveis combinadas com continuidade de investimentos em petróleo e gás

Combate à desigualdade

Ênfase em propriedade privada, empreendedorismo e autonomia econômica individual – ética do cada um por si

Ênfase em políticas sociais, trabalho e redução das desigualdades

Principal tensão

Uso da força e exploração econômica diante dos ideais de paz e conservação

Conciliação entre justiça social, expansão econômica e compromissos climáticos

Essas 

Essas classificações são uma interpretação dos documentos à luz dos princípios escolhidos.

6. Afinal, quem passa pelo teste de Imagine?

Se o critério for a convergência explícita com o pacifismo, a cooperação internacional, a redução da fome e a centralidade da crise climática, o programa de Lula apresenta maior proximidade com a mensagem humanista de Lennon e Ono.

Essa aproximação é particularmente visível na política externa, na centralidade conferida à redução das desigualdades e na presença de uma agenda climática abrangente.

O programa de Flávio Bolsonaro, por sua vez, não é desprovido de propostas ambientais ou de objetivos de proteção da vida. Há compromissos com a fiscalização do desmatamento e as energias renováveis. Entretanto, sua ênfase na repressão penal (foco em encarceramento em massa e ‘guerra’ ao crime, cujo confrontamento em áreas densamente povoadas podem gerar grande quantidade de vítimas inocentes), na soberania limitada com total alinhamento aos interesses de Trump e na exploração econômica dos recursos naturais revela tensões mais acentuadas com os ideais universalistas e pacifistas de “Imagine”.

A diferença fundamental está na concepção de sociedade que orienta as escolhas públicas.

Lennon e Ono nos convidam a imaginar uma humanidade na qual a segurança não dependa da perpetuação de inimigos, a prosperidade não conviva indiferentemente com a fome e a exploração econômica não comprometa as condições de vida no planeta.

Esse horizonte não oferece respostas prontas para os dilemas da administração pública, mas serviram como critérios para eu questionar as prioridades elencadas nos dois programas de governo.

O programa de Lula passa pelo teste de Imagine de maneira mais convincente no plano das intenções e das orientações declaradas.

O de Flávio enfrenta tensões mais profundas com o pacifismo e com uma visão da natureza que ultrapasse seu valor econômico.

No fim, a pergunta é: qual projeto político está mais preparado para transformar paz, solidariedade e preservação ambiental em resultados verificáveis?

Porque imaginar um mundo melhor é apenas o começo. O verdadeiro teste está nas escolhas feitas quando os ideais entram em conflito com os interesses econômicos, as disputas de poder e as urgências do presente frente a ética intergeracional.

Mais do que definir qual programa é "melhor" ou "pior", o objetivo final é convidar o leitor a sair do pragmatismo eleitoral imediato e pensar nos valores fundamentais (justiça, igualdade, fraternidade) que devem guiar o futuro do país.

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Nota editorial: esta comparação utiliza os programas de governo divulgados para 2027-2030 e interpreta suas propostas à luz da mensagem de “Imagine”. As classificações são avaliações qualitativas, de cunho eminentemente pessoal, e que, no limite, arvoram-se ao chamamento para refletir que Brasil desejamos para o futuro?

Fontes de referência: programa de governo de Flávio Bolsonaro; programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva; materiais oficiais de John Lennon e Yoko Ono sobre “Imagine”; e reportagens da Agência Brasil sobre as propostas ambientais e de política externa dos candidatos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Repasses no RN: o alinhamento político explica quem recebe mais?

 Já ouvi “argumentos” de gestores(as) municipais, não alinhados(as) politicamente a governadora Fátima Bezerra, sobre a importância de votar e eleger os candidatos escolhidos pelos referidos(as) prefeitos(as).

Comparar os recursos destinados aos municípios é necessário para fiscalizar o governo estadual. Mas uma análise séria precisa separar transferências constitucionais, convênios e emendas parlamentares. Misturar essas modalidades pode produzir acusações que os dados não sustentam.

As parcelas municipais de ICMS e IPVA pertencem aos municípios e seguem regras legais de distribuição. Portanto, seu recebimento não representa um favor da governadora, assim como diferenças nos valores não demonstram, por si, perseguição ou privilégio político.

O levantamento de 2022 a 2025, com os recortes disponíveis de 2026, mostra situações distintas.

Natal: a capital permaneceu como a maior recebedora dos repasses constitucionais nos períodos analisados. Recebeu R$ 454,54 milhões em 2022 e R$ 489,78 milhões em 2025. Entre janeiro e maio de 2026, foram R$ 216,60 milhões. Essa liderança precisa ser interpretada pelas regras de repartição e pelas características econômicas e demográficas da cidade.

Mossoró: durante a administração de Allyson Bezerra, hoje adversário do grupo governista na disputa estadual, os repasses constitucionais passaram de R$ 184,33 milhões em 2022 para R$ 259,75 milhões em 2025 - crescimento nominal de aproximadamente 40,9%. Entre janeiro e maio de 2026, chegaram a R$ 110,03 milhões. Os números mostram continuidade e crescimento dessas transferências.

Pau dos Ferros: os repasses constitucionais passaram de R$ 13,06 milhões em 2022 para R$ 17,54 milhões em 2025. Nos primeiros cinco meses de 2026, somaram R$ 8,33 milhões. Há também um registro de preparação de pagamento de R$ 500 mil para a Finecap, em setembro de 2025.

A mudança de posição política da prefeita Marianna Almeida já estava anunciada em fevereiro de 2026 (passou a apoiar Allyson). Para verificar eventual retaliação após essa mudança, seria necessário comparar solicitações, aprovações e pagamentos antes e depois do anúncio. A base disponível não demonstra essa relação.

Portalegre: os repasses constitucionais passaram de R$ 2,65 milhões em 2022 para R$ 3,21 milhões em 2025. Entre janeiro e maio de 2026, foram R$ 1,61 milhão. Também foi identificado pagamento de R$ 100 mil, até setembro de 2026, em emenda destinada à sinalização turística municipal.

A transferência de recursos a APAMI precisa aparecer separadamente nessa discussão. Foram localizados convênios de R$ 792 mil, em 2022, e R$ 340 mil, em 2025, vinculados à instituição e ao atendimento hospitalar em Portalegre. O segundo prevê reforma e manutenção do hospital. São valores dos instrumentos, não comprovação de pagamento integral. Além disso, recursos destinados à associação não podem ser contabilizados como dinheiro recebido pela prefeitura.

E os sete municípios associados às administrações do PT? Os achados também são diferentes entre si:

· Janduís: R$ 250 mil pagos em emenda de 2025 destinada à agropecuária.

· José da Penha: R$ 450 mil pagos em três emendas de 2025. O salto dos repasses constitucionais para R$ 8,51 milhões em 2024 acompanha uma alteração excepcional do índice de ICMS, cuja fundamentação precisa ser esclarecida.

· Jandaíra: repasses constitucionais de R$ 8,18 milhões em 2022 e R$ 14,28 milhões em 2025, além de convênio viário de R$ 4 milhões registrado em 2026, sem comprovação de desembolso integral.

·  Currais Novos: maior recebedor constitucional desse grupo e com convênio hospitalar de R$ 6,12 milhões registrado em 2023. O valor do convênio não equivale ao total pago.

· Santa Maria: R$ 350 mil pagos em duas emendas de 2025 destinadas ao Fundo Municipal de Saúde.

· Sítio Novo: registros de convênios e emendas, mas sua prefeita anunciou a saída do PT em maio de 2025. Classificar a administração do município como petista durante todo o período distorce a comparação.

· São Fernando: R$ 300 mil pagos em emenda de 2025 à prefeitura, além de registros destinados a outras entidades, que precisam ser contabilizados separadamente.

O que esses dados permitem afirmar? Existem recursos registrados para municípios de diferentes posições políticas. Há diferenças relevantes que merecem explicação, mas o levantamento não comprova favorecimento partidário nem permite descartar totalmente alguma possibilidade de seletividade.

Para avançar, precisaríamos conhecer os pedidos apresentados, os critérios de aprovação, os impedimentos técnicos e o tempo até o pagamento, comparando municípios com necessidades semelhantes. Emendas também exigem identificar a autoria parlamentar e as regras de execução.

Por exemplo, quantos pedidos formais de celebração de convênios foram formulados pela prefeitura de Portalegre ao governo estadual? Será que o governo estadual tem realmente capacidade fiscal para atendimento de demandas das diferentes gestões municipais?

Nos dados coletados, verifica-se uma limitação significativa do governo na celebração de convênios, inclusive com as gestões do mesmo partido da governadora. Com exceção de UM convênio celebrado, em 2023, com a gestão de Currais Novos (acima de 6mi), nada de representativo foi identificado para respaldar que alguma gestão dependeria da eleição de certo candidato ao governo para funcionar.

Evidentemente que dinheiro público exige critérios públicos e verificáveis e essa cobrança vale para aliados e adversários.

Nota: valores nominais, sem correção pela inflação. Os repasses constitucionais de 2026 abrangem janeiro a maio; as emendas, até setembro. A série de pagamentos de convênios permanece incompleta, e foram identificadas divergências de conciliação nas planilhas constitucionais.

Mais informações: https://www.transparencia.rn.gov.br/

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

ARTIGO: CRESCIMENTO ECONÔMICO, POLARIZAÇÃO E DESENVOLVIMENTO GEOGRÁFICO DESIGUAL: UMA INTERPRETAÇÃO DA QUESTÃO REGIONAL BRASILEIRA

Boanerges De Freitas Barreto Filho

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN

Francisco do Ó de Lima Júnior

Universidade Regional do Cariri - URCA

DOI:

https://doi.org/10.22410/issn.1983-036X.v33i3a2026.4625

Resumo: O artigo analisa a permanência do debate acerca do trade-off entre crescimento econômico e equilíbrio regional, tomando como referência a persistente desigualdade entre Nordeste e Centro-Sul no Brasil. Busca responder em que medida o crescimento econômico tende a produzir convergência territorial e por que as disparidades regionais brasileiras permanecem elevadas mesmo após sucessivos ciclos de crescimento, integração de mercados e intervenção estatal. Parte-se do pressuposto de que o crescimento econômico tende a produzir processos iniciais de concentração espacial e polarização regional, cuja persistência ou reversão depende das estruturas produtivas existentes, das capacidades institucionais dos territórios e da ação das políticas públicas. O objetivo consiste em analisar o debate teórico sobre o trade-off entre crescimento econômico e equilíbrio regional, articulando-o a uma interpretação histórico-estrutural da desigualdade Nordeste–Centro-Sul. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica de caráter analítico-crítico, fundamentada em revisão narrativa crítica da literatura especializada e orientada por uma abordagem histórico-estrutural inspirada no estruturalismo latino-americano, na economia regional e na economia política do desenvolvimento. Os resultados indicam que a persistência da questão regional brasileira não decorre de um trade-off inevitável entre crescimento e equilíbrio territorial, mas da interação histórica entre mecanismos de causalidade cumulativa, heterogeneidades estruturais e processos de desenvolvimento geográfico desigual. Mesmo após sucessivos ciclos de crescimento econômico e integração do mercado nacional, persistem expressivas diferenças regionais de produtividade, renda e estrutura produtiva. Conclui-se que a redução efetiva das assimetrias regionais exige estratégias capazes de articular crescimento econômico, transformação produtiva, fortalecimento das capacidades territoriais e justiça territorial.

Palavras-chave: desenvolvimento regional, desigualdades regionais, heterogeneidade estrutural, desenvolvimento geográfico desigual.

ARTIGO COMPLETO: AQUI

RESENHA DO LIVRO “A QUALIDADE DO CRESCIMENTO”, DE VINOD THOMAS ET AL.

 

O livro “A Qualidade do Crescimento” (The Quality of Growth), publicado pelo Banco Mundial no ano 2000 e de autoria de Vinod Thomas, Ashok Dhareshwar, Daniel Kaufmann, Mansoor Dailami, Nalin Kishor, Ramón López e Yan Wang, é uma obra que se destaca por oferecer uma análise crítica e abrangente sobre os limites da ênfase tradicional no crescimento econômico quantitativo. O texto representa uma inflexão importante dentro do próprio Banco Mundial, sugerindo uma reformulação do paradigma de desenvolvimento centrado exclusivamente no Produto Interno Bruto (PIB), para uma concepção mais ampla e qualitativa do progresso.

A obra parte da premissa de que o crescimento econômico, embora necessário, não é suficiente para garantir o bem-estar das populações e a sustentabilidade das transformações econômicas. O conceito central de “qualidade do crescimento” introduzido pelos autores abarca dimensões como:

  • Equidade na distribuição de renda;
  • Sustentabilidade ambiental;
  • Desenvolvimento humano (educação, saúde);
  • Instituições sólidas e boa governança;
  • Estabilidade macroeconômica com inclusão social.

O livro é dividido em capítulos temáticos que exploram essas múltiplas dimensões, buscando evidências empíricas de como diferentes países obtiveram resultados distintos apesar de taxas similares de crescimento do PIB. Ao fazer isso, os autores mostram que o “como” se cresce é tão ou mais importante do que “quanto” se cresce.

Um dos méritos centrais do livro está em sua crítica às abordagens convencionais de desenvolvimento econômico que negligenciam aspectos qualitativos. A obra destaca, por exemplo, que o crescimento sem políticas redistributivas tende a aumentar a desigualdade, e que a degradação ambiental pode comprometer os ganhos econômicos futuros. Além disso, insiste na importância de instituições democráticas e transparentes para que os frutos do crescimento sejam compartilhados mais amplamente.

Daniel Kaufmann, conhecido por seus estudos sobre governança, e Ramón López, especialista em economia ambiental, acrescentam à obra análises que apontam para a necessidade de reformas institucionais profundas e de investimentos em capital natural e humano como condição para um crescimento duradouro e equitativo.

“A Qualidade do Crescimento” representa um avanço significativo dentro da literatura econômica voltada para o desenvolvimento, especialmente por vir de uma instituição como o Banco Mundial. A obra antecipa e dialoga com temas que se tornariam centrais nas décadas seguintes, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e o debate sobre “crescimento verde”.

No entanto, a obra ainda se mantém dentro dos marcos de uma economia política liberal, evitando questionar de forma mais profunda as estruturas de poder globais, a financeirização da economia e a dependência de países periféricos em relação aos centros do capitalismo. Por isso, embora reformista, seu horizonte permanece tecnocrático e alinhado a uma lógica de eficiência e governança mais do que de transformação social radical.

“A Qualidade do Crescimento” é uma leitura essencial para estudantes, formuladores de políticas públicas e estudiosos do desenvolvimento. Ao defender uma visão mais integrada e sustentável do crescimento, os autores contribuem para um debate mais rico e multidimensional sobre o futuro das economias em desenvolvimento. Apesar de seus limites teóricos, a obra segue relevante, especialmente num momento em que os desafios climáticos e sociais exigem repensar profundamente as bases do crescimento econômico.

Referência

THOMAS, Vinod et al. A qualidade do crescimento. tradução Élcio Fernandes. São Paulo: UNESP, 2002.

Disponível em:

<https://documents1.worldbank.org/curated/en/465131468178175702/pdf/20924PortugVer-318000010.pdf>

terça-feira, 13 de outubro de 2026

ARTIGO: FEIRA LIVRE E FEIRA AGROECOLÓGICA COMO CANAIS DE COMERCIALIZAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR EM SÃO MIGUEL-RN DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19 (2021–2022)

  • Vanessa da Silva Oliveira
  • UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE (UERN)
  • Boanerges de Freitas Barreto Filho
    • UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE (UERN)

  • Resumo: O presente artigo analisa os impactos da pandemia de COVID-19 sobre dois importantes canais de comercialização da agricultura familiar no município de São Miguel-RN: a feira livre e a feira agroecológica. A pesquisa adotou abordagem qualitativa e quantitativa, baseada em levantamento bibliográfico, análise de dados secundários e pesquisa de campo realizada junto aos feirantes que comercializam produtos da agricultura familiar nesses mercados. Foram aplicados questionários estruturados, além de registros fotográficos das atividades comerciais. Os resultados indicam que as medidas sanitárias adotadas para conter a disseminação do vírus provocaram alterações significativas na dinâmica de funcionamento das feiras, afetando diretamente a comercialização da produção agrícola local. Observou-se redução no volume de vendas, perdas de produtos perecíveis, diminuição da renda proveniente da atividade e redução da força de trabalho envolvida nos processos produtivos e comerciais. Diante desse cenário, os agricultores familiares passaram a adotar estratégias alternativas de comercialização, como vendas por meio de redes sociais, entregas domiciliares e comércio porta a porta. Conclui-se que a pandemia provocou uma desestruturação temporária desses canais de comercialização, evidenciando a vulnerabilidade socioeconômica da agricultura familiar diante de choques externos e a importância das feiras para a sustentabilidade econômica das famílias rurais.
  • Palavras-chave:

    Canais de comercialização; Agricultura familiar; Feiras; Pandemia de COVID-19; Mercados locais.

ARTIGO COMPLETO: AQUI

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

HERDEIROS DO PODER NO NORDESTE: levantamento das famílias políticas eleitas em 2026 e comparação com 2022

Numa varredura ampla das eleições de 2026 revela-se que a reprodução familiar do poder não é exclusividade de um partido, de uma região específica ou de um campo ideológico. Há exemplos entre grupos de direita, centro e esquerda, com filhos, netos, irmãos, cônjuges e sobrinhos ocupando simultaneamente ou sucessivamente cargos eletivos.

A análise precisa, porém, separar três fenômenos: herança familiar, quando uma pessoa constrói sua trajetória em um ambiente político transmitido por parentes; concentração familiar de mandatos, quando integrantes de uma mesma família ocupam cargos simultaneamente; e favorecimento comprovado, que exige evidências específicas, não podendo ser presumido apenas pelo parentesco (algo que demandaria uma avaliação criteriosa e com o aprofundamento inviável para o propósito adotado neste momento).

A cobertura das eleições de 2026 já identificou numerosos casos em diferentes estados. O Ceará publicou um levantamento de 20 deputados estaduais e federais eleitos que são filhos de políticos; Pernambuco apresenta famílias com representantes em várias instituições; e o Maranhão tem um exemplo expressivo de concentração familiar de candidaturas.

Panorama por estado: principais famílias e vínculos identificados

Critério: parentesco com agentes políticos que exerceram ou exercem cargos eletivos, incluindo titulares e, quando documentados, suplentes. A classificação descreve vínculos familiares, não irregularidades.

Alagoas: a família Lira avança, enquanto os Calheiros sofrem derrotas

Concentração familiar

Família Lira

Arthur Lira (PP) foi eleito senador, enquanto seu filho, Alvinho Lira, conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados. A eleição de pai e filho para casas legislativas diferentes representa um caso direto de expansão da representação familiar.

JHC foi eleito governador, enquanto sua esposa, Marina JHC, conquistou uma cadeira no Senado. O caso combina a chefia do Executivo estadual com representação parlamentar federal dentro do mesmo núcleo familiar.

Remi Calheiros, irmão de Renan Calheiros, foi reeleito deputado estadual. Em contrapartida, Renan Calheiros perdeu a disputa pelo Senado e Renan Filho não conseguiu se eleger governador. A família perdeu posições importantes, mas manteve representação no Legislativo estadual.

O caso demonstra que a herança política pode facilitar a entrada e a permanência na disputa, mas não garante vitória eleitoral.

Família Roma

Roberta Roma (PL), esposa do ex-ministro João Roma, foi eleita deputada federal. O vínculo conjugal conecta a representação parlamentar a uma liderança que já ocupou cargos de destaque no Executivo federal e na política baiana.

ACM Neto, neto de Antônio Carlos Magalhães, voltou a disputar o Governo da Bahia, mas foi derrotado por Jerônimo Rodrigues (PT), repetindo o resultado de 2022. A trajetória mostra a permanência de um sobrenome tradicional na disputa estadual, sem que isso assegure a conquista do Executivo.

Ceará - o caso com evidência quantitativa mais expressiva

20 deputados com vínculos familiares

O Diário do Nordeste identificou 20 deputados estaduais e federais eleitos em 2026 que são filhos de políticos: pelo menos 13 entre os 46 integrantes eleitos da Assembleia Legislativa e sete entre os 22 deputados federais.

Entre os casos identificados estão:

Eleito em 2026

Vínculo familiar documentado

Davi de Raimundão

Filho de Raimundo Macedo, ex-prefeito e ex-deputado

Osmar Baquit

Filho de ex-prefeito de Quixadá

Sérgio Aguiar

Filho de Francisco Aguiar, ex-deputado e ex-governador

Moses Filho

Filho do deputado federal Moses Rodrigues e neto do prefeito de Sobral, Oscar Rodrigues

Guilherme Landim

Filho da prefeita Gislaine Landim e do ex-presidente da Assembleia Welington Landim

Manu Pimenta

Filha do prefeito de Quixeramobim, Cirilo Pimenta

Lia Gomes

Filha do ex-prefeito de Sobral José Euclides e irmã de Cid e Ciro Gomes

André Fernandes

Filho do deputado estadual Alcides Fernandes

Matheus Noronha

Filho do ex-deputado federal Genecias Noronha e da ex-deputada estadual Aderlânia Noronha

Domingos Neto

Filho de Domingos Filho, ex-vice-governador, e da prefeita Patrícia Aguiar

Luisa Cela

Filha da ex-governadora Izolda Cela e do ex-prefeito Veveu Arruda

AJ Albuquerque

Filho do deputado estadual Zezinho Albuquerque

Nenen Coelho

Filho do ex-prefeito Murica

Fonte: levantamento do Diário do Nordeste publicado em 6 de outubro de 2026. A lista acima apresenta uma seleção dos casos documentados, não os 20 nomes completos.

O caso de Moses Filho é particularmente ilustrativo porque a família possui representantes em diferentes gerações: o pai foi eleito deputado federal e o filho conquistou uma vaga na Assembleia. No caso de Lia Gomes, o parentesco conecta sua trajetória à família Ferreira Gomes, historicamente influente no Ceará.

Comparação com 2022: o Observatório de Políticas Públicas da UFC, reproduzindo levantamento do Diário do Nordeste, apontou que pelo menos 49 dos 69 deputados estaduais, federais e senador eleitos no Ceará em 2022 tinham ou haviam tido parentes com mandatos eletivos - aproximadamente 71%.

Há, portanto, evidência de continuidade do fenômeno. Contudo, os indicadores não são perfeitamente equivalentes: o levantamento de 2022 abrange parentes com mandatos atuais ou passados, enquanto a contagem de 2026 citada acima se concentra em filhos de políticos. Não seria metodologicamente correto concluir que houve aumento ou redução apenas comparando os dados.

Maranhão: a família Maranhãozinho e a tentativa de preservar o grupo político

Família Maranhãozinho

O levantamento eleitoral identificou quatro parentes de Josimar Maranhãozinho eleitos em 2026:

  • Detinha, esposa, eleita deputada estadual;

  • Josimar Júnior, filho, eleito deputado estadual;

  • Fabiana Vilar, sobrinha, eleita deputada federal;

  • Aldir Júnior, sobrinho, eleito deputado federal.

A composição mantém integrantes do mesmo núcleo familiar nas duas casas legislativas.

O governador Carlos Brandão havia apoiado a candidatura do sobrinho Orleans Brandão à sucessão estadual. Orleans, porém, não conquistou o Governo do Estado: Eduardo Braide venceu a disputa. A tentativa de sucessão familiar no Executivo não teve êxito, embora outros grupos familiares tenham mantido posições legislativas.

Paraíba: a família Motta e os limites da sucessão política

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), foi reeleito deputado federal. Seu pai, Nabor Wanderley, disputou uma vaga no Senado, mas ficou em terceiro lugar.

O caso mostra a presença de pai e filho na política estadual e nacional, mas também evidencia que o capital eleitoral da família não é automaticamente transferido de um cargo para outro.

A derrota de Nabor não altera o fato de que Hugo conserva sua posição na Câmara. Ao mesmo tempo, impede que a família amplie sua representação federal por meio de uma cadeira no Senado.

Comparação com 2022: a cobertura pré-eleitoral daquele ano já identificava famílias políticas na disputa pelo Governo da Paraíba, incluindo descendentes de lideranças tradicionais. A eleição de 2026 mantém a relevância dessas relações, mas os resultados precisam ser avaliados individualmente para não confundir parentesco com controle efetivo do poder.

Pernambuco: a maior diversidade de configurações familiares entre os casos identificados

Famílias em várias instituições

Pernambuco apresenta uma combinação de sucessão entre gerações, irmãos em casas legislativas diferentes e famílias com representação simultânea no Senado, na Câmara e na Assembleia Legislativa. O Diário de Pernambuco documentou os seguintes núcleos familiares:

Família

Representantes eleitos ou em posição política relevante em 2026

Tipo de vínculo

Campos-Arraes

Pedro Campos, Marília Arraes e Maria Arraes

Irmãos e descendentes de Miguel Arraes; Câmara, Senado e Assembleia

Lyra

Raquel Lyra

Filha do ex-governador João Lyra Neto e neta de João Lyra Filho; reeleita governadora

Ferreira

Anderson Ferreira e André Ferreira

Irmãos; Câmara dos Deputados e Assembleia

Coelho

Fernando Filho e Antonio Coelho

Irmãos e filhos do ex-senador Fernando Bezerra Coelho

Da Fonte

Lula da Fonte

Filho de Eduardo da Fonte e neto do ex-governador Carlos Wilson

Costa

João Paulo Costa e Silvio Costa Filho

Irmãos; Assembleia e Câmara

Oliveira

Waldemar Oliveira e Sebastião Oliveira

Irmãos; Câmara e Assembleia

Uchoa

Guilherme Uchoa Junior

Filho do ex-deputado Guilherme Uchoa

Vasconcelos

Jarbas Filho

Filho do ex-governador Jarbas Vasconcelos

Lira

Joaquim Lira

Filho do ex-prefeito Elias Lira

Albino

Cayo Albino

Filho do prefeito Sivaldo Albino

A família Campos-Arraes é particularmente significativa: Pedro Campos foi reeleito deputado federal; Marília Arraes foi eleita senadora; e Maria Arraes conquistou vaga na Assembleia Legislativa. Os três descendem de Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco. João Campos, irmão de Pedro, disputou o governo estadual e terminou em segundo lugar.

Comparação com 2022: a presença dos Campos-Arraes já era documentada naquele pleito, quando Pedro Campos conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados. Em 2026, a família ampliou a presença institucional com a eleição de Marília ao Senado e de Maria à Assembleia.

Piauí: continuidade política e necessidade de maior verificação individual

No Piauí, as fontes consultadas destacam a continuidade de grupos políticos com forte presença no Executivo e no Legislativo, especialmente em torno do PT e de seus aliados. A permanência de um mesmo grupo partidário no governo, entretanto, não equivale automaticamente a uma dinastia familiar.

A distinção é importante: hegemonia partidária, continuidade administrativa e herança familiar são fenômenos relacionados, mas não idênticos.

Rio Grande do Norte: famílias tradicionais, casais políticos e suplências

O caso potiguar já permite identificar diversas configurações familiares:

  • Adjuto Dias: filho de Álvaro Dias, candidato ao Governo do Estado, reeleito deputado estadual.

  • Cinthia de Allyson: esposa de Allyson Bezerra, candidato ao Governo do Estado, eleita deputada estadual.

  • Kaline de Dr. Bernardo e Dr. Bernardo: casal eleito para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados, respectivamente.

  • Nina: esposa de Paulinho Freire, prefeito de Natal, eleita deputada federal.

  • João Maia e Zenaide Maia: irmãos com trajetórias parlamentares; João foi eleito deputado federal e Zenaide não conseguiu a reeleição ao Senado.

  • Kelly Valentim: irmã de Styvenson Valentim e primeira suplente do senador reeleito.

  • Walter Alves: filho de Garibaldi Alves Filho, ex-governador e ex-senador, permanece como vice-governador, embora não tenha sido eleito deputado estadual em 2026.

Esses vínculos estão documentados nas biografias políticas e nas informações eleitorais sobre os candidatos e as chapas.

Comparação com 2022: a eleição de 2022 já mostrava a presença de Adjuto Dias na Assembleia e de João Maia na Câmara. A eleição de 2026 mantém algumas dessas trajetórias e acrescenta novas configurações, como a eleição simultânea de cônjuges para casas legislativas diferentes.

O Rio Grande do Norte também ilustra a importância de não reduzir a análise à titularidade dos cargos: a primeira suplência do Senado pode constituir uma posição política relevante, mas não deve ser contabilizada como mandato titular exercido.

Sergipe: sobrenomes políticos e representação parlamentar

Em Sergipe, a pesquisa identificou a presença de Yandra Moura entre os eleitos para a Câmara dos Deputados. Seu vínculo com André Moura, liderança política que já exerceu mandato parlamentar e ocupou posições de destaque, merece inclusão em um levantamento de herança familiar.

A mesma cautela vale para outros estados: a ausência de um caso nesta síntese significa que ele não foi suficientemente confirmado nesta varredura, e não que inexista parentesco político entre os eleitos.

O que mudou de 2022 para 2026?

A comparação disponível aponta para três movimentos principais.

1. Continuidade de famílias já estabelecidas

Os casos Campos-Arraes em Pernambuco e de famílias políticas no Ceará demonstram que os vínculos familiares identificados em 2022 continuaram relevantes em 2026. Em Pernambuco, a família Arraes ampliou sua presença em diferentes casas legislativas. No Ceará, a pesquisa jornalística identificou 20 deputados eleitos que são filhos de políticos.

Alagoas, Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Norte mostram exemplos de familiares que ocupam simultaneamente o Legislativo estadual, a Câmara dos Deputados, o Senado ou o Executivo. Essa distribuição amplia a presença institucional dos grupos, embora não prove, por si só, coordenação política ou favorecimento.

As derrotas de Renan Calheiros e Renan Filho em Alagoas, de ACM Neto na Bahia, de Ciro Gomes no Ceará, de Nabor Wanderley na Paraíba e de Walter Alves no Rio Grande do Norte mostram que o capital familiar não garante vitória. A permanência de outros parentes eleitos, por sua vez, indica que um grupo pode perder uma disputa majoritária e conservar representação em outras instituições.

Não é metodologicamente seguro afirmar que o filhotismo aumentou ou diminuiu no Nordeste entre 2022 e 2026 a partir dos dados atualmente disponíveis. Os levantamentos publicados (e consultados) usam critérios diferentes: alguns contabilizam filhos de políticos, outros incluem irmãos, cônjuges, sobrinhos, parentes com mandatos antigos ou integrantes de famílias tradicionais.

Para produzir uma comparação estatística rigorosa, seria necessário aplicar o mesmo critério aos resultados dos dois anos, examinando todos os eleitos para governador, Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados e Senado em cada um dos nove estados.

O filhotismo é uma prática da direita ou também existe na esquerda?

A evidência disponível não sustenta a ideia de que a herança política seja exclusiva de um campo ideológico.

Direita e centro-direita

  • Alagoas: Arthur Lira e Alvinho Lira; JHC e Marina JHC.

  • Maranhão: Josimar Maranhãozinho, Detinha, Josimar Júnior e os sobrinhos Fabiana Vilar e Aldir Júnior.

  • Pernambuco: famílias Ferreira, Coelho e outros grupos associados a partidos de centro e direita.

  • Bahia: Roberta Roma, esposa de João Roma, e a trajetória familiar de ACM Neto.

  • Rio Grande do Norte: Cinthia de Allyson (deputada estadual) e Allyson (ex-prefeito de Mossoró e candidato ao governo), João Maia (deputado federal reeleito - irmão da senadora Zenaide Maia, que não conseguiu a reeleição), Styvenson Valentim, em que a 1ª suplente (Kelly Valentim) é irmã do senador reeleito, Adjuto Dias (deputado estadual reeleito - filho de Álvaro Dias - terceiro lugar na disputa para o governo estadual, ex-prefeito de Natal).

Esquerda e centro-esquerda

  • Pernambuco: Campos-Arraes, com Pedro Campos, Marília Arraes e Maria Arraes em cargos distintos.

  • Ceará: Lia Gomes e outros deputados eleitos com vínculos familiares, em diferentes partidos, inclusive no campo governista (Partido dos Trabalhadores e aliados).

  • Rio Grande do Norte: Dr. Bernardo (atual deputado estadual) foi eleito deputado federal e sua esposa, Kaline de Dr. Bernardo foi eleita deputada estadual, Gustavo Soares (deputado estadual reeleito e irmão do ex-deputado George Soares, atualmente conselheiro do TCE-RN).

Esses exemplos não significam que todos os casos tenham o mesmo peso ou que os grupos atuem da mesma maneira. Os casos identificados na varredura mostram que o fenômeno atravessa partidos e ideologias.

A esquerda pode defender participação popular, redução das desigualdades e democratização das instituições e, ainda assim, lançar mão de sobrenomes tradicionais para disputar eleições. 

A direita, por sua vez, também reúne grupos familiares com trajetórias eleitorais consolidadas. 

A contradição política deve ser examinada à luz das práticas concretas, não presumida apenas pela filiação partidária.

A análise também precisa de precisão jurídica.

Situação

O que pode ser afirmado

Filho, cônjuge ou irmão eleito para cargo público

O parentesco é um fato político relevante, mas não constitui ilegalidade por si só.

Parentes eleitos simultaneamente para cargos diferentes

Há concentração familiar de representação.

Parente indicado como suplente de senador

É compatível com as condições legais para eventual exercício do mandato.

Parente nomeado para cargo administrativo

A nomeação deve ser examinada à luz das regras sobre nepotismo e da natureza do cargo. Não se aplica ao caso de mandatos eletivos.

Uso de recursos públicos ou da estrutura estatal para favorecer candidatura familiar

Exigiria evidências concretas e análise pelas autoridades competentes.

O nepotismo administrativo e a reprodução familiar de mandatos eletivos são questões relacionadas, mas juridicamente diferentes. A existência de uma família com vários representantes não prova, isoladamente, violação da lei.

Conclusão: o poder não é hereditário, mas pode ser reproduzido por estruturas familiares

A varredura realizada sobre alguns vínculos familiares a partir dos resultados das eleições de 2026 identifica casos expressivos de continuidade familiar no Nordeste. O Ceará oferece um indicador quantitativo importante, com 20 deputados estaduais e federais eleitos que são filhos de políticos. Pernambuco demonstra como uma mesma família pode manter representantes em diferentes casas legislativas. Maranhão e Alagoas apresentam exemplos de expansão ou reorganização de núcleos familiares, enquanto o Rio Grande do Norte evidencia a combinação de sucessão entre gerações, casais políticos e vínculos presentes nas suplências.

A comparação com 2022 aponta para a permanência do fenômeno, mas também para derrotas de famílias tradicionais e mudanças na distribuição do poder. Não há, com os dados reunidos nesta etapa, base para afirmar que o filhotismo aumentou ou diminuiu de forma uniforme nos nove estados.

A principal conclusão é que a herança política atravessa a esquerda, a direita e o centro, mas não produz os mesmos resultados em todas as famílias. Alguns grupos ampliam sua representação; outros perdem disputas importantes; e outros mantêm influência mesmo quando um de seus integrantes deixa de conquistar um novo mandato.

Para transformar essa análise em um diagnóstico completo, o próximo passo seria construir uma matriz de todos os eleitos de 2022 e 2026 nos nove estados, com nome, cargo, partido, parentesco documentado, cargos ocupados pelos familiares e fonte comprobatória. Só então seria possível medir a proporção de herdeiros por estado, comparar os resultados de maneira consistente e investigar se os vínculos familiares se associam a vantagens eleitorais sistemáticas.

O debate sobre o "filhotismo" não deve ser reduzido a uma disputa entre direita e esquerda. Trata-se de uma questão de democratização do acesso ao poder: as oportunidades de representação estão abertas à sociedade ou permanecem concentradas em famílias que acumulam influência política ao longo de gerações?

Fontes principais para aprofundamento

Nota de transparência: esta varredura ampla identificou casos relevantes e oferece uma comparação inicial com 2022, mas não comprova que todos os eleitos dos nove estados tenham sido examinados individualmente. A publicação de percentuais regionais ou de uma classificação definitiva demandaria uma pesquisa profunda, capaz de mostrar o cruzamento nominal de todos os eleitos e respectivos parentes, usando critérios uniformes para os dois pleitos.

A ideia da postagem é fomentar o debate sobre a democratização das eleições nos estados nordestinos, sem prejulgamento da capacidade dos eleitos, sem menosprezo a legitimidade dos resultados etc.

Para classificar os eleitos de 2026 como herdeiros políticos, seria necessário verificar, nome por nome, os vínculos de parentesco dos deputados estaduais, federais e senadores com ex-governadores, prefeitos e parlamentares. Não há base suficiente, nas fontes identificadas nesta varredura, para apresentar uma lista nominal completa e segura dos nove estados.