Um comentário inicial: a ideia de escrever sobre o assunto foi motivada por uma conversa rápida com um conterrâneo sobre a política brasileira. Trata-se de um fã fervoroso dos Beatles (e de John Lennon) e, surpreendentemente, apoiador do bolsonarismo.
Entre a paz para todos e a suposta “guerra ao crime”,
a preservação ambiental e a exploração econômica desmedida, a solidariedade e a lógica implacável do mercado, os programas dos dois candidatos revelam diferentes maneiras de
imaginar o futuro do Brasil.
Em 1971, John Lennon e Yoko Ono lançaram “Imagine”,
uma canção que atravessou gerações ao propor um exercício de imaginação
política e humanista: pensar em um mundo menos dividido por fronteiras,
religiões, disputas nacionais e interesses materiais; uma humanidade capaz de
compartilhar o planeta, superar antagonismos e viver em paz.
Mais do que uma canção sobre a paz, “Imagine” tornou-se uma provocação sobre os valores que organizam a vida coletiva.
Que sociedade estamos construindo?
A segurança deve ser obtida a qualquer custo?
O crescimento econômico justifica a degradação ambiental?
A prosperidade de
alguns é suficiente quando milhões enfrentam a fome e a desigualdade?
Essas perguntas oferecem um ponto de partida
interessante para examinar os programas de governo de Flávio Bolsonaro e Luiz
Inácio Lula da Silva para o período 2027-2030.
Trata-se, sobretudo, de exercício de imaginação,
orientado por uma música que toca profundamente a minha alma.
É importante esclarecer, principalmente neste
momento de profunda divisão que marca o povo brasileiro: “Imagine” não é
um programa de governo, tampouco apresenta uma política ambiental detalhada. A
comparação proposta aqui é interpretativa, especialmente imaginativa. Trata-se
de confrontar os valores humanistas, pacifistas e solidários associados à obra
de Lennon e Ono com as prioridades, os instrumentos e as contradições presentes
nas propostas dos candidatos.
O resultado não é uma disputa sobre quem gosta mais
de paz ou de natureza, mas uma análise de como cada projeto pretende
transformar esses valores – ou subordiná-los a outras prioridades – em políticas
públicas. Certamente, e infelizmente, nenhum dos dois candidatos considerou a
mensagem da canção “Imagine” para construir suas propostas.
1. Paz para quem? O significado
da segurança pública
A primeira diferença aparece na concepção de paz.
Em “Imagine”, a paz está associada à
superação das divisões que transformam diferenças em motivos para matar ou
morrer. A mensagem sugere que a humanidade precisa questionar as estruturas
culturais e políticas que alimentam conflitos.
No programa de Flávio Bolsonaro, a segurança
pública ocupa lugar central, com propostas de endurecimento penal, ampliação da
capacidade prisional, reconhecimento facial, fortalecimento das forças
policiais e combate ostensivo ao crime organizado. A linguagem de
enfrentamento, inclusive com a expressão “guerra ao crime”, evidencia uma concepção de
segurança fortemente apoiada na capacidade coercitiva do Estado.
Há uma finalidade legítima nessa preocupação:
proteger a população contra homicídios, roubos, tráfico de drogas e
organizações criminosas. Nenhuma sociedade pode prescindir de instituições
capazes de garantir direitos e enfrentar a violência.
A questão essencial, porém, é saber se a paz será
compreendida apenas como imposição da ordem ou também como redução das causas da violência,
prevenção, respeito aos direitos fundamentais e diminuição das mortes.
Uma política de segurança compatível com o
horizonte humanista de “Imagine” precisaria ser avaliada pela redução
dos homicídios, das mortes em intervenções policiais, da reincidência criminal
e da violência contra grupos vulneráveis.
O programa de Lula, por sua vez, associa a
segurança pública à atuação coordenada do Estado, ao fortalecimento das
instituições e à articulação com políticas sociais. Sua orientação geral é menos centrada na retórica de
guerra e mais vinculada à coordenação institucional e à prevenção.
No teste de “Imagine”,
a pergunta decisiva é: qual estratégia tem melhores condições de proteger
vidas, reduzir a violência e preservar os direitos de todos.
2. Soberania nacional ou
humanidade sem fronteiras?
Lennon e Ono convidam o público a imaginar um mundo
no qual os países não sejam razões para matar ou morrer. Trata-se de uma crítica ao nacionalismo quando ele
transforma a identidade nacional em antagonismo permanente. Para um país
existir não é necessário eliminar os outros, como parecem acreditar Trump,
Putin e outros mais.
Flávio Bolsonaro enfatiza a soberania brasileira, o controle territorial, o fortalecimento das fronteiras. Porém, trata-se de uma soberania limitada, uma vez que as relações estratégicas com países como Estados Unidos e Israel são apresentadas como essenciais.
Essa orientação corresponde
a uma visão de política externa na qual essas alianças estratégicas ocupam
posição central. O alinhamento, principalmente com Trump, parece se sobrepor a
posição que a diplomacia brasileira construiu ao longo de décadas. E o
delineamento geral sinaliza que as guerras do Trump também poderão ser do Brasil
bolsonarista.
Lula também defende a soberania nacional, mas dá
maior destaque ao multilateralismo, à diplomacia, à cooperação internacional e
à solução pacífica de controvérsias. Sua proposta de política externa procura
ampliar a atuação brasileira em organismos internacionais e fortalecer as
relações com países do Sul Global.
Nesse aspecto, há uma aproximação mais explícita
entre o programa de Lula e o universalismo de “Imagine”. A valorização
do diálogo e das instituições multilaterais está mais próxima da ideia de que
os conflitos devem ser enfrentados pela negociação, e não pela transformação de
adversários em inimigos permanentes.
Isso não significa que defender a soberania
nacional seja incompatível com o pacifismo. Tampouco significa que a política
externa de Lula corresponda integralmente ao ideal de Lennon. Os dois
candidatos atuam dentro de uma ordem internacional na qual interesses
econômicos, disputas geopolíticas e necessidades de defesa continuam
determinantes.
O teste mais rigoroso consiste em perguntar se o
Brasil utilizará sua influência para promover negociações, defender o direito
internacional e aplicar princípios consistentes diante de conflitos envolvendo
aliados e adversários? Ou vai aderir ao belicismo patrocinado por Trump?
Nesse eixo,
Lula apresenta maior convergência programática com o ideal de cooperação
internacional de “Imagine”, embora a atuação efetiva de qualquer governo
precise ser julgada por suas decisões concretas.
3. Meio ambiente: patrimônio da
humanidade ou ativo econômico?
É no debate ambiental que a comparação ganha uma
dimensão particularmente importante.
A canção “Imagine” não formula uma agenda
ecológica. Entretanto, sua mensagem de solidariedade e compartilhamento do
mundo permite elaborar o seguinte questionamento: a natureza deve ser protegida apenas quando sua
conservação oferece retorno econômico ou também porque dela dependem a vida, a
saúde e o futuro das próximas gerações?
O programa de Flávio Bolsonaro, em seu capítulo
dedicado ao meio ambiente, procura conciliar conservação e desenvolvimento
econômico. Entre as propostas apresentadas estão o combate ao desmatamento
ilegal até 2029, o uso de tecnologias para fiscalização, o pagamento por
serviços ambientais, o incentivo à bioeconomia e a ampliação das energias
renováveis.
O problema está na coerência entre esses
compromissos e outras propostas do mesmo programa, como a exploração de gás não
convencional por fraturamento hidráulico (fracking) e a flexibilização
de procedimentos de licenciamento ambiental.
Agilizar o licenciamento não é necessariamente
prejudicial. Prazos claros e processos eficientes podem melhorar a
administração pública. Entretanto, a simplificação torna-se problemática quando compromete a qualidade
dos estudos, a fiscalização, a participação das comunidades ou a prevenção de
danos irreversíveis.
A questão central é se a conservação continuará sendo prioridade quando entrar em conflito com interesses econômicos imediatos. Os posicionamentos públicos de inúmeros políticos do PL e aliados, de membros da família Bolsonaro e do próprio candidato não permitem dúvidas de que os interesses econômicos serão preponderantes em relação as questões ambientais.
O desmonte da
fiscalização ambiental, a tolerância com garimpo ilegal e invasões de terras indígenas
e outras mazelas ambientais patrocinadas durante o governo de Jair Bolsonaro sinalizam
para um futuro tenebroso para a agenda ambiental.
O programa de Lula apresenta uma agenda climática
mais abrangente. Propõe alcançar o desmatamento líquido zero até 2030, proteger
os biomas, ampliar a adaptação às mudanças climáticas, fortalecer a segurança
hídrica e expandir as fontes renováveis de energia.
A diferença não é apenas a existência de compromissos
ambientais, mas o lugar que a crise climática ocupa na organização do programa.
No caso de Lula, ela aparece como questão transversal ao desenvolvimento, à
infraestrutura e à política externa.
Ainda assim, há uma contradição importante: o governo
também pretende manter investimentos em petróleo e gás, ao mesmo tempo que
promove a transição energética. A exploração de combustíveis fósseis pode ser
justificada por razões de segurança energética e financiamento público, mas
seus efeitos precisam ser confrontados com as metas de redução das emissões.
No teste
ambiental de “Imagine”, Lula apresenta uma convergência programática
mais ampla.
Flávio, por sua vez, reúne propostas subordinadas a uma estratégia que
enfatiza mais explicitamente a exploração econômica dos recursos naturais
brasileiros.
4. Fome, desigualdade e a lógica
da acumulação
Outra passagem fundamental de “Imagine” é a
crítica à ganância e a possibilidade de imaginar um mundo sem fome, no qual os
recursos sejam compartilhados.
A mensagem de Lennon e Ono traz uma provocação
moral e política: por que a abundância material convive com a privação de
tantas pessoas?
Os programas de Lula e Flávio oferecem respostas
diferentes a essa questão.
Lula prioriza a redução das desigualdades por meio
de políticas sociais, segurança alimentar, valorização do trabalho, serviços
públicos e medidas de redistribuição. Sua proposta procura reduzir a pobreza e
ampliar as condições materiais de vida sem abandonar a economia de mercado.
Flávio Bolsonaro enfatiza a propriedade privada, o
empreendedorismo, o crédito, a autonomia econômica e a criação de oportunidades
para que as famílias ampliem seu patrimônio. A aposta é que o crescimento, o
investimento e a atividade privada contribuam para a prosperidade.
Essas orientações não são inteiramente
incompatíveis. O empreendedorismo pode gerar renda e emprego, assim como o
investimento privado pode contribuir para o financiamento de serviços e
infraestrutura. Políticas sociais, por sua vez, podem ampliar a capacidade das
pessoas de trabalhar, estudar e empreender.
A divergência está na prioridade atribuída à
distribuição dos resultados econômicos e no papel do Estado para garanti-la.
O Brasil ainda é um dos países mais desiguais do
planeta, mesmo após os inúmeros avanços sociais conquistados a partir da estabilidade
econômica conquistada a partir do Plano Real e, sem sombra de dúvidas, pelo
conjunto de políticas públicas instituídos por Lula/Dilma.
A acusação de que o PT é comunista não se sustenta
por nenhuma justificativa, mas a persistência da desigualdade é a prova
definitiva. Fosse o PT um partido minimamente comunista não persistiria o cenário
de desigualdade. Não obstante, os avanços conquistados parecem um grande
desaforo para os devotos do bolsonarismo.
Uma leitura inspirada em “Imagine”
perguntaria se o crescimento econômico consegue reduzir a fome e a pobreza de
forma duradoura, se os ganhos são distribuídos de maneira justa e se as pessoas
que não conseguem transformar trabalho em patrimônio dispõem de condições
dignas de vida.
Por que esse ódio em recusar a necessidade de políticas de cotas? Por que recusar o combate da insegurança alimentar? Da desigualdade de renda? Da pobreza? Por que não reconhecer os direitos da comunidade LGBTQIA+? Por que não reconhecer que as mulheres, na sociedade machista brasileira, precisam de leis como Maria da Penha e do feminicídio? Por que não aceitar que as pessoas mais vulneráveis tenham acesso à moradia, à educação e à saúde?
Por que algo assim é tão inaceitável?
5. Dois projetos, duas
hierarquias de valores
A comparação permite identificar uma diferença mais
profunda do que a oposição entre esquerda e extrema direita.
Flávio Bolsonaro organiza seu programa em torno da guerra ao crime (cujo campo de batalha coloca milhões de civis pobres na zona de ‘guerra’), da soberania limitada, pois declara alinhamento explicito aos interesses do governo Trump, da defesa da propriedade privada acima do interesse coletivo, da liberdade individual em que o pobre tem que competir sem suporte de políticas sociais e do crescimento econômico a qualquer custo. A preservação ambiental aparece subordinada à geração de riqueza.
Lula organiza o seu programa em torno da redução
das desigualdades, da proteção social, da cooperação internacional, do
desenvolvimento sustentável e do enfrentamento da crise climática. Ainda assim,
mantém compromissos com a expansão econômica e com setores produtivos que podem
gerar tensões ambientais.
Para tornar essa avaliação mais clara, podemos
sintetizar o resultado do teste:
|
Critério
inspirado em Imagine |
Flávio
Bolsonaro |
Lula |
|
Paz e
redução dos antagonismos |
Ênfase
maior na repressão e no fortalecimento coercitivo do Estado – guerra ao
crime, cujo campo de batalha é o lar da pobreza suburbana |
Maior
ênfase na diplomacia, na cooperação e na coordenação institucional |
|
Cooperação
internacional |
Soberania
limitada e alianças estratégicas como prioridades explícitas e totalmente
alinhadas aos interesses de Trump |
Multilateralismo
e diálogo internacional como prioridades explícitas |
|
Proteção
ambiental |
Conservação
subordinada à exploração econômica, inclusive de biomas como a floresta amazônica. |
Agenda
climática transversal, com metas de conservação e adaptação |
|
Transição
energética |
Expansão
da exploração de gás, petróleo, conciliada com biocombustíveis |
Renováveis
combinadas com continuidade de investimentos em petróleo e gás |
|
Combate
à desigualdade |
Ênfase
em propriedade privada, empreendedorismo e autonomia econômica individual –
ética do cada um por si |
Ênfase
em políticas sociais, trabalho e redução das desigualdades |
|
Principal
tensão |
Uso da
força e exploração econômica diante dos ideais de paz e conservação |
Conciliação
entre justiça social, expansão econômica e compromissos climáticos |
Essas
Essas classificações são uma interpretação dos
documentos à luz dos princípios escolhidos.
6. Afinal, quem passa pelo teste de Imagine?
Se o critério for a convergência explícita com o
pacifismo, a cooperação internacional, a redução da fome e a centralidade da
crise climática, o programa de Lula apresenta maior proximidade com a mensagem
humanista de Lennon e Ono.
Essa aproximação é particularmente visível na
política externa, na centralidade conferida à redução das desigualdades e na
presença de uma agenda climática abrangente.
O programa de Flávio Bolsonaro, por sua vez, não é
desprovido de propostas ambientais ou de objetivos de proteção da vida. Há
compromissos com a fiscalização do desmatamento e as energias renováveis.
Entretanto, sua ênfase na repressão penal (foco em encarceramento em massa e ‘guerra’
ao crime, cujo confrontamento em áreas densamente povoadas podem gerar grande
quantidade de vítimas inocentes), na soberania limitada com total alinhamento
aos interesses de Trump e na exploração econômica dos recursos naturais revela
tensões mais acentuadas com os ideais universalistas e pacifistas de “Imagine”.
A diferença fundamental está na concepção de
sociedade que orienta as escolhas públicas.
Lennon e Ono nos convidam a imaginar uma humanidade
na qual a segurança não dependa da perpetuação de inimigos, a prosperidade não
conviva indiferentemente com a fome e a exploração econômica não comprometa as
condições de vida no planeta.
Esse horizonte não oferece respostas prontas para
os dilemas da administração pública, mas serviram como critérios para eu questionar
as prioridades elencadas nos dois programas de governo.
O programa de
Lula passa pelo teste de Imagine de maneira mais convincente no plano
das intenções e das orientações declaradas.
O de Flávio enfrenta tensões mais
profundas com o pacifismo e com uma visão da natureza que ultrapasse seu valor
econômico.
No fim, a pergunta é: qual projeto político está
mais preparado para transformar paz, solidariedade e preservação ambiental em
resultados verificáveis?
Porque imaginar um mundo melhor é apenas o começo.
O verdadeiro teste está nas escolhas feitas quando os ideais entram em conflito
com os interesses econômicos, as disputas de poder e as urgências do presente
frente a ética intergeracional.
Mais do que definir qual programa é "melhor" ou "pior", o objetivo final é convidar o leitor a sair do pragmatismo eleitoral imediato e pensar nos valores fundamentais (justiça, igualdade, fraternidade) que devem guiar o futuro do país.
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Nota editorial: esta comparação utiliza os programas de governo divulgados para 2027-2030 e interpreta suas propostas à luz da mensagem de “Imagine”. As classificações são avaliações qualitativas, de cunho eminentemente pessoal, e que, no limite, arvoram-se ao chamamento para refletir que Brasil desejamos para o futuro?
Fontes de referência: programa de governo de Flávio
Bolsonaro; programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva; materiais oficiais
de John Lennon e Yoko Ono sobre “Imagine”; e reportagens da Agência
Brasil sobre as propostas ambientais e de política externa dos candidatos.