O episódio protagonizado por General Girão na Universidade Federal do Rio Grande do Norte não representa uma simples divergência entre direita e esquerda. As acusações contra estudantes, o confronto físico e a utilização política das imagens levantam uma questão mais profunda: estamos diante de mais um capítulo da ofensiva da extrema direita contra a universidade pública, sua autonomia e seu papel na formação do pensamento crítico?
Uma
universidade transformada em palco de confronto
No dia 19 de outubro de 2026, a Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, tornou-se cenário de um
confronto entre participantes de uma manifestação de extrema direita e
estudantes que se opunham ao ato.
A manifestação, intitulada “Vire à direita: UFRN
anti-Lula”, contou com a participação do deputado federal General Girão
(PL-RN), da vereadora Camila Araújo (PL) e de outras lideranças conservadoras.
O evento terminou em tumulto, com empurrões, agressões físicas, danos patrimoniais
e estudantes feridos.
Mas o episódio não se resume à violência física.
Em entrevista posterior, Girão afirmou que
estudantes da universidade promoviam “baderna” e vendiam drogas, classificou
universitários que demoram a concluir seus cursos como “estudantes profissionais”
e acusou a segurança do campus de ter sido “fraca, omissa e talvez até
conivente”. Segundo reportagem do Saiba Mais, o deputado não apresentou provas
que sustentassem suas acusações contra os estudantes.
Reportagem: Saiba Mais - Sem provas, Girão acusa alunos da UFRN de
tráfico e segurança de omissão.
A questão torna-se ainda mais relevante diante das
declarações atribuídas ao parlamentar no vídeo divulgado pelo Blog do Barreto,
no qual ele associa a UFRN à “vadiagem”, à “embromação”, ao tráfico de drogas e
ao consumo de entorpecentes.
Essas expressões não se confundem com uma simples
cobrança por melhorias na segurança ou na administração universitária. Quando
utilizadas para caracterizar genericamente o ambiente acadêmico, tais
declarações podem funcionar como instrumentos de desqualificação da instituição
e de seus integrantes.
As falas atribuídas ao deputado Girão depreciam
todos que trabalham ou estudam naquele ambiente.
É necessário distinguir, evidentemente, a crítica
legítima à universidade de uma acusação generalizada contra sua comunidade.
Denúncias de tráfico devem ser investigadas quando existirem elementos
concretos. Não é razoável, porém, transformar suspeitas não demonstradas em uma
caracterização de estudantes (ou servidores) como criminosos.
A liberdade de expressão protege o direito de um
deputado criticar a universidade, o governo federal e os movimentos estudantis,
mas não torna suas afirmações imunes ao escrutínio público, nem elimina
eventuais responsabilidades por abusos.
Parece óbvio que se faz necessária uma investigação
sobre o ato ocorrido na UFRN e, principalmente, sobre a fala do deputado em
relação a suposta ocorrência de tráfico de drogas naquele espaço em que proferiu
as acusações.
A
provocação não é um detalhe: é parte do problema
A análise do episódio precisa considerar a natureza
das declarações, o local em que foram proferidas e o contexto de confronto em
que ocorreram.
Afirmar que determinada política universitária é
inadequada é uma coisa. Associar a instituição, de maneira generalizada, à
vadiagem e ao tráfico de drogas é outra bem diferente.
No segundo caso, o discurso deixa de se concentrar
em problemas específicos e passa a desqualificar um ambiente inteiro. A
universidade aparece não como uma instituição com problemas passíveis de
investigação e correção, mas como um espaço supostamente degenerado, onde a
atividade acadêmica seria pretexto para comportamentos ilícitos.
O deputado sabe que essa representação pode
produzir efeitos políticos importantes: reforça preconceitos contra estudantes,
alimenta a desconfiança em relação à universidade pública e transforma uma
instituição de ensino, pesquisa e extensão em alvo de hostilidade.
O contexto agrava a preocupação. As declarações
foram associadas a uma manifestação de oposição ao governo Lula, realizada
dentro do campus e contestada por estudantes, que estavam em seu horário
regular de aulas. O deputado sabe (ou deveria saber) que em um ambiente já
polarizado, expressões depreciativas e acusações criminais sem sustentação
apresentada podem contribuir para acirrar os ânimos.
Isso não significa atribuir automaticamente ao
deputado a responsabilidade por todas as agressões que ocorreram. Tampouco
significa justificar a violência praticada por estudantes ou por qualquer outro
participante.
Significa reconhecer que a provocação política
deve ser examinada como parte da sequência dos acontecimentos, e não descartada
como um elemento irrelevante diante da violência física.
A investigação precisa esclarecer quem iniciou as
agressões, quais foram as condutas individuais, se houve ameaças ou estímulo à
hostilidade e como as declarações e as reações se sucederam.
O debate democrático exige que a liberdade de
expressão não seja utilizada como justificativa automática para práticas de
intimidação ou para acusações graves sem fundamento verificável. O ônus da
prova recai sobre quem acusa. Cabe ao deputado apresentar as provas que dispõe sobre
as práticas de vadiagem e tráfico de drogas, bem como indicar os servidores
públicos que sabem e, supostamente, toleram essas práticas.
O
ataque à universidade e a tradição do anti-intelectualismo
O episódio da UFRN ganha outra dimensão quando
analisado à luz de uma tendência documentada no Brasil e em outros países: a
deslegitimação das universidades por setores autoritários e da extrema direita.
Em maio de 2025, o Jornal da Unicamp publicou a
reportagem “Ataques às universidades expõem ‘ódio ao conhecimento’”. O
texto reuniu exemplos de ataques à autonomia universitária, campanhas de
descredibilização, ameaças, vandalismo e tentativas de intimidar estudantes e
docentes.
A publicação recuperou também análises sobre a
deterioração das condições institucionais das universidades brasileiras durante
o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, incluindo iniciativas que
atingiram a autonomia e a imagem das instituições federais.
Leia: Jornal da Unicamp - Ataques às universidades expõem “ódio ao
conhecimento”.
Em julho de 2026, Bruno Ciorlia Nascimento e
Marcelo de Trói, pesquisadores vinculados à Universidade de São Paulo,
publicaram no Jornal da USP uma análise intitulada “O que está por trás do
ataque da extrema direita às universidades públicas?”.
Os autores examinam invasões à Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ocorridas em 2025, e discutem como
determinadas ações podem ser organizadas como performances políticas: o
confronto é registrado, transformado em conteúdo audiovisual e disseminado nas
redes sociais para produzir visibilidade, indignação e engajamento.
Os pesquisadores relacionam esse fenômeno ao
anti-intelectualismo e à circulação digital de discursos autoritários. Em sua
interpretação, as universidades são alvos porque representam espaços de
produção de conhecimento, pluralidade e contestação de crenças e hierarquias
estabelecidas.
Leia: Jornal da USP - O que está por trás do ataque da extrema
direita às universidades públicas?.
Essa literatura oferece uma chave de interpretação
para o episódio potiguar
O discurso que apresenta a universidade como lugar
de “vadiagem”, “embromação” e “tráfico de drogas” pode ser examinado como parte
de uma retórica anti-intelectualista, sobretudo quando desqualifica a
instituição de maneira abrangente e sem apresentar evidências para as
acusações.
É importante não confundir essa interpretação com
uma conclusão automática sobre as intenções pessoais de Girão. O enquadramento
do discurso como anti-intelectualista é uma hipótese analítica sustentada por
suas características e pelo contexto político, obviamente não é uma prova de
que o deputado tenha planejado deliberadamente um ataque à produção científica.
A pergunta pertinente é: quando a universidade é
apresentada sistematicamente como um ambiente de corrupção moral, doutrinação
ou criminalidade, quais são as consequências para sua legitimidade perante a
sociedade?
Uma das consequências possíveis é que o debate
sobre problemas reais do ensino superior seja substituído por uma campanha de
desconfiança contra a própria instituição ou, de maneira mais abrangente,
contra a educação superior pública.
Além de tentar descredibilizar toda a comunidade acadêmica
da UFRN é defensável supor que o deputado Girão, a vereadora Camila e demais
organizadores, escolheram aquele local para externarem o ódio contra a educação
pública.
O que
significa chamar esse fenômeno de fascismo?
O emprego da palavra “fascismo” exige rigor
conceitual. Nem todo conservadorismo é fascismo; nem toda manifestação
agressiva da direita pode ser automaticamente classificada dessa maneira.
O fascismo histórico foi marcado, entre outros
aspectos, pelo ultranacionalismo autoritário, pela rejeição do pluralismo
democrático, pela mobilização política de massas, pela construção de inimigos
internos e pela legitimação da violência contra adversários.
As experiências fascistas também foram acompanhadas
por ataques à liberdade intelectual, à autonomia das instituições e à produção
cultural e científica que contrariavam seus projetos políticos.
Na atualidade, pesquisadores utilizam conceitos
como neofascismo, extrema direita autoritária e fascismo em rede para examinar
fenômenos contemporâneos que apresentam algumas dessas características, embora
existam diferenças históricas importantes.
No artigo publicado em julho de 2026, os
pesquisadores Bruno Ciorlia Nascimento e Marcelo de Trói empregam a ideia de
“fascismo em rede” para interpretar determinadas performances políticas da extrema
direita nas universidades. A expressão se refere à articulação entre discursos
autoritários, ações de confronto e sua circulação nas plataformas digitais.
O conceito é útil para pensar o caso da UFRN, mas
não autoriza uma conclusão automática sobre cada participante do ato ou sobre a
existência de uma organização fascista coordenando todos os episódios.
A questão é saber se determinadas práticas
apresentam características recorrentes: deslegitimação do conhecimento,
hostilidade à pluralidade, construção de adversários como inimigos, intimidação
e utilização de confrontos para alimentar a mobilização política.
Se essas características aparecem de forma
consistente, o debate sobre autoritarismo e fascismo deixa de ser apenas uma
disputa de rótulos e passa a ser uma investigação sobre práticas concretas.
No caso da UFRN, a associação genérica da
universidade à criminalidade, a desqualificação dos estudantes e o confronto
que se seguiu justificam examinar essa hipótese, sem antecipar conclusões que
dependam de outras evidências.
Do
discurso da “balbúrdia” à desqualificação dos estudantes
A história recente oferece outro elemento de
comparação: o discurso sobre a suposta “balbúrdia” nas universidades federais
durante o governo Bolsonaro.
Em 2019, declarações de integrantes do governo
associaram universidades a comportamentos inadequados e questionaram a
qualidade de suas atividades. O debate ocorreu em paralelo a controvérsias
sobre cortes e contingenciamentos orçamentários, autonomia institucional e financiamento
da educação superior.
A crítica à qualidade do ensino e à aplicação dos
recursos públicos é legítima. O problema surge quando episódios isolados são
generalizados para caracterizar toda uma instituição ou quando a
desqualificação pública se converte em justificativa para enfraquecer sua
autonomia.
A semelhança com o episódio da UFRN está na
construção discursiva de um ambiente acadêmico supostamente improdutivo,
moralmente suspeito ou dominado por interesses políticos ilegítimos.
No caso atual, a referência a estudantes que
permaneceriam por muito tempo na universidade, associada à acusação de venda de
drogas, cria uma narrativa na qual a permanência estudantil aparece vinculada à
improdutividade e à criminalidade.
Mas estudantes podem demorar a concluir seus cursos
por diferentes razões: trabalho, dificuldades financeiras, responsabilidades
familiares, problemas de saúde, deficiências na oferta de disciplinas ou outras
circunstâncias. A permanência prolongada não constitui evidência de tráfico ou de
qualquer outro crime.
Se existem problemas de evasão, retenção ou
segurança, cabe à universidade produzir diagnósticos e adotar medidas
fundamentadas. A generalização depreciativa não substitui a investigação.
A universidade pública deve ser cobrada por resultados,
transparência e qualidade. Mas a cobrança responsável começa pelo conhecimento
dos fatos, e não pela desqualificação de seus estudantes ou servidores.
A
violência física e o espetáculo digital
O confronto na UFRN também precisa ser analisado
sob a perspectiva da comunicação política contemporânea.
A reportagem da Tribuna do Norte descreveu o ato, a
reação dos estudantes, os empurrões, os danos ao patrimônio e os ferimentos
registrados durante o tumulto. O Saiba Mais relatou as acusações posteriores de
Girão contra estudantes e a segurança universitária.
Fontes:
- Tribuna do Norte - General Girão é acionado no Conselho
de Ética da Câmara após ato na UFRN.
- Saiba Mais - Sem provas, Girão acusa alunos da UFRN de
tráfico e segurança de omissão.
As imagens de confronto podem adquirir vida própria
nas redes sociais. Um acontecimento complexo, com diferentes participantes e
responsabilidades, é frequentemente condensado em vídeos curtos, títulos
provocativos e narrativas que apresentam um grupo como vítima absoluta e o
outro como inimigo.
Essa dinâmica pode favorecer a circulação de
conteúdos que provocam indignação, reforçam identidades políticas e mobilizam
apoiadores. Os pesquisadores da USP identificaram mecanismos semelhantes na
análise de invasões à FFLCH-USP.
Isso levanta uma questão importante: uma
manifestação pode ser pensada não apenas para transmitir uma mensagem aos
presentes, mas também para produzir imagens destinadas a circular
posteriormente nas redes?
A resposta é sim, essa é uma possibilidade
conhecida na comunicação política digital. Mas, no caso específico da UFRN,
seria necessário examinar os registros, as publicações dos organizadores, os
materiais de convocação e a sequência dos acontecimentos para concluir se houve
planejamento dessa natureza.
É claro que o fato de um vídeo ser publicado ou
viralizar não prova que o confronto tenha sido provocado deliberadamente para
gerar engajamento dos “convertidos”.
Por outro lado, a possibilidade de transformar
conflitos em conteúdo político é uma razão adicional para investigar se os organizadores
adotaram comportamentos que aumentaram a tensão ou buscaram produzir cenas de
confronto.
A análise deve considerar não apenas o que ocorreu
diante das câmeras, mas também como o episódio foi narrado e explorado depois.
Cabem a Polícia Federal e ao MPF a adoção das
providências cabíveis para apuração e, eventual, responsabilização dos
envolvidos.
A
política do medo: mobilização ou intimidação?
A referência à estratégia do medo atribuída a Pablo
Marçal acrescenta uma dimensão relevante à discussão.
Segundo a informação do Portal G1, Marçal teria
orientado cerca de 300 influenciadores digitais, em um evento de campanha ao
lado de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, a utilizar o medo como recurso de
mobilização e comunicação eleitoral.
A recomendação de utilizar o medo na comunicação
política não demonstraria, por si só, qualquer vínculo operacional com o ato da
UFRN. De novo, cabe aos órgãos responsáveis a apuração dos fatos.
O medo é um recurso recorrente na política. Pode
ser mobilizado por discursos sobre insegurança, perda de direitos, ameaças
econômicas, mudanças culturais ou riscos atribuídos a adversários.
O problema democrático aparece quando a comunicação
passa a construir grupos inteiros como ameaças, dissemina acusações não
comprovadas ou transforma a hostilidade contra adversários em elemento central
da mobilização.
No ambiente universitário, a associação genérica
entre estudantes, drogas, desordem e improdutividade pode contribuir para criar
uma imagem de perigo moral e social. Quando combinada com manifestações de
confronto, essa representação pode aumentar a tensão e alimentar a polarização.
É necessário, porém, distinguir três hipóteses:
- Mobilização pelo medo: utilizar ameaças percebidas
para atrair apoiadores e reforçar a identidade de um grupo.
- Intimidação política: adotar comportamentos que
possam constranger ou desencorajar a participação de adversários.
- Provocação deliberada de violência:
planejar ou estimular um confronto físico.
Essas situações não são equivalentes e exigem
evidências diferentes.
A análise do episódio da UFRN pode investigar se o
discurso contribuiu para intimidar estudantes ou intensificar o conflito. A
hipótese de que os organizadores pretendiam provocar agressões requer provas
adicionais, como mensagens, orientações ou registros de planejamento. Algo que
não seria tão difícil de comprovação a partir de uma investigação policial.
Há um
movimento coordenado contra universidades?
O episódio da UFRN não deve ser analisado
isoladamente, mas, por prudência, não pode ser automaticamente inserido em uma
suposta operação nacional sem investigação.
O Jornal da Unicamp documentou episódios de
ataques, vandalismo e ameaças em diferentes instituições, incluindo a
Universidade de Brasília e a própria Unicamp. O artigo da USP, por sua vez,
examinou ações de grupos da extrema direita na FFLCH-USP e sua repercussão
digital.
Esses registros permitem identificar um fenômeno
mais amplo de hostilidade contra universidades públicas. Não demonstram, por si
só, que todos os episódios foram planejados por uma mesma organização.
No Rio Grande do Norte, a ocorrência de conflitos
ou tentativas de intimidação em mais de uma instituição federal justifica
investigar eventuais conexões entre os acontecimentos.
Para demonstrar coordenação, seria necessário
comparar:
- os organizadores e os grupos políticos envolvidos;
- as datas e os métodos de convocação;
- os materiais de divulgação e as mensagens utilizadas;
- a participação de lideranças comuns;
- as orientações eventualmente compartilhadas;
- a utilização das imagens dos episódios nas redes sociais.
A existência de discursos semelhantes pode indicar
circulação de repertórios políticos, embora não seja comprovação da existência de
um comando central.
Também é preciso evitar atribuir a todos os
integrantes de um partido ou campo ideológico a responsabilidade pelas ações de
determinados participantes.
A questão central é verificar se há uma combinação
recorrente de deslegitimação da universidade, provocação, intimidação e
exploração digital dos conflitos – e se existem evidências de que essas
práticas estão conectadas.
A recorrência e até a escalada dos episódios requerem
atuação firme das autoridades competentes. Episódios em São Paulo, Rio de
Janeiro, Roraima, Paraíba, Rio Grande do Norte etc., precisam de investigações
específicas, mas também de atuação ampla, pois uma suposta conexão não pode ser
descartada de antemão.
O
orçamento: uma forma menos visível de enfraquecer a universidade
Os ataques às universidades não se limitam a
manifestações públicas, ameaças ou confrontos. Também é necessário discutir as
condições materiais de funcionamento do ensino superior.
A pesquisa científica requer laboratórios,
bibliotecas, equipamentos, bolsas, manutenção predial, contratação de pessoal e
financiamento contínuo. A permanência estudantil depende de assistência,
alimentação, moradia e outras políticas que permitam aos alunos concluir seus
cursos.
Cortes e contingenciamentos podem comprometer essas
atividades, sobretudo quando atingem despesas discricionárias essenciais ao
funcionamento das instituições.
O Jornal da Unicamp documentou, em sua análise de
2025, tanto ataques discursivos quanto medidas institucionais que afetaram a
autonomia universitária e as condições de pesquisa.
Para 2026, o Andes-SN também publicou uma análise
sobre perdas orçamentárias das universidades federais e o crescimento dos
recursos destinados a emendas parlamentares.
Quando campanhas de deslegitimação da universidade
coincidem com decisões que reduzem sua capacidade de pesquisa, ensino e
assistência estudantil, é necessário investigar os efeitos combinados dessas
medidas. O enfraquecimento material das universidades pode reduzir sua
capacidade de cumprir a missão pública, mesmo sem qualquer invasão ou confronto
físico.
O poder político obtido pela extrema direita na
Câmara dos Deputados e, mais ainda, no Senado Federal já sugere um cenário
desafiador para as universidades públicas e a ciência brasileira no próximo quadriênio.
O prognóstico se torna sombrio com a eleição de um presidente de extrema
direita e o cenário de desmantelamento da universidade pública e da ciência brasileira
totalmente plausível.
Defender a universidade, portanto, significa também
defender financiamento adequado, autonomia acadêmica, transparência e avaliação
pública de resultados.
Quais
são as possíveis consequências jurídicas para General Girão?
A crítica política ao comportamento do deputado não
deve ser confundida com uma condenação antecipada. Existem questões jurídicas
concretas que merecem apuração.
Possível
infração eleitoral
A realização de uma manifestação política em
universidade pública não constitui automaticamente infração eleitoral. A
liberdade de expressão e de reunião também protege atos críticos ao governo.
A análise deve considerar a finalidade eleitoral, a
forma de utilização do espaço, eventuais irregularidades na propaganda e as
circunstâncias do evento. A ADPF 548 do Supremo Tribunal Federal protege a
liberdade de manifestação política nas universidades e impede que a legislação
eleitoral seja utilizada como instrumento de censura. Assim, a existência de
infração depende da análise dos fatos pelas autoridades competentes.
Crimes
contra a honra
A imputação de tráfico de drogas a pessoas
identificáveis pode suscitar investigação por calúnia, caso estejam presentes
os requisitos legais, inclusive a atribuição falsa de fato definido como crime.
Outras declarações podem ser examinadas sob a
perspectiva da difamação ou da injúria, conforme seu conteúdo, destinatários e
contexto.
O fato de a acusação ter sido dirigida
genericamente aos estudantes torna especialmente importante determinar se as
pessoas supostamente atingidas são identificáveis ou determináveis. A apuração
interna determinada pelo Reitor servirá para reunir mais elementos sobre os
fatos e atos praticados na UFRN.
Incitação
à violência
O artigo 286 do Código Penal trata da incitação
pública à prática de crime. Uma declaração depreciativa ou provocativa não
configura automaticamente esse delito. Não obstante, é necessário verificar se
houve estímulo público à prática de uma conduta criminosa e/ou se o desfecho de
confronto foi algo previamente planejado.
Dano
moral coletivo
A responsabilidade civil pode ser discutida quando
as declarações e condutas ultrapassam os limites legais da liberdade de expressão
e produzem lesão juridicamente relevante a interesses coletivos.
Demonstrar os elementos da responsabilidade civil e
identificar o interesse coletivo atingido não parecem aspectos tão complexos,
inclusive pela abundância de material publicado nas redes sociais, declarações
públicas e, provavelmente, pelo desfecho das apurações determinadas pelo Reitor
da UFRN.
Quebra de
decoro parlamentar
A representação apresentada ao Conselho de Ética da
Câmara dos Deputados examinará a conduta de Girão à luz dos deveres inerentes
ao mandato.
A presença no ato não constitui, isoladamente,
quebra de decoro. Mas as declarações, a eventual participação na escalada do
conflito e possíveis atos de intimidação podem ser relevantes para a avaliação
disciplinar, caso comprovados e enquadrados nas normas aplicáveis.
Diferentemente do que parecem desejar os adeptos da
extrema direita, a apuração deve observar o contraditório, a individualização
das condutas e a proporcionalidade das eventuais sanções.
O que
deve ser investigado?
Não restam dúvidas de que o caso exige uma apuração
que não se limite à disputa sobre quem começou o confronto.
É necessário identificar os autores das agressões,
esclarecer as circunstâncias dos ferimentos, verificar os danos ao patrimônio,
analisar a atuação da segurança universitária etc., e, principalmente, as
responsabilidades dos organizadores do ato.
Também é importante preservar e examinar os vídeos
integrais, identificar as declarações efetivamente proferidas e verificar se
houve ameaças, estímulo à hostilidade ou tentativas de impedir manifestações
contrárias.
A Justiça Eleitoral deve examinar os aspectos
eleitorais que estiverem dentro de sua competência. O Conselho de Ética deve
avaliar a conduta parlamentar, caso a representação prossiga. E as autoridades
responsáveis pela investigação criminal devem apurar eventuais delitos com base
em provas.
Por fim, se houver suspeita de articulação entre episódios
em diferentes universidades, a investigação deve procurar conexões concretas
entre organizadores, comunicações, recursos e estratégias de divulgação.
O rigor é indispensável.
Conclusão:
defender a universidade é defender a democracia
O episódio da UFRN coloca em evidência uma questão
que ultrapassa a polarização eleitoral.
A universidade pública é um espaço de conhecimento,
pesquisa, formação profissional, pluralidade e debate. Evidentemente que a
universidade pública não está imune a críticas, problemas de gestão ou
irregularidades. Mas sua legitimidade não pode ser atacada por generalizações
que associem estudantes à criminalidade sem demonstração dos fatos.
As declarações atribuídas a General Girão merecem
escrutínio porque vão além de uma crítica administrativa convencional. Ao
associar a comunidade acadêmica à vadiagem, à embromação e ao tráfico, o
discurso pode contribuir para deslegitimar a instituição e alimentar a
hostilidade contra seus integrantes.
O episódio também deve ser situado no contexto mais
amplo dos ataques à autonomia universitária, do anti-intelectualismo e da
circulação digital de performances políticas de confronto, fenômenos
documentados por pesquisadores e veículos universitários.
A hipótese de que manifestações desse tipo integrem
uma estratégia de intimidação ou de produção deliberada de conflitos precisa
ser investigada. Não pode ser descartada de antemão, mas também não deve ser apenas
presumida.
O mesmo rigor vale para a discussão sobre fascismo.
O conceito ajuda a interpretar práticas autoritárias quando sustentado por
características concretas, mas perde valor analítico se for empregado apenas
como insulto contra adversários.
A democracia não exige neutralidade diante de
ataques à liberdade acadêmica. Exige capacidade de identificar práticas
autoritárias, demonstrar seus mecanismos e responsabilizar os envolvidos dentro
das regras do Estado de Direito.
Não se trata de defender estudantes de esquerda
contra estudantes de direita, nem de conceder privilégios a uma determinada
corrente política. Trata-se de garantir que pessoas com diferentes posições
possam estudar, ensinar, pesquisar, protestar e expressar suas ideias sem
intimidação ou violência.
Se a universidade for transformada em inimiga, o
conhecimento em suspeita e o confronto em espetáculo eleitoral, o prejuízo
ultrapassará qualquer partido. Será a própria democracia que perderá espaço. O povo
brasileiro será o maior perdedor.
A tarefa dos representantes eleitos é compreender
que o mandato parlamentar não lhes confere licença para desqualificar pessoas
sem fundamento, estimular hostilidades ou tratar a divergência democrática como
uma ameaça a ser combatida.
A universidade pública não pertence à esquerda nem
à direita. Pertence à sociedade. Defender sua autonomia, sua integridade e sua
capacidade de produzir conhecimento é defender um dos espaços fundamentais da
democracia brasileira.
É preciso responsabilidade!