terça-feira, 13 de outubro de 2026

ARTIGO: FEIRA LIVRE E FEIRA AGROECOLÓGICA COMO CANAIS DE COMERCIALIZAÇÃO DA AGRICULTURA FAMILIAR EM SÃO MIGUEL-RN DURANTE A PANDEMIA DE COVID-19 (2021–2022)

  • Vanessa da Silva Oliveira
  • UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE (UERN)
  • Boanerges de Freitas Barreto Filho
    • UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE (UERN)

  • Resumo: O presente artigo analisa os impactos da pandemia de COVID-19 sobre dois importantes canais de comercialização da agricultura familiar no município de São Miguel-RN: a feira livre e a feira agroecológica. A pesquisa adotou abordagem qualitativa e quantitativa, baseada em levantamento bibliográfico, análise de dados secundários e pesquisa de campo realizada junto aos feirantes que comercializam produtos da agricultura familiar nesses mercados. Foram aplicados questionários estruturados, além de registros fotográficos das atividades comerciais. Os resultados indicam que as medidas sanitárias adotadas para conter a disseminação do vírus provocaram alterações significativas na dinâmica de funcionamento das feiras, afetando diretamente a comercialização da produção agrícola local. Observou-se redução no volume de vendas, perdas de produtos perecíveis, diminuição da renda proveniente da atividade e redução da força de trabalho envolvida nos processos produtivos e comerciais. Diante desse cenário, os agricultores familiares passaram a adotar estratégias alternativas de comercialização, como vendas por meio de redes sociais, entregas domiciliares e comércio porta a porta. Conclui-se que a pandemia provocou uma desestruturação temporária desses canais de comercialização, evidenciando a vulnerabilidade socioeconômica da agricultura familiar diante de choques externos e a importância das feiras para a sustentabilidade econômica das famílias rurais.
  • Palavras-chave:

    Canais de comercialização; Agricultura familiar; Feiras; Pandemia de COVID-19; Mercados locais.

ARTIGO COMPLETO: AQUI

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

HERDEIROS DO PODER NO NORDESTE: levantamento das famílias políticas eleitas em 2026 e comparação com 2022

Numa varredura ampla das eleições de 2026 revela-se que a reprodução familiar do poder não é exclusividade de um partido, de uma região específica ou de um campo ideológico. Há exemplos entre grupos de direita, centro e esquerda, com filhos, netos, irmãos, cônjuges e sobrinhos ocupando simultaneamente ou sucessivamente cargos eletivos.

A análise precisa, porém, separar três fenômenos: herança familiar, quando uma pessoa constrói sua trajetória em um ambiente político transmitido por parentes; concentração familiar de mandatos, quando integrantes de uma mesma família ocupam cargos simultaneamente; e favorecimento comprovado, que exige evidências específicas, não podendo ser presumido apenas pelo parentesco (algo que demandaria uma avaliação criteriosa e com o aprofundamento inviável para o propósito adotado neste momento).

A cobertura das eleições de 2026 já identificou numerosos casos em diferentes estados. O Ceará publicou um levantamento de 20 deputados estaduais e federais eleitos que são filhos de políticos; Pernambuco apresenta famílias com representantes em várias instituições; e o Maranhão tem um exemplo expressivo de concentração familiar de candidaturas.

Panorama por estado: principais famílias e vínculos identificados

Critério: parentesco com agentes políticos que exerceram ou exercem cargos eletivos, incluindo titulares e, quando documentados, suplentes. A classificação descreve vínculos familiares, não irregularidades.

Alagoas: a família Lira avança, enquanto os Calheiros sofrem derrotas

Concentração familiar

Família Lira

Arthur Lira (PP) foi eleito senador, enquanto seu filho, Alvinho Lira, conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados. A eleição de pai e filho para casas legislativas diferentes representa um caso direto de expansão da representação familiar.

JHC foi eleito governador, enquanto sua esposa, Marina JHC, conquistou uma cadeira no Senado. O caso combina a chefia do Executivo estadual com representação parlamentar federal dentro do mesmo núcleo familiar.

Remi Calheiros, irmão de Renan Calheiros, foi reeleito deputado estadual. Em contrapartida, Renan Calheiros perdeu a disputa pelo Senado e Renan Filho não conseguiu se eleger governador. A família perdeu posições importantes, mas manteve representação no Legislativo estadual.

O caso demonstra que a herança política pode facilitar a entrada e a permanência na disputa, mas não garante vitória eleitoral.

Família Roma

Roberta Roma (PL), esposa do ex-ministro João Roma, foi eleita deputada federal. O vínculo conjugal conecta a representação parlamentar a uma liderança que já ocupou cargos de destaque no Executivo federal e na política baiana.

ACM Neto, neto de Antônio Carlos Magalhães, voltou a disputar o Governo da Bahia, mas foi derrotado por Jerônimo Rodrigues (PT), repetindo o resultado de 2022. A trajetória mostra a permanência de um sobrenome tradicional na disputa estadual, sem que isso assegure a conquista do Executivo.

Ceará - o caso com evidência quantitativa mais expressiva

20 deputados com vínculos familiares

O Diário do Nordeste identificou 20 deputados estaduais e federais eleitos em 2026 que são filhos de políticos: pelo menos 13 entre os 46 integrantes eleitos da Assembleia Legislativa e sete entre os 22 deputados federais.

Entre os casos identificados estão:

Eleito em 2026

Vínculo familiar documentado

Davi de Raimundão

Filho de Raimundo Macedo, ex-prefeito e ex-deputado

Osmar Baquit

Filho de ex-prefeito de Quixadá

Sérgio Aguiar

Filho de Francisco Aguiar, ex-deputado e ex-governador

Moses Filho

Filho do deputado federal Moses Rodrigues e neto do prefeito de Sobral, Oscar Rodrigues

Guilherme Landim

Filho da prefeita Gislaine Landim e do ex-presidente da Assembleia Welington Landim

Manu Pimenta

Filha do prefeito de Quixeramobim, Cirilo Pimenta

Lia Gomes

Filha do ex-prefeito de Sobral José Euclides e irmã de Cid e Ciro Gomes

André Fernandes

Filho do deputado estadual Alcides Fernandes

Matheus Noronha

Filho do ex-deputado federal Genecias Noronha e da ex-deputada estadual Aderlânia Noronha

Domingos Neto

Filho de Domingos Filho, ex-vice-governador, e da prefeita Patrícia Aguiar

Luisa Cela

Filha da ex-governadora Izolda Cela e do ex-prefeito Veveu Arruda

AJ Albuquerque

Filho do deputado estadual Zezinho Albuquerque

Nenen Coelho

Filho do ex-prefeito Murica

Fonte: levantamento do Diário do Nordeste publicado em 6 de outubro de 2026. A lista acima apresenta uma seleção dos casos documentados, não os 20 nomes completos.

O caso de Moses Filho é particularmente ilustrativo porque a família possui representantes em diferentes gerações: o pai foi eleito deputado federal e o filho conquistou uma vaga na Assembleia. No caso de Lia Gomes, o parentesco conecta sua trajetória à família Ferreira Gomes, historicamente influente no Ceará.

Comparação com 2022: o Observatório de Políticas Públicas da UFC, reproduzindo levantamento do Diário do Nordeste, apontou que pelo menos 49 dos 69 deputados estaduais, federais e senador eleitos no Ceará em 2022 tinham ou haviam tido parentes com mandatos eletivos - aproximadamente 71%.

Há, portanto, evidência de continuidade do fenômeno. Contudo, os indicadores não são perfeitamente equivalentes: o levantamento de 2022 abrange parentes com mandatos atuais ou passados, enquanto a contagem de 2026 citada acima se concentra em filhos de políticos. Não seria metodologicamente correto concluir que houve aumento ou redução apenas comparando os dados.

Maranhão: a família Maranhãozinho e a tentativa de preservar o grupo político

Família Maranhãozinho

O levantamento eleitoral identificou quatro parentes de Josimar Maranhãozinho eleitos em 2026:

  • Detinha, esposa, eleita deputada estadual;

  • Josimar Júnior, filho, eleito deputado estadual;

  • Fabiana Vilar, sobrinha, eleita deputada federal;

  • Aldir Júnior, sobrinho, eleito deputado federal.

A composição mantém integrantes do mesmo núcleo familiar nas duas casas legislativas.

O governador Carlos Brandão havia apoiado a candidatura do sobrinho Orleans Brandão à sucessão estadual. Orleans, porém, não conquistou o Governo do Estado: Eduardo Braide venceu a disputa. A tentativa de sucessão familiar no Executivo não teve êxito, embora outros grupos familiares tenham mantido posições legislativas.

Paraíba: a família Motta e os limites da sucessão política

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), foi reeleito deputado federal. Seu pai, Nabor Wanderley, disputou uma vaga no Senado, mas ficou em terceiro lugar.

O caso mostra a presença de pai e filho na política estadual e nacional, mas também evidencia que o capital eleitoral da família não é automaticamente transferido de um cargo para outro.

A derrota de Nabor não altera o fato de que Hugo conserva sua posição na Câmara. Ao mesmo tempo, impede que a família amplie sua representação federal por meio de uma cadeira no Senado.

Comparação com 2022: a cobertura pré-eleitoral daquele ano já identificava famílias políticas na disputa pelo Governo da Paraíba, incluindo descendentes de lideranças tradicionais. A eleição de 2026 mantém a relevância dessas relações, mas os resultados precisam ser avaliados individualmente para não confundir parentesco com controle efetivo do poder.

Pernambuco: a maior diversidade de configurações familiares entre os casos identificados

Famílias em várias instituições

Pernambuco apresenta uma combinação de sucessão entre gerações, irmãos em casas legislativas diferentes e famílias com representação simultânea no Senado, na Câmara e na Assembleia Legislativa. O Diário de Pernambuco documentou os seguintes núcleos familiares:

Família

Representantes eleitos ou em posição política relevante em 2026

Tipo de vínculo

Campos-Arraes

Pedro Campos, Marília Arraes e Maria Arraes

Irmãos e descendentes de Miguel Arraes; Câmara, Senado e Assembleia

Lyra

Raquel Lyra

Filha do ex-governador João Lyra Neto e neta de João Lyra Filho; reeleita governadora

Ferreira

Anderson Ferreira e André Ferreira

Irmãos; Câmara dos Deputados e Assembleia

Coelho

Fernando Filho e Antonio Coelho

Irmãos e filhos do ex-senador Fernando Bezerra Coelho

Da Fonte

Lula da Fonte

Filho de Eduardo da Fonte e neto do ex-governador Carlos Wilson

Costa

João Paulo Costa e Silvio Costa Filho

Irmãos; Assembleia e Câmara

Oliveira

Waldemar Oliveira e Sebastião Oliveira

Irmãos; Câmara e Assembleia

Uchoa

Guilherme Uchoa Junior

Filho do ex-deputado Guilherme Uchoa

Vasconcelos

Jarbas Filho

Filho do ex-governador Jarbas Vasconcelos

Lira

Joaquim Lira

Filho do ex-prefeito Elias Lira

Albino

Cayo Albino

Filho do prefeito Sivaldo Albino

A família Campos-Arraes é particularmente significativa: Pedro Campos foi reeleito deputado federal; Marília Arraes foi eleita senadora; e Maria Arraes conquistou vaga na Assembleia Legislativa. Os três descendem de Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco. João Campos, irmão de Pedro, disputou o governo estadual e terminou em segundo lugar.

Comparação com 2022: a presença dos Campos-Arraes já era documentada naquele pleito, quando Pedro Campos conquistou uma vaga na Câmara dos Deputados. Em 2026, a família ampliou a presença institucional com a eleição de Marília ao Senado e de Maria à Assembleia.

Piauí: continuidade política e necessidade de maior verificação individual

No Piauí, as fontes consultadas destacam a continuidade de grupos políticos com forte presença no Executivo e no Legislativo, especialmente em torno do PT e de seus aliados. A permanência de um mesmo grupo partidário no governo, entretanto, não equivale automaticamente a uma dinastia familiar.

A distinção é importante: hegemonia partidária, continuidade administrativa e herança familiar são fenômenos relacionados, mas não idênticos.

Rio Grande do Norte: famílias tradicionais, casais políticos e suplências

O caso potiguar já permite identificar diversas configurações familiares:

  • Adjuto Dias: filho de Álvaro Dias, candidato ao Governo do Estado, reeleito deputado estadual.

  • Cinthia de Allyson: esposa de Allyson Bezerra, candidato ao Governo do Estado, eleita deputada estadual.

  • Kaline de Dr. Bernardo e Dr. Bernardo: casal eleito para a Assembleia Legislativa e para a Câmara dos Deputados, respectivamente.

  • Nina: esposa de Paulinho Freire, prefeito de Natal, eleita deputada federal.

  • João Maia e Zenaide Maia: irmãos com trajetórias parlamentares; João foi eleito deputado federal e Zenaide não conseguiu a reeleição ao Senado.

  • Kelly Valentim: irmã de Styvenson Valentim e primeira suplente do senador reeleito.

  • Walter Alves: filho de Garibaldi Alves Filho, ex-governador e ex-senador, permanece como vice-governador, embora não tenha sido eleito deputado estadual em 2026.

Esses vínculos estão documentados nas biografias políticas e nas informações eleitorais sobre os candidatos e as chapas.

Comparação com 2022: a eleição de 2022 já mostrava a presença de Adjuto Dias na Assembleia e de João Maia na Câmara. A eleição de 2026 mantém algumas dessas trajetórias e acrescenta novas configurações, como a eleição simultânea de cônjuges para casas legislativas diferentes.

O Rio Grande do Norte também ilustra a importância de não reduzir a análise à titularidade dos cargos: a primeira suplência do Senado pode constituir uma posição política relevante, mas não deve ser contabilizada como mandato titular exercido.

Sergipe: sobrenomes políticos e representação parlamentar

Em Sergipe, a pesquisa identificou a presença de Yandra Moura entre os eleitos para a Câmara dos Deputados. Seu vínculo com André Moura, liderança política que já exerceu mandato parlamentar e ocupou posições de destaque, merece inclusão em um levantamento de herança familiar.

A mesma cautela vale para outros estados: a ausência de um caso nesta síntese significa que ele não foi suficientemente confirmado nesta varredura, e não que inexista parentesco político entre os eleitos.

O que mudou de 2022 para 2026?

A comparação disponível aponta para três movimentos principais.

1. Continuidade de famílias já estabelecidas

Os casos Campos-Arraes em Pernambuco e de famílias políticas no Ceará demonstram que os vínculos familiares identificados em 2022 continuaram relevantes em 2026. Em Pernambuco, a família Arraes ampliou sua presença em diferentes casas legislativas. No Ceará, a pesquisa jornalística identificou 20 deputados eleitos que são filhos de políticos.

Alagoas, Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Norte mostram exemplos de familiares que ocupam simultaneamente o Legislativo estadual, a Câmara dos Deputados, o Senado ou o Executivo. Essa distribuição amplia a presença institucional dos grupos, embora não prove, por si só, coordenação política ou favorecimento.

As derrotas de Renan Calheiros e Renan Filho em Alagoas, de ACM Neto na Bahia, de Ciro Gomes no Ceará, de Nabor Wanderley na Paraíba e de Walter Alves no Rio Grande do Norte mostram que o capital familiar não garante vitória. A permanência de outros parentes eleitos, por sua vez, indica que um grupo pode perder uma disputa majoritária e conservar representação em outras instituições.

Não é metodologicamente seguro afirmar que o filhotismo aumentou ou diminuiu no Nordeste entre 2022 e 2026 a partir dos dados atualmente disponíveis. Os levantamentos publicados (e consultados) usam critérios diferentes: alguns contabilizam filhos de políticos, outros incluem irmãos, cônjuges, sobrinhos, parentes com mandatos antigos ou integrantes de famílias tradicionais.

Para produzir uma comparação estatística rigorosa, seria necessário aplicar o mesmo critério aos resultados dos dois anos, examinando todos os eleitos para governador, Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados e Senado em cada um dos nove estados.

O filhotismo é uma prática da direita ou também existe na esquerda?

A evidência disponível não sustenta a ideia de que a herança política seja exclusiva de um campo ideológico.

Direita e centro-direita

  • Alagoas: Arthur Lira e Alvinho Lira; JHC e Marina JHC.

  • Maranhão: Josimar Maranhãozinho, Detinha, Josimar Júnior e os sobrinhos Fabiana Vilar e Aldir Júnior.

  • Pernambuco: famílias Ferreira, Coelho e outros grupos associados a partidos de centro e direita.

  • Bahia: Roberta Roma, esposa de João Roma, e a trajetória familiar de ACM Neto.

  • Rio Grande do Norte: Cinthia de Allyson (deputada estadual) e Allyson (ex-prefeito de Mossoró e candidato ao governo), João Maia (deputado federal reeleito - irmão da senadora Zenaide Maia, que não conseguiu a reeleição), Styvenson Valentim, em que a 1ª suplente (Kelly Valentim) é irmã do senador reeleito, Adjuto Dias (deputado estadual reeleito - filho de Álvaro Dias - terceiro lugar na disputa para o governo estadual, ex-prefeito de Natal).

Esquerda e centro-esquerda

  • Pernambuco: Campos-Arraes, com Pedro Campos, Marília Arraes e Maria Arraes em cargos distintos.

  • Ceará: Lia Gomes e outros deputados eleitos com vínculos familiares, em diferentes partidos, inclusive no campo governista (Partido dos Trabalhadores e aliados).

  • Rio Grande do Norte: Dr. Bernardo (atual deputado estadual) foi eleito deputado federal e sua esposa, Kaline de Dr. Bernardo foi eleita deputada estadual, Gustavo Soares (deputado estadual reeleito e irmão do ex-deputado George Soares, atualmente conselheiro do TCE-RN).

Esses exemplos não significam que todos os casos tenham o mesmo peso ou que os grupos atuem da mesma maneira. Os casos identificados na varredura mostram que o fenômeno atravessa partidos e ideologias.

A esquerda pode defender participação popular, redução das desigualdades e democratização das instituições e, ainda assim, lançar mão de sobrenomes tradicionais para disputar eleições. 

A direita, por sua vez, também reúne grupos familiares com trajetórias eleitorais consolidadas. 

A contradição política deve ser examinada à luz das práticas concretas, não presumida apenas pela filiação partidária.

A análise também precisa de precisão jurídica.

Situação

O que pode ser afirmado

Filho, cônjuge ou irmão eleito para cargo público

O parentesco é um fato político relevante, mas não constitui ilegalidade por si só.

Parentes eleitos simultaneamente para cargos diferentes

Há concentração familiar de representação.

Parente indicado como suplente de senador

É compatível com as condições legais para eventual exercício do mandato.

Parente nomeado para cargo administrativo

A nomeação deve ser examinada à luz das regras sobre nepotismo e da natureza do cargo. Não se aplica ao caso de mandatos eletivos.

Uso de recursos públicos ou da estrutura estatal para favorecer candidatura familiar

Exigiria evidências concretas e análise pelas autoridades competentes.

O nepotismo administrativo e a reprodução familiar de mandatos eletivos são questões relacionadas, mas juridicamente diferentes. A existência de uma família com vários representantes não prova, isoladamente, violação da lei.

Conclusão: o poder não é hereditário, mas pode ser reproduzido por estruturas familiares

A varredura realizada sobre alguns vínculos familiares a partir dos resultados das eleições de 2026 identifica casos expressivos de continuidade familiar no Nordeste. O Ceará oferece um indicador quantitativo importante, com 20 deputados estaduais e federais eleitos que são filhos de políticos. Pernambuco demonstra como uma mesma família pode manter representantes em diferentes casas legislativas. Maranhão e Alagoas apresentam exemplos de expansão ou reorganização de núcleos familiares, enquanto o Rio Grande do Norte evidencia a combinação de sucessão entre gerações, casais políticos e vínculos presentes nas suplências.

A comparação com 2022 aponta para a permanência do fenômeno, mas também para derrotas de famílias tradicionais e mudanças na distribuição do poder. Não há, com os dados reunidos nesta etapa, base para afirmar que o filhotismo aumentou ou diminuiu de forma uniforme nos nove estados.

A principal conclusão é que a herança política atravessa a esquerda, a direita e o centro, mas não produz os mesmos resultados em todas as famílias. Alguns grupos ampliam sua representação; outros perdem disputas importantes; e outros mantêm influência mesmo quando um de seus integrantes deixa de conquistar um novo mandato.

Para transformar essa análise em um diagnóstico completo, o próximo passo seria construir uma matriz de todos os eleitos de 2022 e 2026 nos nove estados, com nome, cargo, partido, parentesco documentado, cargos ocupados pelos familiares e fonte comprobatória. Só então seria possível medir a proporção de herdeiros por estado, comparar os resultados de maneira consistente e investigar se os vínculos familiares se associam a vantagens eleitorais sistemáticas.

O debate sobre o "filhotismo" não deve ser reduzido a uma disputa entre direita e esquerda. Trata-se de uma questão de democratização do acesso ao poder: as oportunidades de representação estão abertas à sociedade ou permanecem concentradas em famílias que acumulam influência política ao longo de gerações?

Fontes principais para aprofundamento

Nota de transparência: esta varredura ampla identificou casos relevantes e oferece uma comparação inicial com 2022, mas não comprova que todos os eleitos dos nove estados tenham sido examinados individualmente. A publicação de percentuais regionais ou de uma classificação definitiva demandaria uma pesquisa profunda, capaz de mostrar o cruzamento nominal de todos os eleitos e respectivos parentes, usando critérios uniformes para os dois pleitos.

A ideia da postagem é fomentar o debate sobre a democratização das eleições nos estados nordestinos, sem prejulgamento da capacidade dos eleitos, sem menosprezo a legitimidade dos resultados etc.

Para classificar os eleitos de 2026 como herdeiros políticos, seria necessário verificar, nome por nome, os vínculos de parentesco dos deputados estaduais, federais e senadores com ex-governadores, prefeitos e parlamentares. Não há base suficiente, nas fontes identificadas nesta varredura, para apresentar uma lista nominal completa e segura dos nove estados.