domingo, 18 de março de 2012

É o governo, estúpido!


O governo federal anunciou esta semana mais uma medida (aumento na cobrança de IOF nas operações de crédito externo com prazo de até cinco anos) na tentativa de conter a apreciação do real frente ao dólar. Aliás, o próprio ministro Mantega disse que o governo fará o que for necessário para manter a cotação do dólar em um patamar razoável (que patamar?) para proteger a indústria nacional, que segundo ele já estaria “quebrada” se não fossem as medidas implementadas pelo governo. Mas, antes de discutir as peripécias do senhor ministro, valeria a pena perguntar o que tem causado esta valorização?

Aqui talvez haja uma confusão entre causa e efeito. Nos diagnósticos governamentais, a causa seria o “tsunami monetário” dos países desenvolvidos, usando uma expressão cunhada pelo próprio governo brasileiro. Nesta concepção, os grandes responsáveis pela valorização do real são os países desenvolvidos e, portanto, eles devem ser aqueles em quem devemos colocar a culpa. Será mesmo?

Isto me lembra de uma outra expressão cunhada por um dos assessores de Bill Clinton (ex-presidente americano) durante a campanha presidencial de 1992 contra Geroge Bush. Na época, Bush era considerável imbatível, mas o fraco desempenho da economia acabou tirando todas as chances de reeleição, o que fez alguns ficarem surpresos com a vitória de Bill Clinton. Em resposta aos perplexos, James Carville, cunhou a expressão: “It’s the economy, stupid!” (numa tradução livre: É a economia, estúpido!), associando a vitória de seu candidato ao desempenho da economia. Ali estava a real razão pela derrota de Geroge Bush nas eleições presidenciais.

E o que isto tem a ver com o tsunami monetário e a valorização do real? Na verdade nada, apenas me permite usar uma versão modificada da expressão de Carville para responder a pergunta que tinha feito no início (a causa da valorização do real). Em resposta, diria: “É o governo, estúpido!”.  Se existe alguém que devemos culpar, este alguém é o próprio governo brasileiro. Porque o “tsunami monetário” afeta o Brasil? Simples, pelo diferencial de juros praticado aqui e no resto do mundo.

Apesar da queda na Selic para 9,75%, o Brasil ainda figura como um dos campeões de juros reais elevados. Neste cenário, bancos, exportadores e investidores nacionais conseguem captar recursos mais baratos no exterior e emprestar ao governo brasileiro a taxas mais elevadas (operação de carry trade) e isto pressiona a cotação do dólar no país. As recentes medidas terão algum efeito, mas apenas no curto prazo. No longo prazo, o mercado financeiro é suficientemente inteligente para encontrar meios de burlar a restrição. Aliás, a recente medida afeta mais fortemente empresas menores, já que empresas maiores não serão afetadas pelo fato da maior parte delas ter como opção de financiamento a emissão de bônus no exterior, que possuem prazo maior que cinco anos e, portanto, não serão atingidas pelo aumento do IOF.

Embora concorde que o real se encontre sobrevalorizado em relação ao dólar, algo em torno de 35% se usarmos o índice Big Mac da revista  The Economist, o nosso problema maior não é cambial, mas sim de competitividade. O câmbio sobrevalorizado dificulta a competitividade, mas ele é parte da história ou apenas a “ponta do iceberg”. Ou usando uma expressão conhecida, “o buraco é mais embaixo”. Aliás, olhando para as nossas estradas, o buraco é mais embaixo, mais para o lado, mais para cima, mais para todos os lados.

Um exemplo de um fator que afeta fortemente a nossa competitividade é o tempo de trâmite dos navios nos portos. Neste item somos campeões, enquanto em média um navio passa dois dias nos portos do mundo, nos nossos “eficientes” portos a média é de 17 dias. Com tamanha eficiência portuária, não há competitividade que resista. Mais uma vez, podemos perguntar quem é o culpado? A resposta é fácil:  “É o governo, estúpido!”.

Por Marcelo Eduardo A. Silva

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