O que gosto dos artigos do professor Nakano (FGV-SP), como o de hoje no valor econômico, é a simplicidade. Tudo o que atrapalha o crescimento do Brasil é a taxa SELIC. Se o Brasil acabar com os títulos de curto-prazo que rendem SELIC, quase que por um milagre as pessoas passariam a confiar mais no governo e a emprestar suas poupanças a um prazo maior e à uma taxa de juros menor. Por que?
Não sei muito bem. Do meu conhecimento de economia eu pensava que taxa de juros elevada seria resultado de baixa poupança (ou excesso de investimento) e que títulos indexados à SELIC apenas aumentariam a flutuação dessa taxa para efeitos de política monetária. Com títulos indexados, as flutuações da SELIC seriam maiores para baixo e para cima devido ao efeito renda que acompanha as flutuações dessa taxa e diminui a eficácia da política monetária.
Fora essa maiores variações, tenho dificuldades de entender como acabar com as LFTs, por canetada, criaria um mercado de longo-prazo para a dívida pública à taxa de juros menores. Na verdade acho que o poder de barganha aqui é do mercado, que poderia pedir taxa de juros maiores para alongar a dívida pública e, assim, a taxa de juros implicita da dívida pública poderia até aumentar e teríamos taxa de juros maiores. A situação seria diferente se o governo tivesse superávit nominal e que o alongamento da divida e redução do juros fosse resultado de mudanças nos fundamentos reais da economia- maior poupança do setor público. Mas este não é o caso dos que pensam que o problema do baixo crecimento do Brasil e elevadas taxa de juros deve-se à SELIC, ou melhor, a maldita SELIC.
Acho que as pessoas da cúpula do Ministério da Fazenda foram treinadas para pensar em mecanismos de expansão da demanda e desoneração tributária. Acreditam, excessivamente, no poder de o governo fazer ajuste fino da economia e determinar a taxa de crescimento. Mas cada ajuste fino deste modelo traz resultados (câmbio valorizado, inflação acima da meta, juros elevados, etc.) que levam a novas medidas (expansão da dívida para bancos públicos, intervenções no mercado cambial, etc.) que aumentam ainda mais as distorções do modelo.
Por exemplo, quando o governo aumenta o investimento por meio da expansão da sua dívida (emite títulos e empresta para bancos públicos) pode até ocasionar um aumento da taxa de investimento, mas a taxa de juros média será mais elevada (já que parte da demanda é protegida dos aumentos dos juros) e o déficit em conta corrente será maior. E devido à elevada taxa de juros e ao crescimento do déficit em conta corrente, novas medidas são pensadas para corrigir um problema de que decorreu de decisões de política econômica daqueles que se propõe a corrigir esse novo problema.
Mas com o boom do preço de commodities, a vida continua, as distorção vão aumentando e crescemos entre 3,5% e 4%, o que nos dá uma sensacional sensação de conforto e força a ideia de que não precisamos nos preocupar com agenda de reformas. No tempo certo essas reformas, se necessárias, virão e, assim, vamos nos preocupar de imediato com a taxa de câmbio e com o crescimento do PIB para este ano – quem se preocupa com o longo-prazo é quem quer perder eleições. Talvez por isso Keneth Rogoff (Harvard) em artigo recente no Financial Times tenha mostrado preocupação com educação adulta e eleições:
“…Societies need to find ways to make adult education, including economic and financial literacy, far more available and far more compelling. If voters are uninformed and easily swayed towards demagogues peddling short-term ill-considered policies, there is little hope for righting the course of capitalist economies”. (Rogoff, K. Our ignorance will yield more crises in capitalism” Financial Times, 1 de fevereiro de 2012).
Ao que parece, os heterodoxos daqui acreditam que o problema de crescimento da economia pode ser corrigido como medidas administrativas e pela boa vontade da turma do Ministério da Fazenda. O professor Nakano (FGV-SP) fala de forma taxativa no seu artigo de hoje no valor que: “Para promover uma verdadeira revolução na economia brasileira basta mudar algumas regras operacionais do Banco Central e do Tesouro Nacional.” Eu sinceramente torço para que os nossos heterodoxos estejam corretos, pois, assim, o mundo seria melhor e seria mais fácil promover o crescimento.
O problema é que nem os heterodoxos de Harvard (Dani Rodrik e Ricardo Hausmann) acreditam muita nesta história da carochinha. Clique aqui e veja entrevista do Dani Rodrik ao Valor Econômico em 2011 e clique aqui e veja o diagnóstico do Ricardo Hausmann (2008) de porque o Brasil cresce pouco. Os dois falam de uma tal taxa de poupança baixa……e apesar de ambos serem fortes defensores de política industrial, os dois parecem achar que esse não é o maior entrave ao crescimento do Brasil. Ao que parece, nossos heterodoxos são diferentes dos heterodoxos de Harvard.
Blog do Mansueto.
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