Nos últimos cinquenta anos, grandes mudanças aconteceram na nossa economia regional: vazios demográficos foram ocupados; houve redução (até 1991; aumento, depois) das diferenças entre os PIBs per capita das regiões; diminuíram as disparidades econômicas entre os municípios; reduziu-se a distância social entre as regiões. Alguns ícones da desigualdade, contudo, permaneceram intactos. Por exemplo: em 1960, o Nordeste tinha um PIB per capita igual a 47% do brasileiro. Em 2010, também.
As desigualdades financeiras são menos conhecidas. É ótimo, portanto, que informações dessa natureza sejam divulgadas, como foram, recentemente, pelo Banco Central. Afinal, num mundo em que as finanças cada vez mais comandam a economia real, com todas as perigosas consequências daí advindas, ninguém -- seja uma região ou um bandido -- vai muito longe sem ter um banco por perto. Nem que seja para assaltá-lo, de vez em quando. Ou ser por ele assaltado, como ocorre com a maioria de nós.
AGÊNCIAS
Na definição oficial, "agência" é a "dependência de instituições financeiras autorizada a funcionar pelo Banco Central do Brasil e destinada à prática das atividades para as quais a instituição esteja regularmente habilitada". O Norte (85% da média brasileira, conforme definida na nota abaixo da figura) e o Centro-Oeste (86%) são as regiões menos bem servidas de agências bancárias. Não é o caso do Nordeste (109%), que está acima da média.
A situação do Nordeste talvez se explique como mais uma consequência do enorme peso que o Bolsa-Família tem nesta região (mais de 50% dos recursos nacionais do programa vêm para o Nordeste). A bolsa é paga em dinheiro; são pequenos valores, mas distribuídos por milhões de pessoas. Ora, onde há dinheiro e gente, há bancos (ou casas lotéricas, que, ao fazerem operações tipicamente bancárias exercem as funções de agências.) É o que está acontecendo no Nordeste.
Infelizmente, outros indicadores não trazem notícias tão boas para esta região.
OPERAÇÕES DE CRÉDITO
O Banco Central define "Operações de Crédito" como o "estoque total das operações de empréstimos e financiamentos concedidos pelas instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, classificado de acordo com a origem e o direcionamento dos recursos". Os dados resumidos na figura abaixo mostram que o Norte (35,9%), o Nordeste (55,1%) e o Sul (78,8%) estão abaixo da média nacional, no critério definido na nota abaixo do gráfico.
O Nordeste respondeu, em 2010, por apenas 7,2% das operações de crédito realizadas no Brasil, um número substancialmente abaixo da participação da mesma região no PIB brasileiro (13,1%). O que isto pode significar? Uma explicação é que, no caso das "empresas", boa parte da economia desta região ainda se compõe de atividades informais, com pouco ou nenhum acesso ao crédito bancário. Já no caso das pessoas enquanto consumidoras, mesmo as muitas que vão ao banco sacar sua bolsa-família, não fazem mais nenhuma transação financeira "oficial" além desta, até o próximo dia de recebimento.
Nesse sentido, portanto, a tão enaltecida "bancarização" (ou seja, mais gente tendo acesso aos bancos) do Brasil e do Nordeste talvez seja, apenas, um caso típico do copo meio-cheio-meio-vazio.
O Banco Central define "Operações de Crédito" como o "estoque total das operações de empréstimos e financiamentos concedidos pelas instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, classificado de acordo com a origem e o direcionamento dos recursos". Os dados resumidos na figura abaixo mostram que o Norte (35,9%), o Nordeste (55,1%) e o Sul (78,8%) estão abaixo da média nacional, no critério definido na nota abaixo do gráfico.
O Nordeste respondeu, em 2010, por apenas 7,2% das operações de crédito realizadas no Brasil, um número substancialmente abaixo da participação da mesma região no PIB brasileiro (13,1%). O que isto pode significar? Uma explicação é que, no caso das "empresas", boa parte da economia desta região ainda se compõe de atividades informais, com pouco ou nenhum acesso ao crédito bancário. Já no caso das pessoas enquanto consumidoras, mesmo as muitas que vão ao banco sacar sua bolsa-família, não fazem mais nenhuma transação financeira "oficial" além desta, até o próximo dia de recebimento.
Nesse sentido, portanto, a tão enaltecida "bancarização" (ou seja, mais gente tendo acesso aos bancos) do Brasil e do Nordeste talvez seja, apenas, um caso típico do copo meio-cheio-meio-vazio.
Com a diferença de que, no Nordeste, a metade vazia é maior que a cheia.
DEPÓSITOS DO GOVERNO
No presente contexto, "depósitos à vista do governo" são os "depósitos à vista dos estados, municípios, empresas estatais e agências descentralizadas junto ao sistema financeiro." Não incluem, portanto, diretamente, os depósitos do governo federal, o que, provavelmente, explica o baixo desempenho do Centro-Oeste na variável. Mas, indiretamente, incluem, sim, pois parcela considerável dos recursos de estados e municípios -- no Norte e Nordeste, sobretudo -- tem origem em Brasília, sendo dali transferida para as contas dos governos estaduais e municipais.
O Norte (índice 232,4%) e o Nordeste (160,6%) são os grandes campeões relativos em depósitos à vista dos governos estaduais e municipais. Um sinal do quanto estas duas regiões ainda dependem do dinheiro público.
Alguma surpresa?
No presente contexto, "depósitos à vista do governo" são os "depósitos à vista dos estados, municípios, empresas estatais e agências descentralizadas junto ao sistema financeiro." Não incluem, portanto, diretamente, os depósitos do governo federal, o que, provavelmente, explica o baixo desempenho do Centro-Oeste na variável. Mas, indiretamente, incluem, sim, pois parcela considerável dos recursos de estados e municípios -- no Norte e Nordeste, sobretudo -- tem origem em Brasília, sendo dali transferida para as contas dos governos estaduais e municipais.
O Norte (índice 232,4%) e o Nordeste (160,6%) são os grandes campeões relativos em depósitos à vista dos governos estaduais e municipais. Um sinal do quanto estas duas regiões ainda dependem do dinheiro público.
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