OBJETIVO:
investigar as causas que permitiram a acumulação primitiva de capitais, “...
uma acumulação que não é resultado do modo de produção capitalista, mas sim seu
ponto de partida.” (Marx, p.339).
IMPORTANTE: A análise da acumulação primitiva feita
por Marx, tem como intuito principal desvendar os fatores que proporcionaram o
aparecimento de um novo modo de produção, o capitalista. Isso não quer dizer
que a gênese do modo de produção capitalista tenha se dado em outras partes do
globo da mesma forma como se processou na Grã Bretanha.
ESTRUTURA:
Seção
1: O segredo da acumulação primitiva
Seção
2: expropriação do povo do campo de sua base fundiária
Seção
3: Legislação sanguinária contra os expropriados desde o final do século XV.
Leis para o rebaixamento dos salários
Seção
4: Gênese dos arrendatários capitalistas
Seção
5: Repercussão da revolução agrícola sobre a indústria. Criação do mercado
interno para o capital industrial
Seção
6: Gênese do capitalista industrial
Seção
7: Tendência histórica da acumulação capitalista
Seção 1: O segredo da acumulação
primitiva
Escreve
Marx:
Viu-se
como o dinheiro é transformado em capital:
D
– M – D’
-
condições necessárias para que o dinheiro se transforme em capital:
1
– existência de uma classe possuidora de dinheiro, meios de produção e meios de
subsistência e que desejam valorizar a soma-valor que possuem mediante a compra
de força de trabalho alheia;
2
– existência de trabalhadores livres (não pertencem aos meios de produção como
escravos ou servos e nem os meios de produção lhes pertencem) vendedores da
própria força de trabalho.
Viu-se
como é produzida a mais-valia:
-
com a ampliação da jornada do trabalho além do necessário para produzir
mercadorias suficientes para remunerar o trabalhador tem-se a materialização da
mais-valia.
-
jornada de trabalho: 8 horas por dia
-
as primeiras 4 horas são utilizadas para produzir mercadorias equivalentes ao
salário do trabalhador
-
as 4 horas restantes são apropriados pelo capitalista (mais-valia).
Viu-se
como da mais-valia é produzido mais capital:
D’
– M – D’’
PORÉM:
A
acumulação do capital pressupõe a mais-valia;
A
mais-valia pressupõe a produção capitalista;
A
produção capitalista pressupõe a existência de massas relativamente grandes de
capitais e de força de trabalho, ou seja, observando-se o processo deste ângulo
(do estado atual para o seu início) tem que se supor uma acumulação primitiva.
Como
ocorreu a acumulação primitiva?
Dizer
que a acumulação primitiva foi fruto da laboriosidade, parcimônia e
inteligência do que, hoje, corresponde a elite burguesa é o mesmo que dizer que
as demais pessoas (atuais trabalhadores) foram vagabundos vilipendiadores de
seus bens.
Na
história real, como se sabe, a conquista, a subjugação, o assassínio para
roubar, em suma, a violência, desempenham o principal papel. (Marx, p. 340) à
estes foram os reais mecanismos utilizados para concentrar capitais nas mãos de
poucos e relegar a grande maioria a própria sorte.
O
autor é enfático:
A assim chamada acumulação primitiva é, portanto,
nada mais que o processo histórico de separação entre produtor (trabalhador) e
meio de produção. Ele aparece como primitivo porque constitui a pré-história do
capital e do modo de produção que lhe corresponde (capitalista). (Marx, p.340)
Esta separação é um processo histórico: o
trabalhador afastado da propriedade das condições de seu trabalho (meios de
produção) é impelido a vender a única mercadoria que lhes resta para
sobreviver: a força de trabalho.
A estrutura econômica da sociedade capitalista
nasceu da estrutura econômica da sociedade feudal. A decomposição desta liberou
elementos para a formação daquela. (MARX, p.340).
A
partir do momento em que o servo pôde dispor de sua “liberdade” só lhes restou
a possibilidade de vender sua força de trabalho para sobreviver. Quando,
finalmente, se desvencilhou das obrigações feudais, restou-lhes a venda da
força de trabalho (o produtor direto se transforma em trabalhador assalariado).
Sem
as velhas garantias feudais, apartados dos seus meios de produção (todas as
terras passam a ter dono, inclusive as comunais), tornam-se vendedores de si
mesmos.
Diante desse novo cenário, aparecem dois atores
principais: de um lado, o capitalista, que é dono dos meios de produção e
proprietário de dinheiro, ele aumenta suas riquezas com a compra do trabalho
alheio; de outro lado situa-se o trabalhador, expropriado de seus meios de
subsistência, restando-lhe apenas uma alternativa que é vender sua força de
trabalho.
De acordo com Marx: O ponto de partida do
desenvolvimento que produziu tanto o trabalhador quanto o capitalista foi a
servidão do trabalhador. A continuação [o progresso deste processo] consistiu
numa mudança de forma dessa sujeição, na transformação da exploração feudal em
[exploração] capitalista. (MARX, p.341).
Dentre
todos os acontecimentos históricos relevantes que servem de alavanca a classe
capitalista em formação sobressaem os momentos em que grandes massas da
população são arrancadas de seus meios de produção e lançadas no mercado de
trabalho como proletários.
Seção 2: expropriação do povo do campo
de sua base fundiária
No processo de expropriação, os camponeses ficam privados
de seu meio de produção (a terra), ocorre assim, à dissociação entre o
trabalhador e a propriedade. Os camponeses são obrigados a vender sua força de
trabalho para garantir sua sobrevivência.
Marx data com extrema precisão o início do processo
de avanço do capitalismo na Inglaterra: O prelúdio do revolucionamento que
criou a base do modo de produção capitalista, ocorreu no último terço do século
XV e nas primeiras décadas do século XVI. Uma massa de proletários livres como
pássaros foi lançada no mercado de trabalho pela dissolução dos séqüitos
(conjunto de pessoas que acompanham outras por obrigação ou cortesia) feudais
(MARX, p.343).
A
expulsão violenta de uma grande massa de servos de sua base fundiária motivada
pela elevação dos preços da lã (as terras passariam a ser utilizadas para
criação de ovelhas) resultou numa grande massa proletária.
Durante
certo período as atrocidades cometidas pelos proprietários de terras contra os
servos foram objeto de leis que tentavam amenizar o impacto brutal das
expulsões:
“Naquele
tempo” (1489) “aumentaram as queixas sobre a trans-formação de terras de
lavoura em pastagens” (para criação de ovelhas etc.) “fáceis de cuidar por
poucos pastores; e arrenda-mentos por tempo determinado, vitalícios ou
anualmente revogáveis (dos quais vivia grande parte dos yeomen [camponeses])
foram transformados em domínios senhoriais. Isso provocou uma decadência das
cidades, igrejas, dízimos. (...) Na cura desse mal, a sabedoria do rei e do
Parlamento naquela época foi admirável. (...) Tomaram medidas contra essa
usurpação despovoadora das terras comunais (depopulating inclosures) e a
exploração pastoril despovoadora (depopulating pasture) que lhe seguia as
pegadas”. (Marx, p. 344)
Mas
o que o sistema capitalista requeria era, ao contrário, uma posição servil da
massa do povo, sua transformação em trabalhadores de aluguel e a de seus meios
de trabalho em
capital. Durante esse período de transição, a legislação
procurou também conservar os 4
acres de terras junto ao cottage [cabana] do assalariado
agrícola e lhe proibiu de tomar inquilinos em seu cottage. (Marx, p. 345)
O
processo de expropriação violenta da massa do povo recebeu novo e terrível
impulso, no século XVI, pela Reforma e, em conseqüência dela, pelo roubo
colossal dos bens da Igreja. Na época da Reforma, a Igreja Católica era a
proprietária feudal de grande parte da base fundiária inglesa [terras que
abrigavam inúmeros servos]. A supressão dos conventos etc. lançou seus
moradores na proletarização. Os próprios bens da Igreja foram, em grande parte,
dados a rapaces favoritos reais ou vendidos por um preço irrisório a arrendatários
ou a habitantes das cidades especuladoras, que expulsaram em massa os antigos
súditos hereditários, juntando suas explorações. (Marx, p.345-6)
Diga-se:
durante o período que Marx chama de transição certas leis tentavam proteger o
camponês, mas este processo de expropriação do trabalhador agrícola de suas
terras era inexorável e, por volta de 1750, já estava consolidado.
Outra
contribuição a expropriação:
A
Glorious Revolution (Revolução Gloriosa) trouxe, com Guilherme III de Orange,
extratores de mais-valia fundiários e capitalistas ao poder. Inauguraram a nova
era praticando o roubo dos domínios do Estado, até então realizado em
proporções apenas modestas, em escala colossal. Essas terras foram
presenteadas, vendidas a preços irrisórios ou, mediante usurpação direta,
anexadas a propriedades privadas. Tudo isso ocorreu sem nenhuma observância da
etiqueta legal. O patrimônio do Estado apropriado tão fraudulentamente, junto
como roubo da Igreja, na medida em que não sumiram durante a revolução republicana,
formam a base dos atuais domínios principescos da oligarquia inglesa. Os
capitalistas burgueses favoreceram a operação visando, entre outros motivos,
transformar a base fundiária em puro artigo de comércio, expandir a área da
grande exploração agrícola, multiplicar sua oferta de proletários livres como
os pássaros, provenientes do campo etc. Além disso, a nova aristocracia
fundiária era aliada natural da nova bancocracia, da alta finança que acabava
de sair da casca do ovo e dos grandes manufatureiros, que então se apoiavam
sobre tarifas protecionistas. (Marx, p.347-8)
O roubo assume a forma parlamentar que lhe dão as
leis relativas ao cercamento de terras comuns, ou melhor, os decretos com que
os senhores das terras se presenteiam com os bens que pertencem ao povo,
tornando-os sua propriedade particular, decretos da expropriação do povo.
(Marx, p.349)
Um outro exemplo dado por Marx de expropriação é o
dos celtas, clãs da região montanhosa da Escócia. Os celtas estavam organizados
em clãs, cada um era proprietário do solo em que ocupava sendo o “grande homem”
(chefe do clã) o proprietário titular. A atitude do governo escocês foi
transformar seu direito de titular do solo em direito de propriedade privada,
resolvendo enxotar os membros do clã pelo uso da violência.
Marx cita a frieza da duquesa de Sutherland, que
por motivos econômicos transformou os seus domínios em pastagens, ocasionando a
expulsão de 3000 famílias: Ela dividiu toda a terra roubada do clã em 29
grandes arrendamentos para a criação de ovelhas... Em 1825, os 15.000
aborígines [nativos] gaélicos estavam substituídos por 131.000 ovelhas... Em
sua fidalguia, a duquesa foi a ponto de cobrar 2 xelins e 6 pences de renda em
média por acre , a ser paga por membros do clã, que há séculos, tinham vertido
seu sangue em defesa de seus nobres antepassados. (MARX, p.353-4)
O roubo dos bens da Igreja, a fraudulenta alienação
dos domínios do Estado, o furto da propriedade comunal, a transformação
usurpadora e executada com terrorismo inescrupuloso da propriedade feudal e clânica
[dos clãs] em propriedade privada moderna, foram outros tantos métodos idílicos
da acumulação primitiva. Eles conquistaram o campo para a agricultura
capitalista, incorporaram a base fundiária ao capital e criaram para a
indústria urbana a oferta necessária de um proletariado livre como os pássaros.
(Marx, p.355)
Seção 3: Legislação sanguinária contra
os expropriados desde o final do século XV. Leis para o rebaixamento dos
salários
Os expulsos pela dissolução dos séquitos feudais e
pela intermitente e violenta expropriação da base fundiária, esse proletariado
livre como os pássaros não podia ser absorvido pela manufatura nascente com a
mesma velocidade com que foi posto no mundo. Por outro lado os que foram
bruscamente arrancados de seu modo costumeiro de vida não conseguiam
enquadrar-se de maneira igualmente súbita na disciplina da nova condição. Eles
se converteram em massas de esmoleiros, assaltantes, vagabundos, em parte por
predisposição e na maioria dos casos por força das circunstâncias. (Marx,
p.356)
A legislação para combater a vagabundagem era
rigorosa: A legislação os tratava como criminosos “voluntários” e supunha que
dependia de sua boa vontade seguir trabalhando nas antigas condições, que já
não existiam. Na Inglaterra, essa legislação começou sob Henrique VII. (Marx,
p. 356)
Henrique VIII, 1530: Esmoleiros velhos e
incapacitados para o trabalho recebem uma licença para mendigar. Em
contraposição, açoitamento e encarceramento para vagabundos válidos. Eles devem
ser amarrados atrás de um carro e açoitados até que o sangue corra de seu
corpo, em seguida devem prestar juramento de retornarem a sua terra natal ou ao
lugar onde moraram nos últimos 3 anos e “se porem ao trabalho” (Marx, p.356)
Eduardo VI: Um estatuto de seu primeiro ano de
governo, 1547, estabelece que, se alguém se recusa a trabalhar, deverá ser
condenado a se tornar escravo da pessoa que o denunciou como vadio. O dono deve
alimentar seu escravo com pão e água, bebida fraca e refugos de carne, conforme
ache conveniente. Tem o direito de forçá-lo a qualquer trabalho, mesmo o mais
repugnante, por meio do açoite e de correntes. Se o escravo se ausentar por 14
dias será condenado à escravidão pelo resto da vida e deverá ser marcado a
ferro na testa ou na face com a letra S; caso fuja pela terceira vez, será
executado como traidor do Estado. O dono pode vendê-lo, legá-lo, ou, como
escravo, alugá-lo, como qualquer
outro bem móvel ou gado. Se os escravos tentarem alguma coisa contra os
senhores, devem ser da mesma forma executados. (Marx, p.356-7)
Elisabeth,
1572: Esmoleiros sem licença e com mais de 14 anos de idade devem ser duramente
açoitados e terão a orelha esquerda marcada a ferro, caso ninguém os queira
tomar a serviço por 2 anos;em caso de reincidência, se com mais de 18 anos,
devem ser executados,caso ninguém os queira tomar a serviço por 2 anos; numa
terceira incidência, serão executados sem perdão, como traidores do Estado.
(Marx, p.357)
Assim,
o povo do campo, tendo sua base fundiária expropriada à força e dela sendo
expulso e transformado em vagabundos, foi enquadrado por leis grotescas e
terroristas numa disciplina necessária ao sistema de trabalho assalariado, por
meio do acoite, do ferro em brasa e da tortura. Não basta que as condições de
trabalho apareçam num pólo como capital e no outro pólo, pessoas que nada têm
para vender a não ser sua força de trabalho. Não basta também forçarem-nas a se
venderem voluntariamente. Na evolução da produção capitalista, desenvolve-se uma
classe de trabalhadores que, por educação, tradição, costume, re-conhece as
exigências daquele modo de produção como leis naturais evidentes. A organização
do processo capitalista de produção plena-mente constituído quebra toda a
resistência, a constante produção de uma superpopulação mantém a lei da oferta
e da procura de trabalho e, portanto, o salário em trilhos adequados às
necessidades de valorização do capital, e a muda coação das condições
econômicas sela o domínio do capitalista sobre o trabalhador. Violência
extra-econômica direta é ainda, é verdade, empregada, mas apenas
excepcionalmente. Para o curso usual das coisas, o trabalhador pode ser
confiado às “leis naturais da produção”, isto é, à sua dependência do capital
que se origina das próprias condições de produção, e por elas é garantida e perpetuada.
(Marx, p.358-9)
Leis para o rebaixamento dos salários
A
burguesia nascente precisa e emprega a força do Estado para “regular” o
salário, isto é, para comprimi-lo dentro dos limites convenientes à extração de
mais-valia, para prolongar a jornada de trabalho e manter o próprio trabalhador
num grau normal de dependência. Esse é um momento essencial da assim chamada
acumulação primitiva. (Marx, p.359)
Marx
relata as várias leis e regulamentos criados para manter os salários baixos e a
exploração elevada: leis proibindo os capitalistas a pagarem salários mais
elevados do que os estabelecidos, leis proibindo a associação dos trabalhadores,
proibindo as greves, etc.
Seção 4: Gênese dos arrendatários
capitalistas
Depois
que consideramos a violenta criação do proletariado livre como os pássaros, a
disciplina sanguinária que os transforma em trabalhadores assalariados, a
sórdida ação do soberano e do Estado, que eleva, com o grau de exploração do
trabalho, policialmente a acumulação do capital, pergunta-se de onde se
originam os capitalistas. (Marx, p.363)
Nesta passagem o autor desvenda a gênese do
arrendatário capitalista na Inglaterra, desde seu estágio primitivo que é o
bailiff [bailio], ainda servo, sendo substituído durante a segunda metade do
século XV, pelo meeiro. O meeiro logo se torna o arrendatário propriamente dito
que: “procura expandir seu próprio capital empregando trabalhadores
assalariados e entrega ao landlord [dono da terra] uma parte do produto
excedente, em dinheiro ou em produtos, como renda da terra”.
Seção 5: Repercussão da revolução
agrícola sobre a indústria. Criação do mercado interno para o capital industrial
Com
a liberação de parte do povo do campo, os alimentos que este consumia
anteriormente também são liberados. Eles se transformam agora em elemento
material do capital variável. O camponês despojado tem de adquirir o valor
deles de seu novo senhor, o capitalista industrial, sob a forma de salário.
Assim como os meios de subsistência, foram afetadas também as matérias-primas
agrícolas nacionais da indústria. Transformaram-se em elemento do capital
constante. (Marx, p.365)
Criação do mercado interno para o
capital industrial
A
expropriação e a expulsão de parte do povo do campo liberam,com os
trabalhadores, não apenas seus meios de subsistência e seu material de trabalho
para o capital industrial, mas criam também o mercado interno. (Marx, p.367)
Assim,
com a expropriação de camponeses antes economicamente autônomos e sua separação
de seus meios de produção, se dá no mesmo ritmo a destruição da indústria
subsidiária rural, o processo de separação entre manufatura e agricultura. E
somente a destruição do ofício doméstico rural pode proporcionar ao mercado
interno de um país a extensão e a sólida coesão de que o modo de produção
capitalista necessita. (Marx, p.367)
Seção 6: Gênese do capitalista
industrial
Marx
relata a origem dos capitalistas industriais:
a) Sem
dúvida, alguns pequenos mestres corporativos e mais ainda pequenos artesãos
independentes ou também trabalhadores assalariados transformaram-se em pequenos
capitalistas e, mediante exploração paulatinamente mais ampliada do trabalho
assalariado e a correspondente acumulação, em capitalistas sanas phrase [sem
disfarce]. (Marx, p.369)
b) A
Idade Média, porém, legou duas formas diferentes de capital, que amadurecem nas
mais diversas formações sócio-econômica se, antes mesmo da era do modo de
produção capitalista, contam como capital quand même [em geral] — o capital
usurário e o capital comercial. O capital monetário formado pela usura e pelo
comércio foi impedido pela constituição feudal no campo e pela constituição
corporativa nas cidades de se converter em capital industrial. Essas barreiras caíram
com a dissolução dos séquitos feudais, com a expropriação e a expulsão parcial
do povo do campo. A nova manufatura foi instalada nos portos marítimos de
exportação ou em pontos no campo, fora do controle do velho sistema urbano e de
sua constituição corporativa. (Marx, p.369)
c)
A descoberta das terras do ouro e da prata,
na América, o extermínio, a escravização e o enfurnamento da população nativa
nas minas, o começo da conquista e pilhagem das Índias Orientais, a
transformação da África em um cercado para a caça comercial às peles negras
marcam a aurora da era de produção capitalista. Esses processos idílicos são
momentos fundamentais da acumulação primitiva. (Marx, p.370)
d) O
sistema colonial fez amadurecer como plantas de estufa o comércio e a
navegação. As “sociedades monopolia” (Lutero) foram alavancas poderosas da
concentração de capital. Às manufaturas em expansão, as colônias asseguravam
mercado de escoamento e uma acumulação potenciada por meio do monopólio de
mercado. O tesouro apresado fora da Europa diretamente por pilhagem,
escravização e assassinato refluía à metrópole e transformava-se em capital. (Marx,
p.372)
e) Sistema
de crédito público: A dívida do Estado, isto é, a alienação do Estado — se despótico,
constitucional ou republicano — imprime sua marca sobre a era capitalista. A
única parte da assim chamada riqueza nacional que realmente entra na posse coletiva
dos povos modernos é — sua dívida de Estado. A dívida pública torna-se uma das
mais enérgicas alavancas da acumulação primitiva. Tal como o toque de uma
varinha mágica, ela dota o dinheiro improdutivo de força criadora e o
transforma, desse modo, em capital, sem que tenha necessidade para tanto de se
expor ao esforço e perigo inseparáveis da aplicação industrial e mesmo
usurária. Os credores do Estado, na realidade, não dão nada, pois a soma emprestada
é convertida em títulos da dívida, facilmente transferíveis, que continuam a
funcionar em suas mãos como se fossem a mesma quantidade de dinheiro sonante
[moeda corrente]. (Marx, p.373)
f)
O sistema protecionista: O sistema
protecionista foi um meio artificial de fabricar fabricantes, de expropriar
trabalhadores independentes, de capitalizar os meios nacionais de produção e de
subsistência, de encurtar violenta-mente a transição do antigo modo de produção
para o moderno. Os Estados europeus disputaram furiosamente entre si a patente
desse invento, e, uma vez colocados a serviço dos extratores de mais-valia, não
se limitavam para esse fim a gravar seu próprio povo, indiretamente por meio de
prêmios de exportação etc. Nos países secundários dependentes, toda a indústria
foi violentamente extirpada, como, por exemplo, a manufatura de lã irlandesa,
pela Inglaterra. (Marx, p.375)
Sistema
colonial, dívidas do Estado peso dos impostos, proteção, guerras comerciais
etc., esses rebentos do período manufatureiro propriamente dito se agigantam
durante a infância da grande indústria. (Marx, p.376)
Com
o desenvolvimento da produção capitalista durante o período manufatureiro, a
opinião pública da Europa perdeu o que lhe restava de sentimentos de vergonha e
consciência. As nações se jactavam cinicamente de cada infâmia que fosse um
meio para acumular capital:
-
trabalho de crianças (as crianças eram levadas e escravizadas pelos
capitalistas, trabalhavam acorrentadas as máquinas, trabalhavam a noite, tinham
uma jornada de 18 horas por dia, eram torturadas);
-
trabalho feminino.
Seção 7: Tendência histórica da
acumulação capitalista
Chegando ao sétimo tópico da chamada acumulação
primitiva, o autor questiona a propriedade privada capitalista, visualizando-a
como o germe sustentador do modo de produção capitalista. A propriedade privada
outrora pertencente ao próprio trabalhador, foi transformada em propriedade
privada capitalista na qual o proprietário (o capitalista) não trabalha, mas
sim explora o trabalho alheio.
... a transformação dos meios de produção
individualmente e parcelados em [meios] socialmente concentrados, portanto da
propriedade minúscula de muitos em propriedade gigantesca de poucos, portanto a
expropriação da grande massa da população de sua base fundiária, de seus meios
de subsistência e instrumentos de trabalho, essa terrível e difícil
expropriação da massa do povo constitui a pré-história do capital. (Marx,
p.380)
Essa expropriação se faz por meio do jogo das leis
imanentes da própria produção capitalista, por meio da centralização dos
capitais. Cada capitalista mata muitos outros. Paralelamente a essa
centralização ou à expropriação de muitos outros capitalistas por poucos
desenvolve-se a forma cooperativa do processo de trabalho em escala sempre
crescente, a aplicação técnica consciente da ciência, a exploração planejada da terra, a transformação dos meios de
trabalho em meios de trabalho utilizáveis apenas coletivamente, a economia de
todos os meios de produção mediante uso como meios de produção de um trabalho
social combinado, o entrelaçamento de todos os povos na rede do mercado mundial
e, com isso, o caráter internacional do regime capitalista. Com a diminuição
constante do número dos magnatas do capital, os quais usurpam e monopolizam
todas as vantagens desse processo de transformação, aumenta a extensão da
miséria, da opressão, da servidão, da degeneração, da exploração, mas também a
revolta da classe trabalhadora, sempre numerosa, educada, unida e organizada
pelo próprio mecanismo do processo de produção capitalista. O monopólio do
capital torna-se um entrave para o modo de produção que floresceu com ele e sob
ele. A centralização dos meios de produção e a socialização do trabalho atingem
um ponto em que se tornam incompatíveis com seu invólucro capitalista. Ele é
arrebentado. Soa a hora final da propriedade privada capitalista. Os
expropriadores são expropriados. (Marx, p.380-1)
Marx vê na classe trabalhadora o instrumento
histórico - universal para alcançar o objetivo da revolução social, que
consiste na expropriação dos capitalistas por meio da extinção da propriedade
privada capitalista e, posteriormente, a socialização dos meios de produção.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Karl Marx foi um dos primeiros intelectuais a
estudar com afinco o modo capitalista de produção, de forma minuciosa,
conseguindo em sua análise decifrar os pontos fundamentais de seu
funcionamento, compreendendo como ponto chave da transição do modo de produção
feudal para o modo de produção capitalista, “A Chamada acumulação primitiva”.
O autor desenvolve uma visão crítica da sociedade
vendo-a como um sistema antagônico no qual há uma luta de classes incessante:
“A sociedade burguesa moderna, que brotou das ruínas da sociedade feudal, não
aboliu os antagonismos das classes. Estabeleceu novas classes, novas condições
de opressão, novas formas de luta no lugar das antigas.”(MARX e ENGELS, 2000,
p. 9)
Enquanto o séc. XIX, para alguns intelectuais é
visto apenas pela aparência que o modo de produção capitalista produziu suas
parafernálias e maravilhas, Marx busca a essência, vendo o sistema desde sua
gênese, e é na acumulação primitiva de capital que ele desvenda sua face
obscura.
NOTAS
1. “O conceito de acumulação primitiva formulado
por Marx é relativamente claro, mas discute-se se ele constitui o quadro
adequado para a análise da transição para o capitalismo. Mesmo que se considere
correta a análise que Marx fez do caso da Grã Bretanha, não se pode admitir que
ela dê conta do estabelecimento do capitalismo em outras partes.” (BOTTOMORE,
1983, p.2)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOTTOMORE, Tom (Org.). Acumulação primitiva. In:
Dicionário do Pensamento Marxista. Rio de Janeiro,
1983. p. 2-3.
Adaptado
de trabalho de Anderson Bem
muito bom
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