É no mínimo curioso o modo como boa parte da imprensa e um conjunto de analistas independentes espalhados pela chamada “blogosfera”, trataram a ruptura do vice-governador com o grupo político da atual governadora Rosalba Ciarlini, bem como a saída do chefe do gabinete civil, Paulo de Tarso Fernandes, da equipe do governo.
De modo geral as descrições do processo se reduziram a questões pessoais. Tudo muito emocional. Concordo que essa pode ser uma dimensão do problema. Mas há outros pontos e possíveis desdobramentos importantes que deveriam ser abordados.
Quanto à saída do secretário, chegou a ser atordoante o modo como, há cerca de três, quatro meses atrás, no auge dos conflitos e tentativas de negociação com os servidores grevistas, Paulo de Tarso foi retratado como a personificação da intransigência do atual governo.
Após a “ruptura”, contrariamente, passou a figurar como o último resquício de probidade e competência técnica do governo Rosalba. Contradição, conspiração ou incompetência de nossos observadores políticos? Sinceramente não sei.
Quanto à Robinson de Faria, as análises se elevaram aos altos níveis do sentimentalismo e da “arenga doméstica e pessoal”. Os comentários simplesmente atolaram nesse nível de explicação. É como se a causa de todo o problema estivesse concentrada no modo peculiar de atuação política de Carlos Augusto Rosado & Rosalba Ciarlini à frente do governo do estado.
Ou num tal propalado estilo ravengariano de tomar decisões. Coisa mais bobinha. Os raciocínios necessários à compreensão dos fatos políticos em jogo, passaram longe.
Humilhação, descarte, deslealdade, ciumeiras, inveja, ódios, “bater até tirar sangue” … foi extensa a lista de termos que adjetivaram a injustiça praticada contra o vice-governador. Tudo alimentado por ele mesmo, claro, pois nada melhor do que uma grande injustiça para alavancar uma campanha em vista.
O mote da “vitória sobre os injustos” já constitui um modus operandi clássico no conjunto de estratégias adotadas por personagens da história política do RN, de Aluízio Alves à Micarla de Souza. Somado a outros atributos de uma liderança e uma boa dose de sorte, o mote pode ser mesmo infalível. O vice-governador deve saber como tudo isso funciona.
Na verdade esses eventos, reincidentes, são produtos de nossa velha tradição governista. O governismo atrai sempre muitos, e precisa mesmo fazê-lo, pois sua força costuma ser proporcional à capacidade de apoios que consegue obter. O problema é que esses muitos precisam ser afastados, em determinados momentos decisivos de planejamento da repartição efetiva do poder. Além do mais, o excesso de interesses – e interessados – em jogo, costuma dificultar a coordenação das ações.
O corte dos excedentes se torna necessário para consecução das estratégias. Sendo assim, saber tomar medidas duras se torna atributo fundamental para lideranças na ponta do processo. E mais que isso, saber o momento certo de agir. As lideranças do DEM no estado souberam portanto usar da dureza necessária ao controle de seu poder? Agiram na hora certa? Talvez 2012 nos traga a resposta.
Ainda considerando que não foi uma situação de governismo que atraiu o apoio de Robinson ao grupo de Agripino, Rosalba e Garibaldi, mas sim a tentativa de derrotar o governismo estadual e federal no estado em 2010, não faz diferença. Robinson aderiu, como fiel da balança, ao novo governismo que se montou no estado, e não foi numa aliança trivial em que se envolveu. Ali estavam Jose Agripino MAIA, Garibaldi – e Henrique – ALVES, Rosalba e Carlos Augusto, o “elo fraco” da família ROSADO. Agora fortalecido. E como diria o velho Aristóteles, o problema da política é que os recursos são sempre inferiores às demandas.
Outra demonstração da passionalidade do debate na mídia local se dá em torno das ações do senador José Agripino, também incluído no roll dos algozes do vice. E aí outra dose de argumentos baseados em tramas que envolvem inveja, ciúmes, ódios… Algumas notas da imprensa conseguiram reduzir as explicações sobre os últimos eventos políticos no estado, a uma sinopse de capítulo inédito de dramalhão mexicano.
Como líder de um partido de oposição em sério processo de redução de quadros, se tolerasse a presença ou se envolvesse num “conluio político estadual” com o representante do PSD no Estado, um partido, que entrou no sistema causando sérios prejuízos especialmente ao partido que Agripino preside a nível nacional e regional, aí sim, o senador do DEM deveria ser visto como um impostor político. A ponderação racional indica que há coerência na atitude de Agripino de romper com Robinson e seu partido. Afinal, o vice não previu conseqüências de suas escolhas?
Obviamente o senador é movido pela ética da conveniência, mas se na política tudo é fenômeno, então a atitude de Agripino além de conveniente mostra-se também justificável. E como escolhas implicam em perdas, provavelmente a fatura dessa decisão será cobrada nas articulações locais para 2012.
Entender José Agripino e o partido que lidera, a essa altura, como representantes do “lado do mal” da política brasileira, como argumentam especialmente alguns partidários do petismo nacional e local e tantos outros reprodutores de idéias ídem,ídem, não é o pressuposto adequado para acompanhar o raciocínio: que me perdoem os representantes “do bem” que julgam que o DEM deve ser banido do sistema.
Democracias sérias, avançadas, não prescindem de partidos de direita. Ou o conjunto de nossa sociedade se identifica integralmente e, agora e sempre, com os princípios de esquerda e eu nem sabia?
Conforme diziam que dizia o General Golbery do Couto e Silva, “adversários devem ser mal tratados, jamais eliminados totalmente”. Isso vale para qualquer lado, para qualquer adversário.
Dessa forma, por parte do governo e do DEM no estado, a ruptura, nesse momento, parece significar uma tentativa de ampliação razoavelmente segura de suas margens de manobra. Diante da crise por que passa o ex-PFL, planejar com muita, muita estratégia, as ações para enfrentar as eleições de 2012 e 2014, se mostra crucial. A contrapartida é que também abre os flancos para as articulações da oposição.
As sub-lideranças (a expressão não é pejorativa, apenas parte de uma descrição hierárquica e contextual de poder de decisão e coordenação) escanteadas e-ou derrotadas ao longo do processo de disputas, também iniciam “oficialmente” suas articulações e arranjos para ampliar espaços e enfrentar os adversários. E um dos problemas, me parece, será a definição sobre quem assumirá a posição de líder e a de liderado nas possíveis futuras alianças. Ressentimentos podem operar como bons conselheiros? Não sei, mas creio que sim, se estiver aliado ao cálculo preciso das ações e suas conseqüências.
Até 2012 as feridas de Robinson ainda estarão “sangrando” e servindo de figura simbólica e midiática à oposição? o Vice parece dispor de um séquito de inusitados apoiadores que provavelmente se esforçarão para mantê-las assim até lá. É interessante para todos, independente de estarem ao lado de Robinson ou não em 2012. Talvez seja essa a grande prova do vice: decifrará uma estratégia para romper as barreiras e suplantar a esfinge, ou será devorado por ela?
Outras questões intrigantes podem ser levantadas com base nos últimos eventos. Uma delas, esquecida pelas emotivas analises, é a seguinte: Por que Rosalba e Carlos Augusto não migraram de vez para o PSD no estado? O que explica a permanência do casal de governantes no debilitado DEM de José Agripino? Lealdade? Prudência jurídica? Afinal, o excluído no jogo bem poderia ter sido o senador democrata, não é mesmo?
Mas temos outros fatos e personagens que me parecem fundamentais para nos situarmos diante dos últimos fatos políticos: por que o PMDB, bem como os possíveis impactos de curto e médio prazo derivados do acordo do partido com o DEM no estado, têm sido tão minimizados ou pouco explorados pela imprensa?
Um ponto já está claro a essa altura. O deputado Henrique Eduardo, do alto de seus onze mandatos na câmara federal (e “do baixo” de suas duas derrotas em disputas majoritárias para prefeitura da capital) não vai entrar na disputa por uma vaga ao senado sem estar seguramente alicerçado. Nesse sentido, o expurgo de um de seus concorrentes pode ser entendido como apenas uma das medidas de ajuste operadas pelo grupo.
Henrique Eduardo Alves parece ser o mais beneficiado no estado em termos de dividendos eleitorais advindos do “apoio” ao governo federal. Sua pretensão de conquistar uma cadeira no senado, conforme vem anunciando, pode representar uma grande obstrução para as possibilidades de consolidação de outras lideranças políticas no estado. Com Jose Agripino, Garibaldi, Henrique e Rosalba na disputa rotativa de três vagas ao senado e o executivo estadual, a conta fica fechada.
Observamos que o PT e seus representantes no estado, exceto a deputada Fátima Bezerra, não conseguiram colher, em termos de conquistas eletivas, os frutos de ter o partido no comando do governo federal. O PSB, com Wilma de Faria, até então ascendendo em sua trajetória de “terceira força política no RN”, vinha conseguindo fazê-lo, ainda que de modo precário.
Entretanto circunstâncias e escolhas detiveram seu crescimento, que já se chocava frontalmente com interesses das tradicionais forças: além de “mais uma” na disputa dos seletos e disputados cargos eletivos como senado e executivo estadual, Wilma ainda vinha ousando seguir trajetória independente de suas matrizes. Mas a ex-governadora Wilma de Faria quase chega lá.
Será que a prudência aliada a interesses levou DEM e PMDB no RN a acordos que, objetiva ou tacitamente, se voltam para a obstrução das condições de possibilidade de ascensão de novos lideres no estado? Sabemos que o resultado da eleição de 2010 “cacifou” os principais representantes destes partidos para decidirem as coisas dessa forma.
Será que estamos diante de um novo acordo, agora entre lideranças do DEM e PMDB, e cuja diferença do anterior, aquele de 2008, é que foi bem costurado, programado para ser melhor processado pelos cidadãos eleitores?
O conjunto de recursos adquiridos a partir de uma vaga no senado, e no comando de uma máquina estadual, podem ser decisivos para a consolidação de novas lideranças, novos concorrentes, especialmente Robinson, que já possui um aliado forte na câmara federal (seu filho Fabio Faria), uma base eleitoral razoavelmente consolidada na região agreste, e vem investindo na estruturação de novas bases políticas e partidárias independentes em outros importantes colégios eleitorais no estado. Não custa lembrar que o PSD, partido de Robinson, não incomoda apenas o DEM, mas também o PMDB.
Dessa maneira, caso o quadro de especulações aqui esboçado tenha alguma veracidade, sairão fortalecidas as estruturas que dão ao sistema político e partidário do Rio Grande do Norte tendências fortemente bipartidárias. Tudo no curto tempo da política, claro.
Enfim, para além das “querelas pessoais”, os últimos fatos ocorridos na política estadual têm muitas outras dimensões e desdobramentos que deveriam ter sido explorados pela mídia no estado.
Por Andrea Linhares
(Professora do Departamento de Ciências Sociais e Política da UERN).
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