Na carta que escreveu ao rei de Portugal para comunicar o descobrimento do Brasil, Pero Vaz de Caminha, o escrivão oficial da frota, aproveitou para pedir emprego para um parente. Os céticos em relação ao Brasil usam esse episódio para dizer que o país já nasceu para o mundo com o vício do empreguismo, de usar o erário público como meio de vida.
Agora, 512 anos depois, o repórter Fernando Exman, do jornal "Valor Econômico", visitou a correspondência enviada à presidente Dilma Rousseff no seu primeiro ano de governo, e descobriu, claro, que pedidos de emprego ocupam boa parte dos 70.672 e-mails e cartas recebidas na sede do governo (http://www.valor.com.br/politica/2547820/o-que-os-brasileiros-escrevem-presidente?)
É verdade que o maior número é de críticas ao governo, coisa que Caminha não tinha a menor condição de fazer, como é óbvio. Mas 23.591 manifestações eram pedidos, de emprego ou de outras benesses, como moradia e proteção social.
Ou seja, para uma parcela da população, a Presidência da República não é a instituição que deve elaborar políticas públicas a favor da maioria, mas um organismo capaz de resolver os pequenos (ou grandes) problemas individuais.
Tampouco surpreende que o maior número de pedidos de empregos venha de Brasília. A principal atividade econômica da capital federal é, digamos, a política. Além disso, uma das pragas da política brasileira é exatamente a promessa dos candidatos, quando em campanha, de conseguir emprego para seus correligionários.
É natural portanto que os missivistas se antecipem com pedidos dessa natureza.
Outro tipo de pedido igualmente revelador da distorção na visão sobre o funcionamento dos Poderes é o de indulto de presos. Claro que a presidente tem o poder de indultar presos, uma medida usualmente adotada em ocasiões especiais, como o Natal. Mas descartar o recurso à Justiça para aliviar a pena de prisioneiros de certa maneira revela a maneira hipertrofiada com que o Executivo é visto e/ou a desconfiança no aparelho judicial, reconhecidamente lento.
O teor exato de cada carta/e-mail não é revelado pela Presidência, que alega o caráter confidencial da correspondência. Mas a reportagem adianta que "as informações estão disponíveis à equipe de Dilma, que pode consultá-las durante a elaboração de discursos ou preparativos para as viagens da presidente. Servem também de termômetro para medir o humor e as demandas da população, assim como a visão de estrangeiros em relação ao Brasil".
A propósito dessa visão: as mensagens do exterior são sobretudo dos Estados Unidos, Portugal e Espanha. O primeiro país latino-americano a aparecer na lista é a Argentina, na oitava posição.
Interpretação queixosa de Claudio Soares Rocha, diretor de Documentação Histórica do Gabinete Pessoal da Presidenta da República: "Todo mundo critica que o brasileiro está de costas para a América Latina, mas a América Latina está de costas para o Brasil também".
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