sexta-feira, 9 de março de 2012

O côncavo e o convexo


Por Carlos Magno Lopes


A economia brasileira tem experimentado, em período recente, significativas transformações, cujas repercussões atingem em cheio a estrutura social do país. A relativa estabilidade da inflação, aliada ao aumento da renda e à manutenção do emprego em patamares elevados, tem atuado, em conjunto com a expansão do crédito, como propulsores do crescimento.

O crescimento da economia, por seu turno, tem como seu principal componente a expansão do consumo das famílias, sobretudo devido à avidez pelas compras da nova e vibrante “classe C”, cujo otimismo, com se constata, resistiu à crise financeira de 2008-2009 e passa imune pela crise fiscal europeia. Esses dias, contudo, poder estar contados.

O otimismo dos bancos, contudo, não parece convergir com o dos consumidores brasileiros. Com efeito, dados do Banco Central indicam que o sistema financeiro, gradualmente, tem aumentado o volume de reservas destinadas a cobrir créditos de liquidação duvidosa, o que simplificadamente significa reservar dinheiro para cobrir calotes, em particular de pessoas físicas. Essas provisões, em 23 bancos de grande e médio porte aumentaram em 42,2% em 2011. Porém, é a inadimplência das pessoas físicas que aumentou no início do ano, enquanto a das pessoas jurídicas registra recuo.

O aumento da percepção do risco de calote, por seu turno, pode resultar em endurecimento nos critérios de avaliação de crédito, bem como em aumento nos juros para as pessoas físicas. Assim, é razoável esperar uma retração do consumo das famílias, especialmente as da classe C em 2012, caso se mantenha até o final do ano o atual cenário.

Quando tudo parece perdido, eis que Recente pesquisa divulgada pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, contudo, revela que a classe AB crescerá em ritmo maior que a classe C de 2012 a 2014, com incremento de mais 7,7 milhões de pessoas até 2014. Caso essa estimativa se confirme, a classe AB será a bola da vez. Considerando que a classe AB tem mais chances de resistir a condições mais severas de análise de risco de crédito, é possível supor que menores dificuldades para financiar o consumo dessa classe, poderá compensar o maior rigor que tende a ser sentido pela classe C, já endividada em níveis mais elevados. Assim, ainda que menor, o consumo continuará elevado, devido ao crescimento da classe AB.

O fato é que a economia brasileira tem sido bafejada pela “sorte”, como diriam os fatalistas. Outros, como eu, preferem acreditar que a construção lenta, mas segura, de sólidos fundamentos macroeconômicos, por muitos respeitados a contragosto, ajuda a superar as adversidades. De qualquer forma, quando os ventos são favoráveis e encontram condições favoráveis de sustentação, pouco importa se o mundo é côncavo ou convexo, o avião continuará a voar.

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