Camisa empapada, o PT ouve o PMDB anunciar: está aberta a sessão da
CPI do Cachoeira.
Espera um pouquinho. O que estou fazendo aqui? CPI é
coisa do ex-PT! Fui dormir no presente e acordei no passado? Que será
que andei fazendo?
O PT olha para a direita e enxerga Renan Calheiros. Eu bem que
avisei, ele diz. O PT olha para a esquerda e vê Fernando Collor. Estamos
juntos, ele solidariza-se. O PT apavora-se.
Como é que eu vim parar
aqui? Meu Deus!
O PT liga para o Planalto. Alguém tinha que explicar. Ideli, o que
estou fazendo aqui? A coordenadora política de Dilma estranha: Hã?!?
CPI, Ideli, estou numa CPI! O governo não se mete, vire-se, diz a
ministra, batendo o telefone.
Atônito, o PT disca para Lula, que interrompe a sessão de
fonoterapia. É isso mesmo, CPI! Esqueceu o que combinamos? A voz rouca
ordena: O Marconi, o Demóstenes, a Veja. Pra cima deles! Vamos desmontar
a farsa do mensalão!
Com o apoio do DEM, o PSDB anuncia os primeiros requerimentos de
quebra de sigilo bancário e fiscal: Agnelo e Delta. A temperatura sobe. O
PT corre ao microfone. Não, não, nada disso. O Marconi, o Demóstenes, a
Veja.
O PT olha de novo para a direita. Eu disse que esse negócio não
acabaria bem, diz Renan. O PT vira-se novamente para a esquerda. O
importante é manter a calma, vai por mim. Eu rodei a baiana e deu no que
deu, Collor ensina.
Pedro Taques, governista da ala ma non troppo, endossa os
requerimentos do PSDB e os do PT. Tem que investigar tudo e todo mundo!
Não podemos esquecer de varejar os contratos –da coleta de lixo no DF às
obras do PAC.
Levado à CPI por generosidade do DEM, que lhe cedeu uma cadeira de suplente, o pissol
Randolfe Rodrigues ecoa Taques. Isso mesmo. Investigação ampla, geral e
irrestrita. Acomodado numa cadeira do PSDB, o pemedebê dissidente
Jarbas Vasconcelos reforça: Tudo, todos e também o etcétera.
No comando da CPI, o PMDB não percebe o quórum baixo e leva a voto um
pedido do PSDB. Aprovado. A assessoria da comissão põe para rodar no
sistema de som o áudio captado em reunião de Fernando Cavendish com
ex-sócios. A voz do dono da Delta flutua na atmosfera:
“Se eu botar R$ 30 milhões na mão de políticos, eu sou convidado pra
coisa pra caralho! Pode ter certeza disso, te garanto. Se eu botasse dez
pau que seja na mão de nêgo… Dez pau! Ah… Nem precisava de muito
dinheiro não, mas eu ia ganhar negócio. Ôooo…”
O PT entra em pânico. O que estou fazendo aqui? Que diabos andei
fazendo? Isso aqui é o inferno? E Renan, à direita: Não, é o purgatório.
E Collor, à esquerda: No inferno, o STF julga o processo do mensalão e
condena os 38 réus.
blog do Josias
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