Por Paulo Springer e Fernando Meneguin
Há certo consenso entre os economistas de que é necessário investir
mais para garantir taxas mais altas de crescimento no longo prazo.
Afinal, uma das maneiras mais efetivas de aumentar a produção de bens e
serviços da economia é estimulando os investimentos em capital fixo
(máquinas, equipamentos, estradas, etc.).
Os números variam, mas estima-se que uma taxa de investimento
equivalente a 25% do PIB parece ser o mínimo necessário para garantir
que o PIB possa crescer em torno de 5% a.a., sem superaquecer a economia
(situação em que as empresas não conseguem produzir tudo o que é
demandado pelos compradores, havendo falta de mercadorias, e na qual as
empresas não conseguem encontrar trabalhadores para seus postos vagos; o
que acaba por elevar salários e preços, gerando aumento da inflação).
Sabemos que uma das identidades básicas da economia é que a poupança
deve igualar o investimento. Logo, se a intenção for investir 25% do
PIB, é necessário que haja uma poupança também equivalente a 25% do PIB.
Sabe-se também que a poupança total é a soma da poupança doméstica
(poupança das famílias e do governo) com a poupança externa. Ocorre que a
poupança doméstica brasileira tem se situado em torno dos 17% do PIB.
Logo, seria necessário tomar emprestado uma poupança externa de uns 8%
do PIB para sustentar investimentos de 25% do PIB.
Aí começa a dificuldade, pois a poupança externa corresponde ao saldo
em transações correntes (TC) no balanço de pagamentos. Assim, mantidas
as condições atuais, precisaríamos de um déficit em transações correntes
equivalente a 8% do PIB para financiar o investimento. Ou seja,
precisaremos ter um déficit nas transações com os outros países, o que
exigiria a entrada de moeda estrangeira no país, decorrente de
empréstimos e investimentos estrangeiros, para que tivéssemos divisas
internacionais para cobrir o tal déficit em transações correntes
(afinal, os parceiros externos não aceitam o Real como meio de
pagamento, pois a nossa moeda não tem curso no mercado internacional).
Apesar de não existir uma “lei” estipulando limites máximos para
déficits em TC, na prática, dificilmente países conseguem financiamento
externo superior a 5% do PIB por períodos prolongados. Em geral, quando o
déficit em TC passa dos 4%, a luz amarela já acende e os países passam a
ter problemas de financiamento (é preciso garantir constantemente a
entrada moeda estrangeira no país para pagar os compromissos em moeda
estrangeira, o que deixa os credores do país, em moeda estrangeira,
temerosos de não receber seus créditos, havendo uma redução da oferta de
empréstimos internacionais ao país, ou o aumento do custo cobrado por
esses empréstimos).
Por outro lado, a imprensa muitas vezes noticia que poupar é ruim em
um cenário de crise. Ao poupar, as pessoas e o governo não gastam, o que
reduz a demanda agregada, o que gera desemprego, reduzindo ainda mais a
demanda, etc. Ou seja, estariam criadas as condições para um ciclo
perverso: o governo e as famílias não consomem, as indústrias e demais
empresas não vendem, há redução no ritmo de produção, aumenta o
desemprego e ocorre nova rodada de encurtamento da atividade econômica.
Como resolver essa questão? Deve-se aumentar ou diminuir a poupança?
Essa discussão é antiga e passa pela disputa entre keynesianos e
clássicos.
A Escola Clássica tem por princípio o liberalismo, isto é, todos os
agentes, em busca de obter o máximo de satisfação pessoal, promovem a
obtenção do bem-estar de toda a sociedade. De maneira geral, privilegiam
o equilíbrio do orçamento público, o controle da expansão da moeda para
conter a inflação e um baixo grau de intervencionismo estatal.
Consideram que a insuficiência de demanda agregada não é a regra na
economia, ocorrendo apenas em momentos de crise. Também argumentam que
os investimentos levam um longo período para aumentar a capacidade
produtiva da economia (por exemplo, uma máquina precisa ser construída,
vendida e ter sua operação iniciada; uma estrada leva um longo tempo
para ficar pronta). Por isso, tal Escola considera que a expansão da
demanda agregada, baseada em ampliação do consumo (e consequente redução
da poupança), pode até estimular a economia e o investimento, porém
tenderá a gerar inflação antes de provocar a expansão da atividade
econômica, tendo em vista que entre o aumento da demanda agregada e a
ampliação da capacidade produtiva da economia haverá um largo intervalo
de tempo, em que a maior demanda enfrentará uma oferta rígida, gerando
aumento de preços.
Já o Keynesianismo defende que a solução para o problema do
desemprego viria com uma forte intervenção do Estado por meio do
incremento dos investimentos públicos, que garantiriam o pleno emprego e
influenciariam positivamente a demanda agregada. Para essa escola a
demanda agregada gera, automaticamente, maior oferta de bens e serviços
(implicitamente, ou não se considera o hiato de tempo entre o estímulo a
investir criado pela demanda mais alta e a entrada em funcionamento dos
novos ativos decorrentes do investimento ou se supõe haver ociosidade
permanente na economia, que permite a contratação de fatores de produção
sem aumento dos custos), não havendo o impacto inflacionário previsto
pela Escola Clássica.
A aplicação de políticas keynesianas fora de um contexto de crise, ou
seja, sem que a economia esteja em depressão, com grande ociosidade nos
seus meios de produção, tende a gerar pressões inflacionárias.
Frente a essa disparidade de visões, o que se deve fazer para
garantir crescimento econômico: controlar as despesas das famílias e do
governo, para aumentar a poupança e consequentemente os investimentos;
ou ampliar os gastos públicos e das famílias para estimular a demanda
agregada, gerando redução da poupança?
Se a economia não estiver em situação de crise, com alto grau de
capacidade ociosa (situação ideal para a aplicação de política
keynesiana), é preciso encontrar caminhos para expandir a capacidade de
crescimento sem gerar inflação ou desequilíbrio no saldo de transações
correntes do balanço de pagamentos.
Podem-se fazer algumas conjecturas continuando a explorar as
identidades básicas da teoria econômica. Sabe-se que a poupança é a
parte da renda que não foi utilizada no consumo. Assim, para aumentar a
poupança interna, há duas possibilidades imediatas: ou baixar o consumo
ou aumentar a renda.
O ideal é que se consiga aumentar a renda sem ter que restringir o consumo.
Para tanto, pode-se aumentar a produtividade do trabalhador, ou seja,
criar condições para que ele produza mais com menos insumos. Isso abre
uma janela para que se aumente o salário real, sem gerar inflação, pois o
incremento na renda está calcado no incremento da produtividade.
Outra possibilidade para conseguir ganhos na renda é aumentar a
produtividade do capital investido na produção pelas empresas e pelo
governo. Isso permite a geração de lucros maiores, ou seja, novamente
tem-se mais renda, sem inflação, pois os preços não tiveram que subir
para gerar os lucros maiores.
A pergunta que fica é como aumentar a produtividade dos fatores de
produção, como conseguir mais eficiência no processo produtivo. Para
isso há dois caminhos. O primeiro é aumentar o investimento, para
agregar novas tecnologias, mais eficientes, ao processo produtivo. Mas
aí voltamos ao ponto inicial: como aumentar o investimento sem mexer com
a poupança. Como no curto prazo a renda é limitada pela disponibilidade
de fatores de produção, se não houver recursos ociosos, o aumento do
investimento exigirá o aumento da poupança, e o aumento da poupança
necessariamente passa pela redução do consumo.
Nessa situação, portanto,
é mais importante conter o consumo no curto prazo, para que se tenha
mais poupança e se possa financiar mais investimentos.
Outra forma de se conseguir ganhos de produtividade é redirecionar os
gastos (do governo e das famílias) para atingir uma educação de
qualidade em todos os níveis (apesar de a literatura já reconhecer que
gastos com educação são investimento em capital humano, as contas
nacionais continuam a classificá-los como gastos correntes).
A recomendação de cunho keynesiano, de poupar menos e gastar mais,
pode até ser eficaz em sustentar o PIB no curto prazo, em situações de
grande ociosidade de fatores de produção. Mas, no longo prazo, não
existe mágica. É preciso criar condições para aumentar a produtividade
do capital e dos trabalhadores, aumentar a poupança para poder financiar
mais investimentos sem impacto inflacionário e sem desequilíbrio no
balanço de pagamentos. Apenas expandir gastos de consumo, mantendo baixa
a poupança, bem como a produtividade dos trabalhadores e capital, é a
receita certa para ter alta inflação e baixo crescimento.
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Para ler mais sobre o tema:
Jones, Charles: Introdução à teoria do crescimento econômico. Campus. 2000.
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