A retórica do nó de Nassif, o caça verbas públicas
Luis Nassif, como um dos líderes da blogosfera do dinheiro público,
ou ao menos um dos que melhor sabem captar uma verbinha firmeza, é
obviamente uma das vozes mais altissonantes contra a revista Veja.
Aquela revista odiada por todos que ainda sonham com manchetes como “O
capitalismo está ruindo, outro mundo mais estatal vem aí!”.
Nassif tem uma lógica muito peculiar.
Digamos assim, alguns tiques de linguagem. Um deles é o truque de quase
toda a turma progressista, do qual Nassif faz escola: uma frase com uma
acusação genérica, como “a Veja faz parte de um conluio criminoso” para,
na frase seguinte, quando qualquer regra lógica e retórica pediria
alguma especificação e delimitação do crime, partir para algo como
“vamos investigar, e aí vamos descobrir que há mesmo um conluio
criminoso”.
É o que se vê em um artigo recente de
seu blog, em que faz ilações genéricas sobre a revista rival, mas na
hora de afirmar de fato algum erro pontual supostamente cometido por
ela, prefere uma tergiversão, uma generalidade tão firme quanto gelatina
em terrremoto. Assim, não é que a CPMI não provou nada de ruim sobre a
Veja. É que a Veja é ruim mesmo sem nada de ruim provado contra ela.
Vide parte de sua introdução:
“A CPMI fez bem em não convocar Policarpo Jr para depor. E a sessão de ontem deveria servir de lição para os próximos passos.
Nos últimos anos a perda de legitimidade
da velha mídia – encabeçada pela Veja – se deveu à sua arrogância e
absoluto desprezo pelas instituições e pelos preceitos legais. Foi isso
que a levou à aliança com o crime organizado, à disseminação da
intolerância, aos ataques desmedidos à reputação de quem atravessasse
seu caminho. E são esses procedimentos que estão na raiz do profundo
processo de descrédito que atinge a revista.”
A Veja já sofre um “profundo processo de
descrédito” sobre os leitores de Luis Nassif, aquele blogueiro
pénabundeado da Folha por sua empresa tentar arrancar uns trocados do
governo de São Paulo, e que até hoje prefere processar a explicar como
suas dívidas com o BNDES evaporaram. Aposto que não tem um jornalista da
Folha que não ande precisando de Rivotril pra conseguir dormir à noite
depois dessa. Há até uma justificativa curiosa:
“Só faltava, a esta altura do
campeonato, atitudes que possam ser utilizadas para vitimizar a revista
ou legitimar seu álibi de que defende o país contra manobras
autoritárias da esquerda.”
Outro tique curioso de Nassif é um
macete bem engraçadinho. Nassif faz suas acusações. Todos os seus
leitores progressistas juram terem encontrado uma prova cabal de alguma
denúncia, algum fato tangível e auferível. De repente, o andar da
carruagem mostra que o denuncismo de Nassif deu com os burros n’água. É o
momento ideal para Nassif aplicar um salto triplo ornamental twist
carpado caindo de costas. Com a boca na botija, Nassif lembra do que
ninguém lembraria sozinho: ora, não importa que ele estava errado, o que
importa é que, se o que ele afirmou estivesse certo, ele estaria certo nesse momento! isso o torna quase certo. Isso mostra como, afinal, Nassif merece uma nota 9. Ele quase acertou na segunda tentativa. É o que ele diz:
“Por exemplo, há suspeitas fundadas de que a revista participava de um conluio criminoso com Carlinhos Cachoeira. Se há suspeitas, mesmo baseadas em indícios veementes, investigue-se antes.
Ouvidas as conversas, haverá um trabalho
de relacioná-las com matérias da própria revista e com os ganhos
diretos e indiretos das duas organizões: Cachoeira e Abril. Não há
lógica em produzir um escândalo por dia, mas a necessidade de construir diligentemente todas as amarras que comprovem os procedimentos criminosos da revista.
Deve-se escutar, analisar e divulgar, sem pressa, sem arrogância. Se, de fato, mostrarem provas contundentes de envolvimento criminoso,
que se convoque Policarpo e Roberto Civita. Mas sem colocar o carro
antes dos bois. E por dois motivos: para impedir que o sentimento de
vingança se sobreponha ao da justiça; e para ouvir Policarpo apenas quando se dispuser de elementos consistentes para um bom interrogatório.”
(grifos nossos)
Esses três parágrafos valeriam uma aula
de retórica sozinhos. Primeiro, “há suspeitas fundadas”. Na frase
seguinte, o indicativo vira condicional: “se há suspeitas…”. Para quem
jurava há pouco que a Veja estava perdendo credibilidade, mudanças de
modo verbal tão próximas são mesmo uma gracinha.
As suspeitas também são “fundadas”. Na
frase seguinte, já há uma amainada. Fica meio hipotético: “mesmo
baseadas em indícios veementes”… São tão veementes que ainda é preciso
“construir as amarras que comprovem”; assim, “se, de fato, mostrarem
provas contundentes de envolvimento criminoso”… Colocados os verbos lado
a lado, os erros de concordância são tão flagrantes que dóem nos olhos.
Na verdade, erros de construção de pensamento:
Existem
provas, que na verdade se existem, deve-se investigar antes de se
acusar, “sem arrogância” , para construir as amarras que comprovem se
mostrarem provas contundentes quando se dispuser de elementos
consistentes… ah, tudo começou com “a arrogância da velha mídia levou à
[sua] ligação com o crime organizado”, quod erat demonstrandum.
Melhor prova, impossível É esse tipo de texto que a progressistada
adora, usa como demonstração de crítica contundente, de pensar com a
própria cabeça, como argumento para não acreditar nos jornalões e ser
independente e racional.
É óbvio que não se deve falar com a
cabeça quente, nem apelar á emoção desregulada dos que, por acreditarem
no fim próximo do liberalismo, querem rifar os editores da Veja e jurar
que defendem a liberdade de expressão ao mesmo tempo. Deve-se esperar
investigações sérias e provas contundentes antes de afirmar qual será o
veredicto, não é? Olhem só:
A CPMI deveria amainar o espírito de vingança e ensinar à própria Veja como utilizar técnicas de investigação correta e consistentes (sic), com direito ao contraditório e sem ceder ao clamor das ruas.
A punição de Veja ocorrerá seguindo todos os procedimentos legais e analisando-se seu papel com um senso de justiça que sempre faltou à ela própria. Baixe-se a fervura e que os parlamentares comportem-se com a dignidade que sempre faltou à revista.
(grifos nossos)
Não é um primor da independência e do
correto encadeamento de causa e conseqüência em uma linha temporal e
racional? Ainda mais com tantas provas consistentes, se é que são
consistentes, se ficarem provadas que são provas, mas certamente a
punição ocorrerá?
Ah, Nassif também escreveu uma carta aberta ao ministro Ayres Britto. Aquele mesmo que disse
ser sua agenda mais importante do que atender a convite de encontro de
blogueiro progressista de Paulo Henrique Amorim. O mesmo que sugeriu
como frases suas, para um banner exposto no encontro, “A liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade” e “os excessos da liberdade se corrigem com mais liberdade“ (será mesmo que o encontro terá coragem de usar tais frases?).
Se alguém duvidou das razões que expomos, junto ao blog do Pannunzio,
para PHA aproveitar um encontro com um ministro do STF e levar advogado
a tiracolo (ou seja, tentar amenizar alguns dos freqüentes processos em
que é réu), eis que Nassif deixa claro aos próprios leitores da
blogosfera do dinheiro público. O primeiro parágrafo é outra pérola
reluzente:
“Ministro Ayres Brito,
Em que mundo o senhor vive?
O senhor tem feito o jogo do jornalismo mais vergonhoso que já se
praticou no país, usurpado os direitos de centenas de pessoas que
buscavam na Justiça reparação contra os crimes de imprensa de que foram vítimas. E não para, não se informa, não aprende, não consegue pisar no mundo real, dos fatos.
No poder judiciário, o senhor tornou-se o
principal responsável pelo aprofundamento inédito dos vícios
jornalísticos. Sua falta de informação, sua atração pelo aplauso fácil,
fez com que olhasse hipnotizado para os holofotes da mídia e
(…) deixasse de cumprir seu dever constitucional de zelar pelos direitos
individuais de centenas de vítimas de abusos da imprensa.
Centenas de pessoas sendo massacradas pelo jornalismo difamatório e o senhor ainda vem com essa história de defender a mídia das decisões de juízes de primeira instância.
Tomo meu caso.
(…)
Repito: o senhor é responsável direto pelo aumento do descalabro da mídia, os assassinatos de reputação que pegavam indistintamente culpados e inocentes, que arrasaram com a vida de centenas de pessoas. (…)
O senhor não entendeu que, ao contrário do que propaga, a mídia não precisa ser defendida do Judiciário; é o Judiciário que precisa ser defendido do mau jornalismo. (…)
O senhor deveria por um minuto sair de sua redoma, de seu mundo do faz-de-conta e
passar o que passaram as vítimas desse jornalismo, testemunhar o abalo
que esses ataques produziram em famílias, em mães, filhos, avós,
entender por um minuto sequer o sentimento de indignação e impotência
de ver direitos básicos sendo pisoteados a cada ataque difamatório sem
que a Justiça se manifeste.”
(grifos nossos)
Motivo para Nassif começar um carta a um
ministro do Supremo Tribunal Federal com um belo “Em que mundo o senhor
vive?”? Ora, é que há “vítimas da imprensa” (uma nova categoria, depois
das vítimas da ditadura), que essa imprensa “assassina reputações”
(também tortura em seus porões, aposto) e famílias, mães, filhos e
vovózinhas estão hoje chorando e vivendo na miséria por serem “vítimas
do abuso de imprensa”. E, claro, Nassif ele próprio é uma dessas
“centenas de vítimas”, e o Judiciário é que deve se proteger da imprensa
má, porque imprensa livre nunca nos levará até o grau de civilização
que os leitores de Nassif adorariam ver. Por isso, toma o próprio caso
(mais ou menos como PHA) de sua maçante tentativa de processo novamente
com os burros n’água contra a Veja – e mais uma vez provando por a+b que
a+b não prova nada, afirma que se não estava certo, estaria se
estivesse. Logo, estava quase lá. Se é que vocês entendem.
É um dado curioso. Temos testemunhos
aqui neste mesmo site do que é ser, digamos, “vítima do excesso de
imprensa” de Nassif. Afinal, os espiões do mesmo Nassif já divulgaram
até o endereço de um de nossos escrevinhadores, que teve de atender
interfone de alguns dos esbirros leitores do próprio Nassif. Isso,
claro, antes de Nassif, novamente, perder na Justiça.
Será que Nassif irá discursar no Encontro dos Blogueiros do Dinheiro Público na frente de um banner escrito “Os excessos da liberdade se corrigem com mais liberdade – Ministro Carlos Ayres Britto”? Essa valerá uma foto muito curiosa.
Flavio Morgenstern é redator, tradutor e analista de mídia. É torturador assassino da imprensa, mas ainda não foi processado pelo Nassif.
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