A relação de Luiz Gonzaga com o Rio Grande do Norte perpassa inúmeros fatos marcantes para a história musical potiguar e do Rei do Baião. Troca de amizades, favores e experiências incalculáveis ao acervo do cancioneiro nacional. Desde a composição Ovo de codorna, em parceria com o potiguar Severino Ramos, à reascensão de "Seu Lua" ao mercado com a produção de seus discos na década de 1980 pelas mãos do mossoroense Carlos André. Também a relação afetuosa com o músico Paulo Tito, parcerias com Elino Julião. Gravação do clássico de Chico Elion, Ranchinho de Páia. Entre outros laços arrochados com o cenário potiguar. Mas a amizade de um sanfoneiro e confidente talvez mereça o maior registro. Foi a pedido do próprio Gonzaga um show em Natal para ajudá-lo nas finanças. E aquela seria a última apresentação dele em público, meses antes de sua morte.
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No
pátio da Câmara Municipal após receber o título de Cidadão Natalense,
em 1979 (esquerda). No finado Machadão, o rei do baião fez show ao lado
de Fagner, na década de 1980 (direita). Fotos: Jaime/DN/D.A Press e
Moraes Neto/DN/D.A Press
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A amizade de Roberto do Acordeon e Luiz Gonzaga começou tímida já na década de 1960. O primeiro encontro se deu na rádio Jornal do Comércio, em 1958. À época, Gonzaga lançava a canção Forró no escuro ("O candeeiro se apagou e o sanfoneiro cochilou..."), e Roberto só olhava o pioneiro do baião. Nos anos de Jovem Guarda, da pegada yeah, yeah, yeah, Roberto e Luiz tocaram várias vezes em circos montados em interiores de Pernambuco. Trocavam uma ideia, acenavam um para o outro e mantinham o coleguismo saudável dos sanfoneiros. Somente em 1976 as antigas Casas Régio fizeram contrato com os dois músicos para uma temporada de quatro shows no Rio Grande do Norte: um em Natal (Praça Gentil Ferreira, no Alecrim), em Mossoró (Festa de Santa Luzia), em Currais Novos e Caicó.
"A
época tava boa pra Gonzaga. O jornalista Carlos Imperial inventou de
divulgar que um dos ex-Beatles tinha gravado Asa branca. Isso deu uma
levantada na carreira dele. E fomos os dois para esses shows", lembra
Roberto. E sentencia: "Verdade é que Gonzaga, eu, o sanfoneiro em geral,
sempre passamos por cima da moda. Enfrentamos o twister, o tcha tcha
tcha, a Jovem Guarda, o Tropicalismo, a Lambada. O forró nunca morreu. E
Seu Luiz era perseverante, teimoso. Nunca teve essa de período de
baixa, não". Passado alguns minutos de conversa, o próprio Roberto se
contradiz. E lembra quando, em abril de 1989, a mulher com quem Gonzaga
viveu seus últimos anos ligou para o sanfoneiro: "Roberto, é Edelzuíta.
Gonzaga pediu para eu ligar pra você. Ele está precisando os amigos
agora. Tem data para ele por aí?".
Roberto era dono do Forró do
Sanfoneiro. O espaço marcou época em Natal, localizado na Roberto
Freire, onde hoje funciona o supermercado Favoritos. A inauguração foi
em 1985. À época foi Roberto quem convidou Gonzaga para o show de
estreia. "Liguei convidando. Quem atendeu foi o sobrinho, Piloto.
Gonzaga tava dormindo. Acordaram e ele atendeu todo animado. Era sempre
assim: perguntava logo como a pessoa estava, se a família tava boa de
saúde, sobre a política local. Aí eu disse que tinha feito um negócio e
queria a presença dele pra começar. Ele disse: 'Vou e faço um acordo bom
pra você: eu toco dois dias e você me paga um'. E esse um ainda foi
barato". Roberto lembra mais de três mil pessoas em cada dia. Espaço
superlotado. Mas após um aperreio inesperado. "Gonzaga chegou mais de
três horas atrasado e com uma dor de barriga danada. Quando chegou
entrou direto ao banheiro", relembra o amigo.
O último show
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A
amizade de Roberto do Acordeon com Gonzagão teve início ainda na década
de 1960 e prosseguiu fiel até a morte do rei do baião. Foto: Arquivo
pessoal/Divulgação
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