A década de 1970 está de volta?
Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da
política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando
uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao
mesmo conjunto de três perguntas.
Neste post, entrevistamos nosso terceiro convidado: Mansueto F. de Almeida Junior. Pesquisador sério e com amplo conhecimento sobre a economia brasileira, também mantém o excelente blog: Blog do Mansueto Almeida. O Sachsida agradece a gentileza da entrevista.
1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em
breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década
perdida)? Por que?
Resposta) Há de fato algumas semelhanças. O governo Castelo Branco, por
exemplo, foi um governo reformista e o Brasil aumentou fortemente a
carga tributária (de 16% para 25% do PIB) e a poupança pública de 1966 a
1970. O estado brasileiro do início dos anos 70 tinha uma poupança
pública elevadíssima, perto de 7% do PIB, que permitiu um aumento do
investimento público que, em conjunto com as reformas liberais do
Castelo Branco, explicam o chamado “milagre econômico” do governo
Médici.
Depois do primeiro choque do petróleo, em 1973, o governo Geisel fez o
diagnóstico que poderíamos continuar crescendo com aumento da dívida
externa e com o governo incentivando vários setores, aumentando o
investimento público e ainda expandindo os gastos nos estados como uma
tentativa de legitimar a ditadura. Isso levou a uma forte queda da
poupança pública, mais inflação e a uma crise fiscal depois do segundo
choque do petróleo, em 1979.
Na nossa situação atual, há um diagnóstico parecido com o do período
Geisel, ou seja, que o governo teria o poder com o micro gerenciamento
setorial elevar a taxa de crescimento do PIB. Esse diagnóstico é errado
como era no período Geisel porque não reconhece que as nossas restrições
ao crescimento hoje estão mais do lado da oferta do que da demanda.
Quando se faz um paralelo da história recente do Brasil pós-1995 com os
governos militares, do ponto de vista de política econômica, há
semelhanças. Saímos de um governo reformista, o governo FHC, e entramos
no governo Lula que usufruiu dos efeitos positivos das reformas
institucionais da era FHC e do boom de commodities. Com a piora do
cenário externo e o esgotamento dos efeitos das reformas, a partir de
2008, passou-se a privilegiar o micro gerenciamento da economia com fez
Geisel e o aumento do endividamenteo. Isso não funcionou nos anos 70 e
nem vai funcionar no sec. XXI.
Acho exagerado, por enquanto, falar que chegaremos a uma nova década
perdida com queda do PIB per capita. Mas não é impossível. No entanto,
se a China continuar crescendo entre 7-8% ao ano, vamos ainda surfar no
preço das commodities e em breve seremos exportadores líquidos de
petróleo com o pré-sal. O risco é desperdiçarmos a oportunidade de
crescer mais rápido e nos acomodarmos com uma taxa de crescimento
medíocre, carga tributária elevada e um estado ineficiente.
2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?
Resposta) O Brasil é muito dependente o humor do resto do mundo para
crescer porque a nossa taxa de poupança é baixa e não acompanha o
crescimento da taxa de investimento. Assim quando a taxa de investimento
no Brasil cresce, como ocorreu de 2004 a 2011, o déficit em conta
corrente aumenta. Para crescermos mais rápidos precisamos de poupança do
resto do mundo,
Essa estratégia tem riscos porque, geralmente, o setor público, além dos
seus próprios erros, assume erros do setor privado, como fizemos nos
anos 70 e, novamente, em 2009, quando empresas com problemas de perdas
com operações com derivativos foram socorridas pelo BNDES.
O que puxou o nosso crescimento nos últimos anos não foram as
transferências de renda nem o crédito, tudo isso foi resultado de um
choque exógeno que foi o aumento de preços de commodities que
possibilitou todo o resto. Se o modelo Chinês afundar, ou seja, se a
China do século XXI repetir a União Soviética do século XX, o Brasil
será fortemente afetado. O nosso maior risco externo se chama China e
como a situação da crise européia ainda está sem solução, o risco de uma
nova crise mundial com impacto maior na China não é desprezível. Por
enquanto, ninguém aposta nesse cenário, mas o simples fato dele ser
considerado já é ruim.
3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a
inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda
com isso? Por que?
Resposta) Acho que, na verdade, o governo utiliza a política tributária
para tentar fazer, ainda que de forma capenga, uma política anticíclica.
O governo não tem capacidade de fazer política anticíclica pelo lado da
despesa. O gasto público que mais cresce é o gasto com custeio e o
governo não consegue investir. Assim, resta a desoneração tributária
temporária como forma de incentivar a economia.
O ruim é que essas desonerações não são uniformes, alguns setores são
beneficiados e outros não, e as desonerações são pequenas. Essa política
de desoneração seletiva tem o efeito adverso de premiar quem grita
mais, como o setor automotivo, o que é ruim para a competitividade da
economia.
Acho que a preocupação com a inflação é mínima. De 2008 a 2011, por
exemplo, a inflação só ficou perto do centro da meta, em 2009, quando o
crescimento do PIB foi negativo. A inflação média de 2008-2010-2011 de
6,1% ao ano e, no ano passado, quase ultrapassou o teto da banda. Assim,
já estamos com a inflação média elevada.
O caso do uso da CIDE para compensar o não reajuste de preços da
gasolina ao consumidor foi algo muito pontual. Não dá para o governo
generalizar esse tipo de política por um simples motivo: o governo gasta
muito e precisa de uma arrecadação crescente.
Num esforço desse blog para tornar claro os perigos inerentes da
política econômica adotada atualmente em nosso país, estou entrevistando
uma série de especialistas em economia brasileira. Todos respondem ao
mesmo conjunto de três perguntas.
Neste post, entrevistamos nosso segundo convidado: Alexandre Schwartsman. Ele mantém um dos melhores blogs de economia do Brasil: A mão visível.
Schwartsman é certamente uma das maiores autoridades sobre economia
brasileira. Tem experiência como ex-diretor do Banco Central e muita
experiência no setor privado. O Sachsida agradece a gentileza da
entrevista.
1) O Brasil está revivendo o final da década de 1970? Será que em
breve estaremos revivendo a década de 1980 (apelidada de década
perdida)? Por que?
Resposta) Em alguma medida, sim, mas não chegamos lá (ainda?). Em comum,
a tentativa de manter a demanda doméstica como motor do crescimento
quando o mundo se torna um lugar mais complicado, assim como uma
tendência à intervenção mais direta na economia. Institucionalmente,
porém, se tornou mais difícil retomar a grau de intervenção que havia à
época. Só para lembrar, havia 3 orçamentos (fiscal, monetário e
estatais, sendo que apenas o primeiro passava pelo Congresso). É verdade
que o BNDES virou um orçamento monetário, mas mais sujeito a controle
do que havia então.
2) Qual o maior risco do cenário externo para a economia brasileira?
Resposta) Queda adicional de preços de commodities, revertendo os ganhos
de termos de troca. Isto requer a contração da demanda doméstica
relativamente ao PIB para compensar a perda, mas não me parece que o
governo esteja disposto a fazer isto, seja pelo lado fiscal, seja pelo
lado monetário. Ao mesmo tempo parece assustado com a possibilidade de
desvalorização adicional da moeda. Com menos espaço de crescimento
receio que a reação de política econômica agrave o quadro.
3) O governo parece estar usando política tributária para controlar a
inflação. Você acredita que isso seja verdade? Se for verdade, concorda
com isso? Por que?
Resposta) Sim. Embora a redução do IPI tenha outras motivações, teve
efeitos temporários sobre a inflação que estão sendo brandidos como
prova de controle inflacionário. Mais importante foi a decisão de
aumentar o preço dos combustíveis no limite do que foi possível
compensar com a queda da CIDE.
Obviamente este tipo de política afeta a manifestação da inflação, mas
não suas raízes, a saber, um ritmo de expansão da demanda incompatível
com a capacidade produtiva da economia. Enquanto os ganhos de termos de
troca permitirem, o ajuste se dá pelas importações, com efeito moderado
sobre o balanço de pagamentos, mas, a mesmo tempo, muito menos efetivo
quando se trata de bens não-comercializáveis.
Postado por
Blog do Adolfo
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