sexta-feira, 13 de julho de 2012

PPE: Noções básicas de metodologia da Política Econômica


O que é a Política Econômica

A primeira pergunta que se coloca o aprendiz de Política Econômica será, certamente, "o que é a Política Econômica?". A resposta, aparentemente fácil, não tem sido unânime. Exemplos de definições dadas por diversos autores são as seguintes:

"[A política econômica consiste na] conjugação deliberada de certos meios para alcançar determinados fins [da área econômica]" (TINBERGEN, 1961)

"[a Política Econômica é a] Área econômica da política."

"Processo pelo qual o governo hierarquiza certos objetivos à luz dos seus fins de política econômica geral e usa instrumentos ou alterações institucionais para alcançá-los." (KIRSCHEN, 1974)

"Conjunto de decisões coerentes tomadas pelos poderes públicos visando alcançar certos objetivos relativos à situação econômica de um conjunto nacional, infranacional ou supranacional, através de diversos instrumentos e num quadro de maior ou menor prazo." (MOSSÉ, 1978)

"Conjunto das decisões dos poderes públicos visando orientar a atividade econômica num sentido julgado desejável aos olhos de todos." (GREFFE, 1989)

"[...] entendemos por política econômica a atuação dos poderes públicos em domínios econômicos destinada à obtenção de resultados previamente escolhidos" (AMARAL, 1996)

Uma leitura cuidada de cada definição permite salientar um conjunto de aspectos que nuns autores são enfatizados, mas a que outros não se referem. Neste caso está, por exemplo, a referência explícita em MOSSÉ de que só se existir coerência interna ao conjunto de medidas adotadas é que se poderá falar numa verdadeira Política Econômica. A inexistência dessa coerência faz das ações tomadas nesse domínio um mero rol de medidas com o risco de provocar efeitos perversos na economia.

No entanto, não sendo profundas as diferenças de um autor para outro, vamos fugir à tentação de analisar detalhadamente cada uma delas para nos preocuparmos somente com aquela zona em que parece existir uma nítida convergência de opiniões.

Essa zona é a de que a política econômica consiste na manipulação, pelos agentes de política econômica (nomeadamente o Governo, o Banco Central e o Parlamento de um país, mas também, cada vez mais, de entidades multinacionais) de certos meios para atingir determinadas finalidades relacionadas com a situação econômica de um país, uma região ou um conjunto de países.

Esta é, como facilmente se poderá constatar, uma formulação que quase decalca a de Tinbergen referida acima.

Da definição dada deduz-se que a Política Econômica é uma intervenção no real com vista à sua modificação. Isto põe a questão do conhecimento desse real sobre o qual ela irá incidir.

Por ele ser multifacetado, a sua apreensão não está ao alcance da Ciência Econômica se tomada isoladamente. Outras ciências contribuem para o seu conhecimento. Na área que mais nos interessa a dos fenômenos sociais, além da ciência econômica também a ciência política, a história, a estatística, a sociologia, a antropologia e outras ciências sociais (a psicologia social, p.ex.) têm de intervir no processo de conhecimento da realidade.

Este é, como teremos oportunidade de ver e reforçar mais adiante, um dos aspectos fundamentais numa perspectiva de metodologia da Política Econômica. É que sem um bom conhecimento das realidades econômicas e sociais do espaço sobre que incidem as ações de política econômica, ela arrisca-se a desencadear forças que podem levar, inexoravelmente, à degradação duradoura da sociedade em causa. Isto é especialmente verdade para o caso das sociedades africanas já que nelas é ainda muito presente a influência de formas de organização ditas 'tradicionais'.

Temos dito que a Política Econômica é intervenção no real. Só que ainda não precisamos, até agora, qual o "real" em que a Política Econômica intervém. Isto é, apesar do que já ficou dito, ainda não precisamos suficientemente qual o objeto da Política Econômica.

Ele não é mais que o processo econômico de um determinado espaço, o qual inclui, no essencial, a organização e os mecanismos de funcionamento da economia desse espaço ((1)). Portanto, para que seja possível formular a política econômica torna-se necessário conhecer esse processo econômico. É o seu conhecimento através do conhecimento dos dados (2) e dos fenômenos econômicos (3) que o caracterizam, que constitui a base de reflexão e de intervenção da política econômica.

O processo econômico concreto de um país é determinado por fatores de natureza bem diversa como sejam o comportamento dos responsáveis da Política Econômica, meios ((4)) ao dispor destes (quantitativos, qualitativos, reformas, etc.), fundamentos e estrutura da economia.

Por outro lado, a visão sistêmica da realidade econômico-social fornece duas recomendações à política econômica:

a) não ignorar que o campo de intervenção é uma totalidade complexa, interrelacional, dinâmica; e que

b) dado que existem tensões estruturais nas relações entre as componentes da totalidade, há a necessidade de articular a política conjuntural com a política estrutural (isto é, de médio/longo prazos). Se há alguma relação de determinação entre ambas é fato sujeito a discussão. Temos para nós que, se é verdade que razões prementes --- por exemplo, um desequilíbrio insustentável das contas externas --- pode obrigar a uma hierarquia de objetivos em que os de curto prazo se sobreponham aos de longo prazo, a verdade é que tendencialmente se deve verificar uma (sobre-)determinação (?) destes sobre os primeiros ou, no mínimo, uma preocupação em não perder de vista as consequências de médio-longo prazo da gestão macroeconômica e macro-social de curto prazo. 

 

A íntegra do texto:

 

Disponível em: http://www.iseg.utl.pt/disciplinas/mestrados/dci/dcipedcap1.htm

 

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