Pesquisa do DataFolha mostra aquilo que todos
poderiam adivinhar. A aprovação e rejeição ao projeto de trazer médicos
estrangeiros obedece a um critério básico.
Quem reside em regiões pobres e carentes é a favor da
contratação de médicos estrangeiros.
Quem se encontra do
outro lado da pirâmide é contra.
No fundo, se há
alguma revelação espantosa no levantamento, ela diz respeito ao egoísmo das
classes que se situam nos patamares superiores da pirâmide. Segundo o
DataFolha, a turma que é contra a importação de médicos leva uma vantagem de 2
pontos sobre aqueles que são a favor.
Os dados objetivos
mostram que o país tem a metade dos médicos que uma nação civilizada necessita.
Não há o que discutir, não é preciso investigar nem apurar mais. O ponto básico
é: faltam médicos. Mesmo que todos eles resolvessem, de uma hora para outra,
ocupar os postos existentes, na periferia violenta de São Paulo e no interior
da Amazônia, no Piauí e no sertão da Bahia, ainda assim a população não estaria
bem atendida.
A experiência
mostra que outros países conseguiram resolver o problema abrindo o mercado para
profissionais estrangeiros. Na Europa e nos Estados Unidos, a parcela de
médicos estrangeiros passa dos 20% e muitas vezes supera 30%.
Voltando à pesquisa
de opinião.
No levantamento,
aprendemos o seguinte. Uma maioria de pessoas que tem um doutor ao alcance do
plano de saúde ou, quando o serviço particular fica travado, da conta bancária,
não consegue reconhecer a necessidade urgente de quem não tem uma coisa nem
outra. Não estamos falando de aeroportos lotados, de transito insuportável, da
PEC das Domésticas. O assunto é de vida ou morte -- literalmente.
Eles defendem o
direito à própria vida e de suas famílias, muitas vezes com muito sacrifício,
sem dúvida, mas não conseguem compreender as necessidades de quem não dispõe do
mesmo conforto.
Também enxergo,
nessa postura, um elemento de xenofobia, aquela reação irracional e
preconceituosa contra estrangeiros – que muitos brasileiros já enfrentaram em
suas imigrações pela Europa e Estados Unidos, e podem estar manifestando agora,
quando se encontram do outro lado do balcão.
Compreendo que essa
lógica é causa e efeito de um mundo de valores privados e responsabilidades que
foram individualizadas.
O sujeito que
compra por um serviço que um outro pode obter de graça sente-se tratado
injustamente, e até prejudicado. Compreende-se a razão material desse
sentimento: o Estado brasileiro cobra, em impostos, muito mais do que retribui.
É uma situação
lamentável, que só pode ser enfrentada com uma ampliação do Estado de Bem Estar
Social, capaz de oferecer serviços bons para todos – inclusive para a classe
média.
Neste momento, eu
imaginava, honestamente, que num terreno tão delicado, onde a presença de um
médico pode representar a fronteira entre a vida e a morte, da própria pessoa,
ou de seus parentes, muitas vezes de seus filhos, seria possível encontrar
espaço para uma solidariedade um pouquinho maior.
Obrigar as pessoas
carentes a pagar pela própria carência é como responsabilizar doentes pela
própria doença, pobres pela pobreza, os órfãos pelo abandono dos pais e assim
por diante.
Claro que tem gente
que pensa assim. Margareth Thatcher, por exemplo, formulou essa ideologia de
forma crua quando disse que não existe essa “coisa que chamam de sociedade.”
Existe o quê? Os indivíduos, as famílias. Um de seus autores preferidos, Adam
Smith, dizia que o progresso da humanidade é produto da soma dos egoísmos
individuais.
Mas essa é a Turma
dos Outros que se danem Futebol Clube, como se dizia em teatros de vanguarda
dos anos 1960.
Deixando de lado
patologias desse tipo, que dificultam o simples convívio social entre pessoas e
classes sociais diferentes, com necessidades diferentes, acredito que o cidadão
que nasceu no lado mais confortável da pirâmide não precisa achar ruim quando o
Estado reserva uma parcela de recursos para auxiliar os mais fracos e mais
prejudicados. A diminuição da desigualdade é benéfica para todos, ainda que
muitas pessoas fiquem incomodadas quando sentem que sua posição na hierarquia
social tornou-se menos valorizada.
Quem frequenta as
excelentes casas de chouriço argentino de São Paulo não deveria ficar revoltado
porque, de vez em quando, as crianças da merenda escolar da rede pública
consomem caldo de carne em suas refeições, certo?
Quem tem um carro
para cada membro da família não precisa reclamar dos com subsídios para o
transporte público, certo?
Não faltam notícias
periódicas sobre as mazelas da saúde pública, que concluem com uma revelação
monótona: o médico responsável não apareceu no plantão – ou que estava
tão atarefado que deixou pacientes graves em macas pelo corredor.
É claro que quase
sempre se individualiza o problema e o comportamento de cada um, como se
fossem, invariavelmente, casos isolados de delinquência, preguiça ou, como está
na moda, de deficiência “na gestão.”
É sempre
conveniente transformar os dramas sociais numa narrativa de mocinhos e
bandidos, certo?
(Nos diagnósticos
de “gestão”, abre-se o caminho para grandes consultorias privadas. Você
entende, né?)
Qualquer cidadão
que se der ao trabalho – por exercício cívico – de visitar o posto de saúde de
seu bairro, experiência que recomendo vivamente, irá entender que os fatores
decisivos estão além da responsabilidade de cada indivíduo. Não faltam apenas
médicos. Faltam remédios, equipamentos de exame e também outros profissionais.
Surpresa: muito provavelmente, vamos encontrar pessoas que fazem o que podem –
e até o que não podem – para assegurar um atendimento decente. Nem sempre dá, é
claro. Mas eles tentam.
Claro que a saúde
pública só atingirá um patamar decente, capaz de atender cidadãos necessitados
e também aqueles que já pagam pelo atendimento com seus impostos, a partir de
muitos investimentos e melhorias.
Mas o debate sobre
os médicos estrangeiros envolve o protagonista, o artista do filme. Fingir que
a presença de um médico não é o fator principal na melhora imediata da saúde
numa rua, num bairro, ou mesmo numa cidade, e, no fim das contas, do país, é
como imaginar uma partida de futebol com estádio, um bom gramados, juízes
excelentes, gandulas treinadíssimos – mas sem os jogadores.
Quem viu a
espetacular vitória brasileira, ontem, no Maracanã, sabe do que estamos
falando.
O debate sobre médicos
estrangeiros envolve o direito de pobres e ricos de usufruir da própria vida.
Por Paulo Moreira Leite
– IstoÉ.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário