Vou apresentar um modelinho que tem se mostrado útil para analisar o comportamento da atividade econômica, inflação e política monetária no Brasil.
Coisa relativamente simples quando comparada aos SAMBAS e BLUES que vêm sendo tocados aqui no ACDL, ritmos que cada vez mais estão ficando mais na moda – peço compreensão porque, afinal de contas, no peito dos desafinados e antiquados também bate um coração.
O objetivo é introduzir um esquema que servirá de base para um ou dois posts nos próximos dias. Este é, portanto, o momento para o leitor de fé ou familiarizado mudar para um blog mais light.
A idéia é tão intuitiva quanto velha. Projeta-se a inflação a partir de variações de custos que são transmitidas ao varejo com mais ou menos facilidade, dependendo da ociosidade da economia – seja na indústria, capturada pelas sondagens de ocupação da capacidade, seja no mercado de trabalho, conforme as pesquisas de emprego e desemprego.
Quando a economia está operando no limite da capacidade e há demanda abundante por bens e serviços, é razoável supor que o varejo terá facilidade em passar custos para os consumidores ou elevar margens. No agregado, isso provoca inflação.
Além do desafio não trivial de medir com um mínimo de precisão a ociosidade da economia, é preciso explicar os seus ciclos. Normalmente supõe-se que a ociosidade varia com persistência em função das políticas monetária (taxas de juros), creditícia (concessões de crédito com recursos livres e empréstimos subsidiados e direcionados) e fiscal (gastos públicos).
A história do modelo é a seguinte:
- O governo escolhe (i) quanto quer gastar, (ii) quanto quer dar de crédito subsidiado para empresas e setores específicos e o BC define mensalmente (iii) a taxa de juro;
- A política do governo pode ser expansionista (gastos em elevação, crédito abundante e juro baixo) ou restritiva (contenção de gastos, crédito escasso e juro alto);
- Dada a política do governo, o setor privado escolhe consumir e investir;
- Se a política for expansionista, o setor privado aumenta gastos e isso tende a diminuir a ociosidade da economia. Ocorre o inverso se a política for restritiva;
- Se, no momento inicial, existir ociosidade de sobra, políticas expansionistas tendem a gerar crescimento econômico; se não houver ociosidade, políticas expansionistas geram inflação; para baixar a inflação, o governo tem que adotar políticas restritivas e isso compromete o crescimento econômico;
- Supostamente, a economia tem uma capacidade de crescimento limitada a cada momento; caso contrário, não haveria inflação – saber exatamente qual é o potencial requer uma dose de boa vontade e técnicas avançadas de
voodooestatística;
- Como o setor privado decide se o juro é alto ou baixo, para uma dada política fiscal e creditícia? Ele olha para o juro em termos reais e o compara com o “juro neutro”;
- O setor privado usa o mesmo modelo descrito acima para atualizar gradualmente suas expectativas de inflação. O que importa é a taxa de juro descontada da taxa de inflação, ou o juro real. Por exemplo, se a expectativa de inflação subir e o BC não subir proporcionalmente o juro, o juro real cai e a política monetária fica relativamente mais expansionista;
- O juro real será considerado alto ou baixo após compará-lo ao animal chamado de “juro neutro”, aquele compatível com ociosidade nula, ou seja, nível de atividade compatível com o que a economia agüenta.
Qual o juro neutro? Aqui temos um mistério que tem consumido o cérebro dos economistas mais brilhantes deste país. Sabe-se que ele é alto em uma comparação internacional, vem caindo lentamente com o passar dos anos, certamente depende de aspectos institucionais e da política fiscal e creditícia do governo e, provavelmente, está atualmente contido dentro de um intervalo entre 6% e 8%.
A consciência de dois liberais - Celso Toledo
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