Simulei as trajetórias para inflação e atividade econômica a partir do modelinho que descrevi na semana passada. Os resultados para 2012 – obtidos com informações disponíveis até o dia 26 de outubro – estão na tabela.
As projeções partem da premissa de que o Banco Central derrubará o juro para 10% ao ano, conforme a aposta embutida nos preços praticados na BM&F. Além disso, as cotações do USD e de commodities são mantidas constantes nos patamares observados no dia da simulação – hipótese usual.
Como não há modelo perfeito – Samba, Bolero, Chá-Chá-Chá ou qualquer ritmo – a tabela também permite explorar as margens de segurança das simulações. Os intervalos são computados a partir de 500 simulações a partir de amostragens aleatórias dos erros passados do modelo.
No cenário central, projeta-se crescimento de 3,3% e inflação de 4,9%. A expectativa para a inflação encontra-se ainda acima do valor central da meta oficial de 4,5%, mas significativamente abaixo da projeção de consenso. No dia da simulação, a projeção mediana dos economistas pesquisados pelo BC registrava variação do IPCA de 5,6%.
Como as expectativas de inflação têm caído marginalmente e as novidades para o cenário externo e, sobretudo, para a atividade doméstica não têm sido boas desde o dia 26, acredito haver chance razoável de que as projeções do modelo e do próprio mercado continuem caindo nas próximas semanas.
Se isso for verdade, pode ser que o BC acabe ganhando a espécie de aposta que fez ao surpreender boa parte do mercado quando reduziu o juro no último dia de agosto, conforme avaliação do sizudo FK (Fabio Kanczuk).
Será?
Se o nosso modelinho for uma expressão fiel da verdade, choques negativos sobre a atividade econômica capazes de empurrar o crescimento no ano que vem para o ritmo de 2,5% deveriam fazer a inflação cair para algo bem próximo da meta de 4,5% com o juro caindo para 10% – transformando o BC em mago da política monetária.
O problema é que existe uma dúvida sobre as preferências inflacionárias do BC, do governo e, arrisco dizer, da sociedade em geral – haja vista a reação de muitos segmentos após a guinada do juro. O governo toparia deixar a economia crescer 2,5% para cumprir a meta ou preferiria pisar no acelerador e evitar uma desaceleração expressiva, correndo o risco de a inflação descolar do objetivo?
Acho que a segunda alternativa é mais provável. Ao topar fazer a aposta que fez em agosto, sem evidências ainda sólidas de que a vaca poderia estar indo ao brejo (existe ainda uma chance de que o caos seja evitado), o governo mostrou que provavelmente preferirá correr o risco de inflação mais elevada do que deixar a economia crescer pouco, sobretudo se “choques” negativos continuarem a ser sorteados a curto prazo.
Resumindo, se mais uma ou duas novidades como a queda surpreendente da produção industrial (conhecida depois da simulação mostrada acima) fizerem o consenso para o crescimento baixar para 2,5% (tenho amigos que já trabalham com a hipótese), podemos começar a apostar em juro de um dígito.
PS: a questão do mandato ideal para o BC (equilibrando inflação e crescimento) é interessante – especialmente em tempos pouco normais como agora. O assunto é projeto de um dos nossos queridos patriotas. Belo tema para um comentário no futuro.
A consciência de dois liberais - Celso Toledo
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