segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Risco de inflação não está em 2012. Está em 2013.


Aqueles que analisaram a tabela do post anterior com lente de aumento perceberam a previsão central para a ociosidade no final de 2012 de 0,9% – supondo juro caindo para 10%. Isto significa economia produzindo quase 1% a mais do que deveria se estivesse trabalhando de acordo com o potencial (sem horas extras, fazendo as devidas paradas técnicas para manutenção, etc).

Partindo do pressuposto de que o modelo descrito aqui representa adequadamente a realidade, este nível de ociosidade (ou “hiato do produto”) não é compatível com estabilidade de preços em prazos maiores. A história contada pelo modelo pressupõe que a inflação tende a subir quando a economia opera acima do potencial – característica que, de resto, está presente em qualquer modelo efetivamente usado por Bancos Centrais mundo afora (apesar das enormes dificuldades de conhecer o verdadeiro potencial da economia).

A figura mostra a projeção de inflação estendida para 2013 com as mesmas premissas que adotei no post anterior. A tendência é claramente de alta.


Uma autoridade monetária que utilizasse esse modelo e estivesse comprometida com a meta não cogitaria derrubar o juro para 10% ao perceber a tendência de alta da inflação no horizonte de dois anos, mesmo notando a probabilidade baixa de rompimento do teto da banda (6,5%).

Mais do que isso.

A figura mostra que, se o BC fosse ortodoxo como rótulo de Maizena, e acreditasse piamente no modelo, deveria praticar juro superior a 10%, mesmo se estivesse trabalhando com cenário para a atividade econômica mais pessimista do que a projeção central.

Digamos, por exemplo, que a autoridade monetária estivesse mais pessimista do que o modelo e preferisse trabalhar com o limite inferior do intervalo de 80%. Neste caso, um afrouxamento do juro para 10% seria perfeitamente coerente com o cumprimento da meta de inflação em 2012. Mas não em 2013. Para evitar volatilidade excessiva da taxa de juro, o “BC Alemão” olharia para um prazo mais longo e concluiria que a decisão mais eficiente seria interromper a redução do juro antes que ele chegasse aos 10%.

O problema é que não há espaço para muita ortodoxia no mundo atual. E os horizontes estão encurtados pela crise. Como justificar uma política de “juro alto” com base em uma simulação dois anos à frente baseada neste ou alternativamente em um modelo mais sofisticado, como o SAMBA?

Diante das incertezas e volatilidades atuais, mesmo um Ministro da Fazenda com destreza e crença no que normalmente é considerada a “corrente principal” da Teoria Econômica seria perdoado por desconfiar de uma simulação com horizonte tão longo.

Agora, para um governo que demonstra acreditar na existência de dilema de longo prazo entre inflação e crescimento, a política monetária sugerida por presidente do BC ortodoxo que levasse ao pé da letra a simulação acima soaria como uma tremenda estupidez.

Para este governo, além da política de parar o juro antes de 10% não fazer o menor sentido, seria necessário reduzi-lo mais agressivamente, evitando assim o esfriamento excessivo da economia no horizonte de curto prazo – para o qual se tem um mínimo de visibilidade.

O modelo pode estar redondamente errado. As premissas podem ser falsas. 

O mundo pode acabar. Vai saber? Mas, se a descrição aqui for a correta, ao agir de forma contra-cíclica no curto prazo, evitando “pagar a conta” dos excessos de 2010, o governo arriscará a meta não só em 2012, mas também em 2013.

A consciência de dois liberais - Celso Toledo

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