A despeito das objeções de Heidegger quanto à consideração do agir humano como uma consumação do ser, a falta de um fundamento metafísico seguro não impediu que diversos autores, ao longo da história da filosofia, tratassem de encontrar a maneira mais adequada de se comportar entre os seres humanos e perante os objetos da natureza. Certamente, a lacuna gerada pelo abandono de uma explicação originária, em relação ao ser, levou a todos que estudaram o comportamento humano a se enquadrarem na tradição filosófica ocidental que, na perspectiva heideggeriana, separava o ser do pensar e do agir. Filósofos - como Aristóteles, Kant e mesmo aqueles que trabalham sob a ótica de uma tradição religiosa ou histórica -, freqüentemente, recorrem a princípios de ação ideais, fora do domínio material e natural dos agentes humanos, a fim de estabelecerem uma base firme para a criação de normas.
Costuma-se dizer que a prática humana correta e válida, seria aquela que estivesse de acordo com uma concepção de vida; de um mundo superior ou uma tradição histórica já formada. Sendo assim, os diversos pensadores que abordaram esse assunto, quase sempre, recorriam a uma situação ideal imaginada que serviria para se averiguar se uma determinada ação ou regra de ação é válida ou não, correta ou ilegítima etc. Portanto, para saber se o ser humano age corretamente, bastaria confrontar sua ação com uma norma considerada válida ou compará-la com outra ação semelhante desenvolvida num contexto ideal. Isto é, verifica-se se a ação é adequada à uma lei ou se ela poderia ser aceita por um modelo padrão que universalizasse sua aplicação, inscrevendo a ação num princípio geral válido para todos.
Nesse sentido, as doutrinas que apelam para essas construções idealizantes pretendem avaliar a prática conforme parâmetros de universalização, ou seja, segundo uma prática que todos pudessem exercer toda vez que as condições necessárias se reproduzissem. Ou ainda, que a prática estivesse de acordo com um tipo de vida considerada boa e a mais adequada para os seres humanos em geral. Por exemplo, matar uma outra pessoa seria uma ação considerada incorreta, pois acarretaria na extinção da espécie caso todos pudessem exercer essa ação, sem restrições. Por outro lado, matar seria mau, porque não seria pertinente a uma concepção de vida humana boa, na qual todos fossem considerados iguais.
Todavia, nem sempre os casos apresentados ao juízo se acomodam numa norma ou padrão ideais pré-estabelecidos. Casos de legítima defesa, aborto ou eutanásia são exemplos de como uma norma do tipo "não matar" pode ser problematizada e se abrir às exceções. Por conta disso, existem correntes filosóficas que admitem uma concepção de ética que não esteja vinculada a conceitos ideais absolutos, como critério de verificação das ações. O que se pretende é que cada ação seja avaliada isoladamente pelos interesses dos envolvidos, pelas conseqüentes utilidade ou geração de prazer ou sofrimento. Além disso, há aqueles que defendem uma posição pragmática diante das diversas opções oferecidas ao agir, quer dizer, uma atitude seria considerada boa se não houvesse outra alternativa melhor do que a praticada. Claro que, nessa tendência, todo um processo de deliberação deveria ser examinado de acordo com as circunstâncias que envolvem a ação.
As diversas éticas
O termo "ética" tem origem na palavra grega éthos, geralmente traduzida por habitação, morada ou costume. Moralis é a tradução dada pelos romanos a éthos que originou a palavra moral. Na origem, então moral e ética querem dizer a mesma coisa. Isso, no entanto, não proibiu que diversas interpretações fossem prestadas ao conceito de conduta humana. Entre as várias correntes existentes, podem ser citadas as principais:
· A teleológica, que afirma haver um fim (télos) pelo qual a ação moral é orientada, cujos principais representantes são Aristóteles e Charles Taylor;
· A universalista, que defende a existência de um princípio geral, válido para todos, Kant e Jürgen Habermas;
· A contratualista, que propõe que os princípios de ação sejam validados por um contrato entre as partes interessadas, tendo em Thomas Hobbes (1588-1679) e David Gauthier seus maiores defensores;
· A utilitarista, que funda numa utilidade geral e nos sentimentos morais a boa conduta humana, como Jeremy Bentham (1748-1832) e Peter Singer;
· E o pragmatismo, que avalia as ações segundo o processo de deliberação e um modo de vida circunstanciado, veja John Dewey (1859-1952) e Richard Rorty.
Cada uma dessas principais correntes possui variações e subdivisões que geram novas teorias morais, como a comunitariana - derivada da teleológica -, a ética do discurso, baseada na universalista; a ética da compaixão, fundada no utilitarismo; entre outras doutrinas mistas, como a teologia da libertação, justiça como eqüidade, o direito positivo etc.
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Fonte
SILVA, Antônio Rogério da. A ação humana no mundo. Disponível em: <http://www.geocities.com/discursus/textos/h-m2.html>.
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