Por: Fernando Dias
O
conceito do homo economicus é um postulado básico da teoria econômica
clássica (liberal, neoliberal, neoclássica e etc.) que diz em linhas
gerais que a razão psicológica essencial a toda a atividade humana é o
interesse pessoal e isto define a única razão da atividade econômica,
dado que o homem obedece apenas à razão. Mesmo sendo uma teoria
comportamental bastante simplificada mesmo para os padrões do século
XIX, quando foi proposta, ela ainda fornece o insight básico para
estudar o comportamento econômico em todos os modelos propostos desde
então.
Contrapondo
o homo economicus no Brasil teríamos, no entanto, o homem cordial, que
foi definido por Sergio Buarque de Holanda como aquele que age movido
pela emoção no lugar da razão, que não vê distinção entre o privado e o
público, e detesta formalidades. Na vida cotidiana uma expressão do
homem cordial é que para ele é “normal” ignorar as leis em favor das
amizades. Porém eles não são antagônicos, o homem cordial apenas estende
sua racionalidade a divisão da coisa pública de forma e elevar sua
satisfação/benefício pessoal.
Em
que isto impacta a economia Nordestina? Em muita coisa. Atualmente o
Nordeste vive um novo surto de crescimento econômico, algo que não
ocorria desde a época da criação da SUDENE e, antes disso, desde o final
do século XIX. Nós casos anteriores o crescimento não foi endógeno, e
atualmente também não é. Nos casos anteriores foi efêmero, atualmente
também poderá ser. Um dos fatores que pode contribuir para isso é que a
presença do homo economicus cordial destrói a meritocracia, e sem ela
não há espírito capitalista que resista.
Observando-se
os motivos do atual crescimento do Nordeste fica evidente que direta e
indiretamente o processo vem sendo induzido pelo setor público. Com
exceção de parte do crédito concedido as famílias, boa parte do
crescimento do consumo nas classes C e D se deve a gastos sociais e
elevação da massa de salários no setor público. A quase totalidade dos
investimentos estruturantes também está sendo feitos pelo setor público,
e mesmo os grandes investimentos privados na Região são não apenas
financiados pelo setor público (BNDES) como também tem as escolhas
locacionais pautadas por benefícios fiscais.
Políticas
regionais de crescimento são sempre bem vindas, principalmente no caso
regiões pobres como é o caso do Nordeste. Mas em geral elas são voltadas
para dar início a um processo de crescimento auto-sustentável, e não há
no Nordeste qualquer indicação neste sentido. Basta olhar os
indicadores de capital humano da Região, que só melhoram
quantitativamente (ex. mais formandos), mas pioram qualitativamente (ex.
menores notas dos formandos).
A
experiência da SUDENE mostrou que o Estado não tem meios de carregar o
crescimento regional nas costas indefinidamente, por melhores que sejam
as intenções e por melhores que sejam os cenários. A economia,
infelizmente, é cíclica, e os agentes racionais que nela se inserem
estão sempre procurando melhores oportunidades. Não deixa de ser
engraçado, contudo, que os atuais neo-desenvolvimentistas depositem suas
esperanças de sucesso de longo prazo no espírito capitalista do homo
economicus liberal, ignorando que ele não tem concepção regional e, para
piorar, ainda por cima é cordial.
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