sexta-feira, 20 de abril de 2012

Homo Economicus, ele está no meio de nós.

Por: Fernando Dias

O conceito do homo economicus é um postulado básico da teoria econômica clássica (liberal, neoliberal, neoclássica e etc.) que diz em linhas gerais que a razão psicológica essencial a toda a atividade humana é o interesse pessoal e isto define a única razão da atividade econômica, dado que o homem obedece apenas à razão. Mesmo sendo uma teoria comportamental bastante simplificada mesmo para os padrões do século XIX, quando foi proposta, ela ainda fornece o insight básico para estudar o comportamento econômico em todos os modelos propostos desde então.

Contrapondo o homo economicus no Brasil teríamos, no entanto, o homem cordial, que foi definido por Sergio Buarque de Holanda como aquele que age movido pela emoção no lugar da razão, que não vê distinção entre o privado e o público, e detesta formalidades. Na vida cotidiana uma expressão do homem cordial é que para ele é “normal” ignorar as leis em favor das amizades. Porém eles não são antagônicos, o homem cordial apenas estende sua racionalidade a divisão da coisa pública de forma e elevar sua satisfação/benefício pessoal.

Em que isto impacta a economia Nordestina? Em muita coisa. Atualmente o Nordeste vive um novo surto de crescimento econômico, algo que não ocorria desde a época da criação da SUDENE e, antes disso, desde o final do século XIX. Nós casos anteriores o crescimento não foi endógeno, e atualmente também não é. Nos casos anteriores foi efêmero, atualmente também poderá ser. Um dos fatores que pode contribuir para isso é que a presença do homo economicus cordial destrói a meritocracia, e sem ela não há espírito capitalista que resista.

Observando-se os motivos do atual crescimento do Nordeste fica evidente que direta e indiretamente o processo vem sendo induzido pelo setor público. Com exceção de parte do crédito concedido as famílias, boa parte do crescimento do consumo nas classes C e D se deve a gastos sociais e elevação da massa de salários no setor público. A quase totalidade dos investimentos estruturantes também está sendo feitos pelo setor público, e mesmo os grandes investimentos privados na Região são não apenas financiados pelo setor público (BNDES) como também tem as escolhas locacionais pautadas por benefícios fiscais.

Políticas regionais de crescimento são sempre bem vindas, principalmente no caso regiões pobres como é o caso do Nordeste. Mas em geral elas são voltadas para dar início a um processo de crescimento auto-sustentável, e não há no Nordeste qualquer indicação neste sentido. Basta olhar os indicadores de capital humano da Região, que só melhoram quantitativamente (ex. mais formandos), mas pioram qualitativamente (ex. menores notas dos formandos).

A experiência da SUDENE mostrou que o Estado não tem meios de carregar o crescimento regional nas costas indefinidamente, por melhores que sejam as intenções e por melhores que sejam os cenários. A economia, infelizmente, é cíclica, e os agentes racionais que nela se inserem estão sempre procurando melhores oportunidades. Não deixa de ser engraçado, contudo, que os atuais neo-desenvolvimentistas depositem suas esperanças de sucesso de longo prazo no espírito capitalista do homo economicus liberal, ignorando que ele não tem concepção regional e, para piorar, ainda por cima é cordial.

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