A construção do conhecimento estratégico
A construção do conhecimento, em
qualquer área que se queira desenvolver, requer alguns pré-requisitos que devam
primar não apenas por patamares plausíveis de serem atingidos, mas na tentativa
de evitar pura e simplesmente o ato de intuir. A possibilidade de brotarem
idéias detentoras de eqüidade e até de opulência criativa são vertentes
caudatárias da construção do conhecimento e aqui pode-se fazer uma ressalva. Do
conhecimento, pensamento e reflexão estratégica. Buzzi nos dá uma visão de como
ele percebe as idéias. Para ele “A infinidade de idéias dá conta da inesgotável
riqueza de nossas sensações. Todas as idéias promovem o encontro do pensamento
com os diversos aspectos do real”.
Em que pese a necessidade cada vez
maior de nos imbuir do processo de reflexão e desenvolvermos uma atividade
mental criativa, precisamos ter cuidado ao nos depararmos com a nossa verdade.
A verdade, quer mitológica, mítica ou o centro de nossos pensamentos
constitui-se, numa percepção de De Bono em “um dos perigos mais óbvios da
verdade é a arrogância. Quando você acredita estar de posse da verdade, pode
exercer o direito de oprimir outros que pensam de maneira diferente”.
O conhecimento erudito ou
adquirido por meio do dia-a-dia laboral e, através dele, a reflexão é composto
não apenas por conceitos, ainda que de pensadores que merecem toda
consideração, mas também por processos interface entre segmentos que merecem um
processo analítico. Dessa forma, poderíamos inferir que quatro elementos são
basilares para a espiral do conhecimento: a socialização, a externalização, a
internalização e a combinação.
Na socialização contemplaríamos o
compartilhar experiências, o treinamento prático (conhecido no meio acadêmico
com on the job), e o brainstorming (quer através da dialética ou da
fertilização cruzada). Em síntese, a socialização poderia ser resumida na
intenção e atuação de trabalhar cooperativamente com outras pessoas, de ser
parte da equipe. Aproximadamente dez anos passados, realizamos uma consultoria
num grupo denominado (hipoteticamente) de GAMA. Esse grupo estava diversificado
em 11 empresas. Era composto, entre outras, por supermercados, engenho de
arroz, revenda de automóveis, etc. O detalhe é que o proprietário evitava que
as dificuldades de uma das empresas fossem do conhecimento das demais e, assim,
sucessivamente. Antes de iniciarmos as ações estratégicas, como de hábito,
realizamos uma diagnose da cultura da empresa. Predominou, com 87% de
pontuação, uma cultura Diretiva (ou seja, absolutista). Após longas reuniões
com o Presidente e diretores, conseguimos clarificar para o Executivo-mor do
grupo GAMA da necessidade de uma comunicação mais intensa entre as diversas
empresas. Fomos enfáticos na prioridade da democratização (hoje o termo
socialização está mais em voga no Brasil) da informação sob pena, e aqui faço
uma analogia, de presenciarmos entre os funcionários um processo de felonia. A
partir de então, quinzenalmente, cada empresa dispunha de duas horas para numa
reunião com as demais empresas do grupo (deve-se ressaltar que integravam as
reuniões somente Diretores e Gerentes), compartilharem seus pontos fortes,
fracos, ameaças e oportunidades. A primeira hora era destinada à exposição e a
hora residual ficava disponível para comentários e sugestões dos demais
participantes. O resultado, já esperado por nós, foi que as empresas do Grupo
GAMA passaram a conhecer-se com mais profundidade. A perceberem que não se
constituíam numa “ilha isolada”, que muitas das dificuldades encontradas eram
similares e, mais ainda, que com a troca de idéias (o que denominamos de
Fertilização Cruzada segundo o Dr. Antonio Rubbo Müller) poderiam ajudar-se e
solucionar problemas. Um aspecto merecedor de atenção ocorreu quando os
diretores perceberam que estavam elaborando, indiretamente, o Planejamento
Estratégico não apenas de suas empresas, mas possibilitando que o Grupo GAMA
também o fizesse. Ao final, o imagético passou a ser uma constante no Grupo.
Na externalização, a qual pode ser
delineada por metáforas, por analogias (como quando definimos uma similitude
entre a cultura Neutra e a tragédias da Madame Buterfly). Um outro aspecto
merecedor de referência direciona-se ao diálogo ou reflexão coletiva.
Poderíamos simplificar que a externalização é uma das chaves para a criação do
conhecimento, mais precisamente, criar conceitos novos e explícitos a partir do
conhecimento tácito. Com relação ao diálogo e reflexão coletiva, tivemos
oportunidade de verificar que esses procedimentos, em muitas ocasiões foram
proativos no Grupo Extremo Sul. Esse Grupo, cujo presidente é o hoje Deputado
Federal Érico Ribeiro, tinha por costume todas as manhãs (diretores, assessores
e alguns gerentes) reunir-se de forma informal, aleatoriamente, na sala de um
dos diretores para um café descontraído. Ali se discutia de tudo, futebol,
anatomia feminina, crises mundiais etc... Porém, jamais numa dessas reuniões
diárias (e tivemos oportunidade de atuarmos no Extremo Sul por 5 anos), saiu-se
sem a solução para um problema. Independente de que empresa fosse (eram 23 que
integravam o Grupo naquela ocasião). Ou seja, ao natural, sem o ranço
acadêmico, praticávamos uma reflexão coletiva. Muitas das decisões de ponta do
Grupo foram ali postuladas. Quando, ocasionalmente, algum diretor ou assessor
começava a deblaterar, ainda que efêmero, logo em seguida os demais acalmavam
os ânimos daquele personagem. A exemplo do Grupo GAMA, essas reuniões ocorridas
no Grupo Extremo Sul, tem-nos servido de exemplo em sala de aula (Fundação
Getúlio Vargas) e em nossas conferências. Reiteramos que a reflexão coletiva
deve pautar por ser, inesgotavelmente, informal em toda a plenitude que o
vocábulo possa comportar.
Na internalização podemos
contemplar de forma eloqüente o Modelo Construtivista. Esta postura não
invalida os Modelos Condutista e Funcional. Ocorre que a vida íntima de cada
organização é que direcionará qual dos Modelos ajusta-se mais a sua condição
atual. Isto não se constitui, necessariamente, em fator excludente para que, no
futuro, a empresa possa optar por outra modelagem. No Modelo Construtivista, ou
seja, aprender fazendo (on the job), poderemos potencializar as capacidades
inerentes a cada empregado (colaborador, recursos humanos, talentos humanos,
empregados, seja lá a denominação que for). Através desse mecanismo, a empresa
viabiliza a criação do conhecimento organizacional. Ou, sendo mais pragmático,
essa criação do conhecimento organizacional comportando em si mesma a
capacidade de identificar problemas, presentes ou futuros, obstáculos e
oportunidades. E, em assim sendo, compreender a essência do binômio já
comentado anteriormente da percepção x prospecção.
Todavia, impõe-se explicitar, que
a internalização, necessária e imprescindível, jamais deve se constituir num
fim em si mesma. Indubitavelmente, a empresa deverá pautar por duas situações
primordiais:
a) conhecer-se a si mesma. E esta
colocação, como a máquina do tempo, conduz-me a um passado alegre e
descontraído. Por ocasião das aulas de História do Silvininho (Dr. Silvino Joaquim
Lopes Neto – Colégio Gonzaga) que, ao falar-nos sobre Mitologia, salientava que
no frontispício do Oráculo de Delphus estava escrito CONHECE-TE A TI MESMO.
Sabe-se, modernamente em Estratégia, que a prioridade das organizações é
detectar seus pontos fortes e seus pontos fracos. Isto é, conhecer-se a si
mesmo em primeiro plano. A explicação é lógica. Ao conhecer os Pontos Fracos, a
empresa envidará seus esforços no sentido de depurá-los. Como conseqüência, ao
depurá-los, diminuirá suas fraquezas e, simultaneamente, amenizará o impacto
das ameaças externas. Ato contínuo potencializará seus Pontos Fortes. Reitero
que a lógica do raciocínio centra-se que pontencializando seus Pontos Fortes
poderá acabar de vez com as Ameaças. Mais ainda, terá condições de efetuar um
efeito sinérgico nas Oportunidades que a ambiência externa está oferecendo. Em
síntese: a internalização, o conhecer-se a si mesma, simboliza o cerne da
empresa.
b) Facilitar a comunicação. Ao
longo de minha vida profissional tive oportunidade de realizar 77 consultorias.
Duas situações foram traumáticas: a avidez do empresário em querer implantar de
imediato O Plano de Ação Estratégico, sem antes efetivar uma coleta de
informações adequada e a comunicação interna inadequada. A comunicação distorcida
foi responsável pelo insucesso de implantação de aproximadamente 54% das
empresas que trabalhamos como consultores. Reside aqui um ponto nevrálgico. Ou
o consultor impõe uma dinâmica sistemática de fluir as informações ou, e isto,
às vezes é lamentável, não realiza sua consultoria. Ou o empresário confia na
capacidade do consultor ou, que com sua equipe, desenvolva seus projetos. A
comunicação, além de repousário de incertezas poderá ser caudatária do embrião
de criar organizações informais antagônicas às organizações formais.
Na combinação encontraremos a
forma de raciocinar de maneira interpolativa entre o conceitual e o analítico
desprovido de paradigmas. Nesse sentido, poderemos deduzir que o academicismo
deixará de ser um fator primordial no contexto da combinação. Tal raciocínio
nos conduz aos cursos de MBA, seja lá em que país for, como espiral do
conhecimento desprovido do ranço acadêmico. Mas centrado, principalmente, nas
experiências interativas entre professores e alunos e entre os próprios alunos.
Em Santo André, num dos conveniados da Fundação Getúlio Vargas, a STRONG,
tivemos oportunidade de encontrar numa prova da aluna Rita de Cássia Burkart
(turma ABC/GE 28) uma frase que nos fez pensar e analisar mais detidamente: “A
especialização abre caminhos para o aprimoramento, a inovação e o refinamento
de idéias e conceitos”.
Ora, despertou-nos atenção a
colocação “refinamento de idéias e conceitos”. Reside, aqui, com toda a
intensidade possível, que o vocábulo possa contemplar um dos pontos cruciais da
reflexão e do pensamento estratégico e, conseqüentemente, da administração.
Justamente a falta de trabalhar-se com conceitos. Observamos na vida acadêmica,
e mesmo na de consultoria, que as pessoas não estão preocupadas com os
conceitos. Querem ir direto à ação propriamente dita. Mais tarde, como
robotizados, ficam inseguros quanto ao rumo a seguir. O refinamento das idéias
e os conceitos são precedentes de qualquer modelagem que se queira implantar
numa organização.
Fonte
SILVEIRA, Clóvis Massaúd da. A construção do conhecimento estratégico.
Disponível em: <http://www.clovis.massaud.nom.br/artigos20.htm>.
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