O Impacto da Seca no PIB do RN em 2012 - Desfazendo Mitos
Nos últimos tempos eu ando tentando fugir de polêmicas no meu blog. Mas
dessa vez eu confesso que não consegui pois o assunto passou a me
incomodar muito. Já disse várias vezes no twitter (@aldemnirrn) o que
agora vou dizer aqui: as estimativas de impacto da seca no PIB do RN em
2012 são infinitamente menores do que aquelas anunciadas pelo governo do
estado.
A gota d´água da minha paciência foi a matéria publicada ontem em um
grande jornal de circulação nacional, o Valor Econômico (o principal
jornal de economia do país), onde o secretário de agricultura do RN diz
que as perdas esse ano com os efeitos da seca serão da ordem de R$ 5,5
BILHÕES. (veja aqui).
Não sei como ele chegou a esse número, mas o jornal afirma que "No
Rio Grande do Norte, que tem 139 municípios em situação de emergência, a
projeção é de um rombo de cerca de R$ 5,5 bilhões no PIB do Estado em
2012, informa o secretário estadual de Agricultura, Betinho Rosado. "A
produção in natura, que foi seriamente prejudicada, representa 6% do
nosso PIB, que é de R$ 25 bilhões. Agora, se considerado o
beneficiamento desses produtos, como no caso do queijo, do iogurte e do
álcool, a fatia passa para 35%", explicou."
Vamos agora explicar porque não há a menor possibilidade das perdas com a seca alcançarem essa cifra de R$ 5,5 bilhões.
Em primeiro
lugar vamos tentar estimar o PIB do RN em 2012 considerando que o mesmo
fosse um ano normal. Vamos estimar também o PIB da agropecuária do
estado esse ano e o PIB da nossa indústria de transformação.
Para essa
estimativa eu utilizei os seguintes parâmetros: 1) o PIB do Brasil este
ano ficará em torno de R$ 4,2 trilhões à preço de mercado; 2) seguindo a
média dos últimos anos o PIB do RN será equivalente a 0,9% do PIB
brasileiro; 3) seguindo a média dos últimos anos o peso da agricultura
no PIB do RN será de 5,4%; 4) seguindo a média dos últimos anos o peso
da indústria de transformação no PIB do RN será de 7,32%. (Tudo a preços
de mercado).
O resultado do uso desses parâmetros está mostrado na tabela abaixo.

Por essa tabela podemos ver claramente porque as perdas não podem chegar a R$ 5,5 bilhões. Se
a seca tivesse produzido uma perda completa de TODA produção agrícola
do estado e de TODA produção da nossa indústria de transformação, o
volume total perdido seria de aproximadamente R$ 4,8 bilhões.
Ora, mas o mais
importante é que a seca NÃO afetou 100% da nossa produção agrícola e
nem 100% da nossa produção industrial. Pensem em atividades como
indústria têxtil e de confecções, ceramistas, cimento, cerveja,
refrigerantes, calçados, padarias, torrefação e moagem de café, farinha
de trigo, produto químicos... nada disso é afetado pela seca.
Pensem também
na produção de melão, melancia, banana, manga, mamão e parte da produção
de abacaxi. Essas são culturas irrigadas e não sofrerão efeitos da
seca. A cana também não será fortemente afetada (a produção poderá até
cair, mas não será significativa, pois a região leste do estado não está
tendo uma seca tão acentuada quanto o interior). Acompanhando a cana a
indústria de açúcar e álcool também não será arrasada a zero de
produção.
Quem será
fortemente afetada pela seca são as culturas de sequeiro: arroz, feijão,
milho, algodão, castanha de caju e mandioca (para essa duas últimas
culturas ainda não há estimativa do tamanho da perda). A produção de
leite também será afetada e com ela a indústria de laticínios.
O nó da questão
é que essas atividades tem pouco peso no PIB do estado. Ou alguém
imagina que aquelas queijeiras informais tem um peso relevante na
produção da riqueza estadual?
Abaixo eu
apresento uma primeira aproximação do tamanho da perda. Estou levando em
consideração apenas a produção agrícola afetada pela seca e a produção
de leite (as perdas com castanha e mandiocas são um chute meu, não há
nada que indique que será assim, utilizei como parâmetros as perdas de
2010).
Pois bem, o
valor a que cheguei foi algo próximo da R$ 250 milhões de perdas
diretas. Agora vamos pegar os efeitos indiretos e, exagerando muito,
multiplicar o número que encontrei por 4. Teremos com isso, no máximo,
uma perda de R$ 1 bilhão. Porém, nem mesmo esse número eu ache que
esteja correto. Acho que não passará dos R$ 750 milhões. Algo como 2% do
PIB estadual.

Não estou
querendo com isso diminuir a tragédia social que é o fenômeno da seca.
Mas do ponto de vista econômico e de impacto dela no PIB estadual sua
importância é muito restrita. Não acho correto uma estimativa baseada
em chutes sem um mínimo de embasamento na realidade.
Postado por
Aldemir Freire
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