A fissura entre o dizer e o fazer permeia toda a sociedade
moderna: presente na família, na escola, na política, nas organizações. Ninguém
escapa dela e, todavia, por ser sutil, também ninguém reflete sobre ela. Este
capítulo - como parte de um todo que se propõe a levantar questões essenciais
no plano da responsabilidade social das organizações - tem exatamente o
propósito de discutir este auto-engano, à primeira vista superficial, mas, de
fato, revelador de uma das engrenagens básicas de nossa cultura.
Dou exemplos: o conhecido “faz-de-conta”, que talvez seja
uma das mais significativas, embora não assumida, instituições da sociedade
moderna. As escolas fazem de conta que dão cursos relevantes, os alunos, com o reforço
de seus familiares e da sociedade em geral, fazem de conta que fizeram cursos
relevantes em escolas relevantes; os funcionários fazem de conta que estão
trabalhando a serviço dos clientes mesmo que os processos e instrumentos de
trabalho que estejam usando dêem ênfase à performance da empresa. Todo mundo
hoje em dia parece fazer de conta: eu faço de conta que trabalho, você faz de
conta que me paga, eu faço de conta que atendo o meu cliente, o cliente faz de
conta que é atendido. E assim por diante. Quando, por ventura, alguém não quer
mais brincar de fazer de conta, há uma espécie de curto-circuito do sistema - e
sua irracionalidade vem à tona.
Lembro-me, a propósito, de uma conversa recente que tive com
um amigo: ele estava almoçando com as suas duas filhas, em um dia qualquer da
semana, quando uma delas perguntou se poderia começar as férias letivas mais
cedo “porque as provas já acabaram, eu já passei de ano, os professores não vão
dar mais matéria e eu quase não tenho faltas; nada vai acontecer se eu não for
mais às aulas”. Esse meu amigo devolveu a pergunta com outra pergunta: “Mas
filha... você está indo à escola para passar de ano ou para aprender coisas que
você possa usar na sua vida, que possam lhe ajudar mais tarde a expressar a sua
natureza?” Uma bela pergunta, convenhamos; mas pouco usual nos dias de hoje.
Alguns dias depois, novamente almoçando, a filha desse meu amigo comenta: “Hoje
não teve aula; os professores dispensaram a turma porque a matéria já tinha
acabado. Ficamos à toa... enquanto os professores corrigiam provas no horário
de aula”. As aulas, portanto, acabaram uma semana antes, ainda que as crianças
continuassem a ir à escola... fazendo de conta que estudavam. No retorno das
férias das filhas, outra surpresa aguardava o meu pobre amigo: não houve várias
aulas e não se deu matéria alguma durante aquela semana porque... bem, porque
era a primeira semana de volta às aulas. É esse o espírito da coisa; os
exemplos poderiam ser multiplicados ao infinito.
Outra instituição moderna, também não assumida, que aponta a
fissura entre o dizer e o fazer, é o que chamo de “área de foco”: a sociedade
moderna, cada vez mais especializada, concentra-nos numa parte minúscula do
fazer em qualquer organização e, todavia, somos convidados a falar em nome do
Todo. “Posso ajudá-lo?”, “May I help you?” Sim, desde que o que você me peça
não fuja das minhas atribuições. Se fugir, você deve procurar o gerente.
Gerente, nesses casos, é para isso, para resolver as exceções à melhor
conveniência organizacional. Em outro plano, porém, a área de foco tem uma
implicação ainda maior: a fragmentação do propósito da organização. Em outras
palavras, quando o foco é estreito não é possível saber se a ação empreendida
favorece ou não o propósito do conjunto. Sustento que há especializações nas
empresas que nem sempre trabalham em favor das metas do negócio.
Toda essa introdução apenas para dizer que há códigos
implícitos, não refletidos, não verbalizados e inconscientemente assumidos nas
organizações e que vale a pena trazê-los à tona e lidar um pouco com eles.
Quando por qualquer motivo alguém resiste a esses códigos
implícitos, quando alguém sai fora do padrão esperado, surge a possibilidade de
reflexão: alguma consciência a respeito da fissura entre o dizer e o fazer pode
vir à tona como um problema a ser mais bem equacionado. Em geral, porém, as
pessoas aderem a tais códigos implícitos sem nenhuma reflexão, sem nenhuma
resistência, mesmo porque são inconscientes. Elas dizem A e fazem B: todo mundo
“faz de conta” porque as pessoas não têm consciência, não têm clareza dessa
fissura entre a sua fala e a sua ação.
Por que esse problema se põe com tanta volúpia em todas as
esferas do social? Talvez porque a velocidade seja uma das marcas mais
características das sociedades modernas. O mundo, as relações, os papéis
transformam-se incessantemente; o tempo reflexivo necessário para que tais
transformações possam ser assimiladas e assumidas conscientemente é quase
nenhum. O jeito é aderir ao “politicamente correto”: os pais sabem que é
politicamente correto dialogar com os filhos e dizem que assim agem - embora
não raro contratem detetives para saber se os seus filhos estão se envolvendo
com drogados, desconfiem e rebusquem as suas gavetas. O professor
sindicalizado, atuante e com grande consciência de cidadania sabe que é
politicamente correto dialogar com os seus alunos e afirma que assim age;
comumente, porém, notas e controle da presença continuam a ser instrumentos
eficazes para calar qualquer senão. O político sabe que é politicamente correto
agir em nome da ética; a corrupção, entretanto, nunca foi tão expressiva e tão
declarada. Mesmo diante de fortes evidências, sempre prevalecem os mecanismos
de proteção social erigidos para os que parecem mas não são.
Enfim, a fissura entre o dizer e o fazer, que não faz senão
alargar-se perigosamente, explica-se em parte se considerarmos as
transformações alucinantes – inclusive no plano das emoções – pelas quais a
sociedade está passando. Elas são de toda a ordem, explicitando-se particularmente
no plano da política com a ampliação de direitos e de práticas democráticas que
impõem determinadas falas e condutas e, todavia, o sujeito é ainda o velho
sujeito que reage emocionalmente à “maneira antiga” quando as questões são mais
concretas e a ele diretamente relacionadas.
E já que mencionamos isso, vamos pensar um pouco sobre esse
processo democrático no nível das organizações. Há duas ou três décadas, a
questão da participação democrática passou a rondar o ambiente organizacional
e, gradualmente, uma infra-estrutura que a viabilizasse foi sendo construída.
Isso se impôs por vários motivos e um deles parece banal: o controle das
pessoas através de feitores, supervisores, chefes, gerentes, diretores e
vice-presidentes estava caro demais para suportar uma concorrência que cada vez
mais se fazia sentir no mercado. No lugar dessa estrutura de controle
dispendiosa, foram gradualmente entrando no ambiente organizacional diferentes
práticas democráticas. Talvez a que tenha ganho mais notoriedade seja a que
ficou conhecida como gerência participativa. Mas, para que pudesse haver
democracia de fato num ambiente tradicionalmente controlador – e uma democracia
traduzida por liberdade de atuação e agilidade –, era necessário construir um
eixo central em torno do qual as pessoas se pusessem de acordo e cumprissem a
sua parte nos objetivos da organização. Surgiram, então, as definições de
missão e os “códigos de conduta”: em outras palavras, a direção, os valores e
os princípios que deveriam ser assumidos por todos. Doravante, as pessoas
trabalhariam em torno dessas definições e desses códigos de conduta, que
passariam a se constituir, com “ares mais democráticos”, nos novos instrumentos
de controle.
Todos parecem concordar hoje, nas organizações, que as
gestões são bem mais participativas; muitos parecem concordar que as relações
são bastante democráticas e que há espaço para criar, inovar, enfim, para se
expressar. Mas, será que essa é toda a verdade? Se tomarmos a inovação como
referência, ela não conhece fronteiras, se traduz em verdadeiras explosões de
possibilidades, se refere a uma re-invenção, à criação permanente de novas
realidades. Será que já percebemos que qualquer organização é um sistema vivo
em permanente transformação e que esse sistema vivo se dá na complexidade da
sua rede de relações? E que é exatamente isso que legitima a inovação? Ou a
proposta de inovação nas empresas ainda é um faz-de-conta com aspirações de ser
para valer algum dia?
Não basta então a definição da missão e do código de
conduta. Isso é muito pouco, tanto para as expectativas das pessoas como para
as expectativas das empresas. É preciso desenvolver ainda uma postura de
acolhimento para novas possibilidades criativas; é preciso que nós, as pessoas,
possamos re-inventar permanentemente o nosso trabalho, construir a trajetória
do que nos propomos a realizar juntos, amadurecer um sentido de
responsabilidade para com o outro e para com o coletivo. Esse, de fato, é o
ambiente que interessa a todos.
Diálogo e alteridade
O fetiche das palavras é algo muito mais poderoso do que
imaginamos. Falamos de participação, democracia, liberdade, criatividade nas
organizações e, passo seguinte, acreditamos que o mundo se cria pela palavra.
Ora, a palavra é um signo arbitrário, mas que pode ser muito sedutor e, ao
seduzir, seduz não só ao outro que me ouve; pior, seduz a mim mesmo, que falo.
Vivemos ainda o mito bíblico: Deus criou o mundo por meio da palavra; nós
agimos da mesma forma: acreditamos que o mundo se cria pela palavra. Esse é um
dos lados da moeda: a palavra como instrumento de alienação, como fetichização
do mundo.
Mas há também o lado redentor da palavra. O diálogo pode se
tornar o fator revolucionário de toda e qualquer organização social. Talvez,
exatamente por isto, o diálogo é tão difícil, tão absolutamente raro. O diálogo
é uma arte, infelizmente limitada a círculos restritos da sociedade. Isso é
muito curioso porque a sociedade moderna tagarela intensamente. Mas tagarelar
não é dialogar. Em geral, as pessoas falam de coisas absolutamente acidentais e
exteriores; quem fornece os temas de discussão são os meios de comunicação, o
maquinário com o qual trabalho ou o manual de instruções do novo Windows 2001!
Ou melhor, o problema não é propriamente o tema da conversa, mas o quanto estou
dissociado daquilo que falo: o ser profissional dissociado do ser social,
dissociado das emoções, das experiências e por aí vai. A tarefa, como diz
Enrique Pichon-Rivière, é fundamental. Em torno dela o diálogo deve girar. O
diálogo exige requinte e, dificuldade suprema para uma cultura narcisista,
capacidade de apreender o outro como outro. Na ausência disso – o que é o mais
comum – o diálogo produz tensões, conflitos. Dialogar é conviver com o
conflito, geri-lo, e não, como é usual, reprimi-lo, paralisá-lo, escondê-lo. Os
grupos operativos, nascidos na Universidade e respondendo às necessidades
interdisciplinares, proposto por Pichon-Rivière, rapidamente ganharam as
escolas, os hospitais psiquiátricos; com vagar ganham também as organizações produtivas.
Há, portanto, um instrumento psicológico – os grupos operativos – dotado de
flexibilidade, capaz de adaptar-se a vários níveis das exigências
institucionais que pode ser o “vaso alquímico” capaz de conter os conflitos e
tensões que o diálogo necessariamente produz. Além dos grupos operativos, há
inúmeras outras modalidades de facilitação psicológica que podem ser úteis às
instituições, inclusive empresas, especialmente quando face a processos de
consultorias organizacionais, planejamento estratégico ou outras situações,
que, justamente por imporem a necessidade de intenso diálogo, são geradoras de
tensão.
Vou dar um exemplo muito freqüente do diálogo – ou da
ausência dele – no processo terapêutico. Aliás, aprendi a valorizar o diálogo e
ver nele uma potencialidade revolucionária como psicoterapeuta. No processo
terapêutico o diálogo é peculiar e, todavia, acredito que tenha aí o seu
paradigma. Tão velho quanto a dialética socrática, o diálogo terapêutico
re-inaugura uma prática esquecida. Não raro, uma criança adoece porque a
família também está doente. Uma das práticas terapêuticas comuns nesses casos é
pedir para a família conversar durante 15 minutos semanalmente. O diálogo que
no início se limita à expressão do desejo de cada um, pode demorar meses para
se tornar uma prática durante 15 minutos por semana! Simplesmente as pessoas
não têm o hábito de se ouvirem e, coisa mais rara ainda, de responderem àquilo
que foi perguntado. Hoje, temos monólogos; as pessoas moram juntas por anos a
fio na mais radical solidão.
A fissura entre o dizer e o fazer, através do diálogo
poderia ganhar outras dimensões, porque se o diálogo efetivamente se
estabelece, acontece um fenômeno revolucionário: começamos a perceber o outro
como outro, as máscaras sociais caem, a verdade pontual a respeito de um
problema, pouco a pouco, aparece. Para os românticos (Jean-Jacques Rousseau,
Carl Gustav Jung) o social, a natureza, o mundo é coberto de véus. Projetamos
nos outros, todos os outros, os nossos processos inconscientes, nossas
fantasias, nossos jogos imaginativos. A tendência é que o outro seja extensão
desses jogos; oculto pela minhas fantasias, ele é incapaz de se revelar como
alteridade. Por isso, o monólogo é a tônica: falamos e encontramos a nós mesmos
sob mil disfarces. Ora, o diálogo desarma exatamente isto. Quando me dirijo ao
Sr. Fulano coberto por meus véus, o Sr. Fulano pode me dizer: “Alto lá, eu sou
diferente do que você afirma que eu sou” ou “Esse Sr. Fulano só existe na sua
imaginação”. Se eu puder escutá-lo e aprender com a situação, serei capaz de
estabelecer uma relação mais autêntica, mais verdadeira. A revolução, no meu
entender, é dialógica e pontual. Não há remédio-macro que dê conta da nossa
realidade social. Se nos voltarmos, porém, para o micro, o pontual, o pequeno,
o sutil – na família, na escola, nas organizações em geral – será possível
obter importantes resultados, pois quando de fato há diálogo, as pessoas
tornam-se criativas porque colocam sobre a mesa quem elas realmente são (seus
sentimentos, seus desejos, suas capacidades de realização, suas necessidades de
expressão). Na ausência do diálogo autêntico, as pessoas são artificiais,
vivenciam papéis estereotipados, repetitivos, absolutamente não criativos.
Vivenciam profunda solidão, sentem-se despersonalizadas e massacradas por um
mecanismo gigantesco onde cada uma é peça intercambiável. Para criar é preciso
abrir passagem para o deus Eros, o deus do amor, da junção, da união, da
multiplicação. É preciso abrir passagem para a idéia de que cada um de nós é
insubstituível e, quero enfatizar: cada um é insubstituível tanto nas
organizações, sejam elas quais forem, como na vida. Pense por um momento,
leitor, como uma empresa seria outra realidade simplesmente adotando como
paradigma o fato de que ninguém é substituível. Pense como seria a organização
sem a visão mecanicista de mundo na qual somos todos assemelhados a peças que
podem ser substituídas por outras sem afetar o funcionamento do maquinário.
Pense como seria considerar que as relações que integramos jamais seriam as
mesmas sem que as integrássemos.
Pense, leitor, em como você é bem mais do que uma peça
amorfa para que assim seja considerado.
Esta proposta que estou fazendo de aprender a dialogar – e
de exercer o diálogo – é muito simples. Não implica custos que não possam ser
absorvidos, e pode vir a se tornar uma prática realmente transformadora das
relações, em direção àquilo que todos almejamos: a sua autenticidade. Quando
nos abrimos para o diálogo, quando fazemos esse gesto supremo, passamos a ter
outra referência de nós mesmos e do outro, passamos a sentir a dor, o
sofrimento e a solidão do outro. Tornei-me psicoterapeuta exatamente porque
precisava começar a conversar de uma nova forma. Fui professora por mais de 20
anos, na UNICAMP, e lá vivenciei o que chamo de “solidão coletiva”: transmitir
conhecimento para classes de mais de 50 alunos não pressupõe diálogo; nessa
forma de ensino nem perguntas cabem, pois atrapalham um cronograma exigente,
burocrático e imposto de fora. As universidades tornaram-se os mais perniciosos
reprodutores dessa solidão e alienação; lá as pessoas são amargas, pouco
receptivas, competitivas. No lugar de Eros, Tanatos: desunião, separação,
enfraquecimento, morte.
As máscaras sociais
Outra fissura importante da sociedade moderna se dá entre o
fazer e o ser. O ser e o fazer dissociados. O dizer e o fazer dissociados.
Todas essas dissociações fundam-se a partir da fissura entre o ser e o parecer.
Jean-Jacques Rousseau teceu essa argumentação no Discurso sobre a origem e os
fundamentos da desigualdade entre os homens, no início da segunda metade do
século XVIII. É essa fissura entre o ser e o parecer que permitiu ao filósofo
um olhar crítico sobre a modernidade no seu alvorecer. Explicando um pouco: se
tivermos como referência as sociedades tradicionais e a própria cultura
ocidental até o início da modernidade, percebemos que as pessoas tinham lugares
muito definidos na “cadeia do Ser”; o que elas deveriam fazer e, inclusive,
falar, estava dado. A fissura entre o que eu sou e o que aparento ser
simplesmente não se punha, não tinha sentido e, com ela, também não tinha
sentido a fissura entre o dizer e o fazer e a fissura entre o ser e o fazer.
Essa fissura, no entender de Rousseau, só fez alargar-se. Talvez tenhamos chegado
ao seu ponto culminante, pois aquilo que somos -quando sabemos quem somos-
escondemos, diminuímos, espezinhamos; só é permitida a emergência do aparecer,
das máscaras, daquilo que Jung chama de persona. As máscaras nos permitem
realizar no social um pequeno fragmento do nosso ser - o restante permanece
atrofiado, reprimido e, muitas vezes, como o sangrento século XX provou, pronto
a emergir de forma sombria, projetada nos “bodes expiatórios” sociais. Sem
caminhos, os “melancólicos da cultura” sabem que perderam algo: partes
importantes do ser; mas não sabem nomear o que perderam. Como seres errantes,
passam a identificar-se com suas máscaras sociais. O parecer agiganta-se, o ser
atrofia-se. O homem confunde-se com o papel social que realiza, com os penduricalhos
sociais (títulos, cargos etc.) que as organizações lhe permitem ter,
tornando-se cada vez mais frágil, inseguro, instável. Obviamente não há
possibilidade de uma sociedade saudável com um abismo tão grande entre o ser e
o parecer, entre o dizer e o fazer, entre o ser e o fazer. É preciso que haja
uma nova recomposição do ser. O diálogo, de novo, poderia ser o elemento
fundamental de recomposição do ser dissociado de si mesmo.
A pitié e a re-descoberta do outro
Para Rousseau, o “homem natural” é dotado de duas paixões: o
amor de si e a pitié (a compaixão). O amor de si é o cuidado consigo mesmo e
tudo aquilo que garante a sobrevivência do homem; a pitié é uma paixão que nos
transporta para o outro, todos os outros, pois através dela nos é impossível
ficar indiferentes diante daquele que sofre. A pitié tempera o amor de si,
impedindo que se transforme em amor-próprio, que, para o filósofo, é uma paixão
social que transforma o homem num ser egoísta, voltado para os seus interesses
pessoais. Ora, o processo civilizatório enfraqueceu sobremaneira a pitié:
convivemos com a miséria, a iniqüidade, a desigualdade social extrema, a morte
e a destruição e permanecemos completamente indiferentes. O outro na sociedade
moderna deixou de nos fazer apelos. A pitié enfraqueceu-se e, com isso,
agigantou-se o amor-próprio: o egoísmo extremado do homem moderno, o furor pelo
mundo do aparecer, das imagens, dos simulacros, das máscaras. O “mundo do ter”
substituiu o “mundo do ser”, como tão bem apontou Erich Fromm. Com o
enfraquecimento da pitié só resta o “mundo do eu”, a fúria do eu que só cuida
dos seus interesses e é incapaz de alcançar o outro. O eu identifica-se com os
interesses e os valores dados pelo imaginário coletivo. Queremos aquilo que o
“imaginário coletivo” afirma ser bom e belo. O que Rousseau chama de “estima
pública” pauta nossos pensamentos, nossos valores, nossa moral e, até mesmo,
nossas emoções. Evidentemente, a identificação entre cada um de nós e o
“imaginário coletivo” varia; na modernidade, todavia, a identificação é tão
intensa que indivíduos que preservam ou conquistam a sua singularidade
tornaram-se heróicos. Entre seres coletivos, é bom que se frise, não há
diálogo, mas tagarelice. Para Rousseau, a renovação social e mesmo cultural só
seria possível com o re-florescimento da pitié, da compaixão. Com o renascer
dessa paixão natural, o outro, todos os outros seres -a própria natureza-
passariam a fazer apelos, doravante perceptíveis. O outro deixaria de ser
indiferente para o eu. É esse despertar do outro em cada um de nós que dará
base ao diálogo.
Não há formulas, não há receitas para esse despertar. Cá e
lá, se tivermos ouvidos para esse som, perceberemos falas indizíveis daqueles
que estão tentando “furar o cerco” desse tecido espesso que é o “imaginário
coletivo”. Se, de perto, pudermos acolher essas falas, ouvir esses sons, será
possível facilitar o caminho desses novos buscadores. Na grande maioria dos
casos tal busca começa independentemente da vontade das pessoas; não raro a
busca começa contra a vontade do ego que, como órgão de adaptação da realidade
interna e externa, vê com muita má vontade o despertar da singularidade. Como
afirma Jung, a natureza é extremamente conservadora, a libido (a energia
psíquica) quer percorrer os caminhos desde sempre trilhados, quer repetir o
mesmo. Se tal busca da singularidade se impõe, se o processo não pára, tal se
dá, como diziam os alquimistas, “contra a natureza” – e não em favor dela! O
bonito é que quando esse processo começa não tem mais fim; puxa-se o fio de uma
meada que nos leva ao infinito de nós mesmos. Toma-se gosto por essa estranha
aventura que é o encontro consigo mesmo, com seus obstáculos, sutis pontos de
apoio, guerras titânicas não audíveis, não visíveis, impensáveis. A
cumplicidade no encontro com o outro que também busca e que reconhece o eco de
suas palavras é prazeroso e dotado de tal sutileza que encanta.
Talvez o momento seja propício para esta tomada de
consciência em favor do singular. Eis que habitamos um mundo contraditório e
uma época tensa: ao mesmo tempo que vivemos a alienação, o fetichismo das
palavras, a especialização, a unilateralidade, a banalização da democracia,
temos também a oportunidade de viver a pluralidade, a emergência de novas
possibilidades, a re-invenção do mundo, o diálogo, a singularidade. Em nenhum
outro momento histórico tal tensão seria suportável ou imaginável. Nós temos
postos os dois lados da balança: de um lado a unilateralidade, o coletivo
massacrante e, de outro lado, crescente busca da singularidade, da
criatividade. Se a crítica da modernidade é pertinente, não podemos nos
esquecer que a modernidade e a democracia são as parteiras dessa incrível
novidade: a “produção” de indivíduos singulares.
E, todavia, há “perigo no ar”: catástrofes naturais
produzidas pelo desequilíbrio ecológico; catástrofes sociais e políticas
produzidas pelo desequilíbrio da alma; catástrofes que podem ser produzidas
pela própria ciência quando esta separa-se da ética. É responsabilidade de cada
um de nós, mas também das Instituições, mudar a direção da seta: da catástrofe
para a esperança de um mundo que re-conhece e venera Eros. Agir no pequeno, no
pontual, permite a todos exercer-se aqui e agora ancorados no diálogo e no
coração: não existe arma mais eficaz do que trazer à tona o outro e a si mesmo.
Fonte
MARONI,
Amnéris. A divergência entre o discurso e
a prática. Disponível em:
<http://www.rubedo.psc.br/artigosb/divergen.htm>.
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