sábado, 2 de junho de 2012

A divergência entre o discurso e a prática


A fissura entre o dizer e o fazer permeia toda a sociedade moderna: presente na família, na escola, na política, nas organizações. Ninguém escapa dela e, todavia, por ser sutil, também ninguém reflete sobre ela. Este capítulo - como parte de um todo que se propõe a levantar questões essenciais no plano da responsabilidade social das organizações - tem exatamente o propósito de discutir este auto-engano, à primeira vista superficial, mas, de fato, revelador de uma das engrenagens básicas de nossa cultura.

Dou exemplos: o conhecido “faz-de-conta”, que talvez seja uma das mais significativas, embora não assumida, instituições da sociedade moderna. As escolas fazem de conta que dão cursos relevantes, os alunos, com o reforço de seus familiares e da sociedade em geral, fazem de conta que fizeram cursos relevantes em escolas relevantes; os funcionários fazem de conta que estão trabalhando a serviço dos clientes mesmo que os processos e instrumentos de trabalho que estejam usando dêem ênfase à performance da empresa. Todo mundo hoje em dia parece fazer de conta: eu faço de conta que trabalho, você faz de conta que me paga, eu faço de conta que atendo o meu cliente, o cliente faz de conta que é atendido. E assim por diante. Quando, por ventura, alguém não quer mais brincar de fazer de conta, há uma espécie de curto-circuito do sistema - e sua irracionalidade vem à tona.

Lembro-me, a propósito, de uma conversa recente que tive com um amigo: ele estava almoçando com as suas duas filhas, em um dia qualquer da semana, quando uma delas perguntou se poderia começar as férias letivas mais cedo “porque as provas já acabaram, eu já passei de ano, os professores não vão dar mais matéria e eu quase não tenho faltas; nada vai acontecer se eu não for mais às aulas”. Esse meu amigo devolveu a pergunta com outra pergunta: “Mas filha... você está indo à escola para passar de ano ou para aprender coisas que você possa usar na sua vida, que possam lhe ajudar mais tarde a expressar a sua natureza?” Uma bela pergunta, convenhamos; mas pouco usual nos dias de hoje. Alguns dias depois, novamente almoçando, a filha desse meu amigo comenta: “Hoje não teve aula; os professores dispensaram a turma porque a matéria já tinha acabado. Ficamos à toa... enquanto os professores corrigiam provas no horário de aula”. As aulas, portanto, acabaram uma semana antes, ainda que as crianças continuassem a ir à escola... fazendo de conta que estudavam. No retorno das férias das filhas, outra surpresa aguardava o meu pobre amigo: não houve várias aulas e não se deu matéria alguma durante aquela semana porque... bem, porque era a primeira semana de volta às aulas. É esse o espírito da coisa; os exemplos poderiam ser multiplicados ao infinito.

Outra instituição moderna, também não assumida, que aponta a fissura entre o dizer e o fazer, é o que chamo de “área de foco”: a sociedade moderna, cada vez mais especializada, concentra-nos numa parte minúscula do fazer em qualquer organização e, todavia, somos convidados a falar em nome do Todo. “Posso ajudá-lo?”, “May I help you?” Sim, desde que o que você me peça não fuja das minhas atribuições. Se fugir, você deve procurar o gerente. Gerente, nesses casos, é para isso, para resolver as exceções à melhor conveniência organizacional. Em outro plano, porém, a área de foco tem uma implicação ainda maior: a fragmentação do propósito da organização. Em outras palavras, quando o foco é estreito não é possível saber se a ação empreendida favorece ou não o propósito do conjunto. Sustento que há especializações nas empresas que nem sempre trabalham em favor das metas do negócio.

Toda essa introdução apenas para dizer que há códigos implícitos, não refletidos, não verbalizados e inconscientemente assumidos nas organizações e que vale a pena trazê-los à tona e lidar um pouco com eles.

Quando por qualquer motivo alguém resiste a esses códigos implícitos, quando alguém sai fora do padrão esperado, surge a possibilidade de reflexão: alguma consciência a respeito da fissura entre o dizer e o fazer pode vir à tona como um problema a ser mais bem equacionado. Em geral, porém, as pessoas aderem a tais códigos implícitos sem nenhuma reflexão, sem nenhuma resistência, mesmo porque são inconscientes. Elas dizem A e fazem B: todo mundo “faz de conta” porque as pessoas não têm consciência, não têm clareza dessa fissura entre a sua fala e a sua ação.

Por que esse problema se põe com tanta volúpia em todas as esferas do social? Talvez porque a velocidade seja uma das marcas mais características das sociedades modernas. O mundo, as relações, os papéis transformam-se incessantemente; o tempo reflexivo necessário para que tais transformações possam ser assimiladas e assumidas conscientemente é quase nenhum. O jeito é aderir ao “politicamente correto”: os pais sabem que é politicamente correto dialogar com os filhos e dizem que assim agem - embora não raro contratem detetives para saber se os seus filhos estão se envolvendo com drogados, desconfiem e rebusquem as suas gavetas. O professor sindicalizado, atuante e com grande consciência de cidadania sabe que é politicamente correto dialogar com os seus alunos e afirma que assim age; comumente, porém, notas e controle da presença continuam a ser instrumentos eficazes para calar qualquer senão. O político sabe que é politicamente correto agir em nome da ética; a corrupção, entretanto, nunca foi tão expressiva e tão declarada. Mesmo diante de fortes evidências, sempre prevalecem os mecanismos de proteção social erigidos para os que parecem mas não são.

Enfim, a fissura entre o dizer e o fazer, que não faz senão alargar-se perigosamente, explica-se em parte se considerarmos as transformações alucinantes – inclusive no plano das emoções – pelas quais a sociedade está passando. Elas são de toda a ordem, explicitando-se particularmente no plano da política com a ampliação de direitos e de práticas democráticas que impõem determinadas falas e condutas e, todavia, o sujeito é ainda o velho sujeito que reage emocionalmente à “maneira antiga” quando as questões são mais concretas e a ele diretamente relacionadas.

E já que mencionamos isso, vamos pensar um pouco sobre esse processo democrático no nível das organizações. Há duas ou três décadas, a questão da participação democrática passou a rondar o ambiente organizacional e, gradualmente, uma infra-estrutura que a viabilizasse foi sendo construída. Isso se impôs por vários motivos e um deles parece banal: o controle das pessoas através de feitores, supervisores, chefes, gerentes, diretores e vice-presidentes estava caro demais para suportar uma concorrência que cada vez mais se fazia sentir no mercado. No lugar dessa estrutura de controle dispendiosa, foram gradualmente entrando no ambiente organizacional diferentes práticas democráticas. Talvez a que tenha ganho mais notoriedade seja a que ficou conhecida como gerência participativa. Mas, para que pudesse haver democracia de fato num ambiente tradicionalmente controlador – e uma democracia traduzida por liberdade de atuação e agilidade –, era necessário construir um eixo central em torno do qual as pessoas se pusessem de acordo e cumprissem a sua parte nos objetivos da organização. Surgiram, então, as definições de missão e os “códigos de conduta”: em outras palavras, a direção, os valores e os princípios que deveriam ser assumidos por todos. Doravante, as pessoas trabalhariam em torno dessas definições e desses códigos de conduta, que passariam a se constituir, com “ares mais democráticos”, nos novos instrumentos de controle.

Todos parecem concordar hoje, nas organizações, que as gestões são bem mais participativas; muitos parecem concordar que as relações são bastante democráticas e que há espaço para criar, inovar, enfim, para se expressar. Mas, será que essa é toda a verdade? Se tomarmos a inovação como referência, ela não conhece fronteiras, se traduz em verdadeiras explosões de possibilidades, se refere a uma re-invenção, à criação permanente de novas realidades. Será que já percebemos que qualquer organização é um sistema vivo em permanente transformação e que esse sistema vivo se dá na complexidade da sua rede de relações? E que é exatamente isso que legitima a inovação? Ou a proposta de inovação nas empresas ainda é um faz-de-conta com aspirações de ser para valer algum dia?

Não basta então a definição da missão e do código de conduta. Isso é muito pouco, tanto para as expectativas das pessoas como para as expectativas das empresas. É preciso desenvolver ainda uma postura de acolhimento para novas possibilidades criativas; é preciso que nós, as pessoas, possamos re-inventar permanentemente o nosso trabalho, construir a trajetória do que nos propomos a realizar juntos, amadurecer um sentido de responsabilidade para com o outro e para com o coletivo. Esse, de fato, é o ambiente que interessa a todos.

Diálogo e alteridade

 

O fetiche das palavras é algo muito mais poderoso do que imaginamos. Falamos de participação, democracia, liberdade, criatividade nas organizações e, passo seguinte, acreditamos que o mundo se cria pela palavra. Ora, a palavra é um signo arbitrário, mas que pode ser muito sedutor e, ao seduzir, seduz não só ao outro que me ouve; pior, seduz a mim mesmo, que falo. Vivemos ainda o mito bíblico: Deus criou o mundo por meio da palavra; nós agimos da mesma forma: acreditamos que o mundo se cria pela palavra. Esse é um dos lados da moeda: a palavra como instrumento de alienação, como fetichização do mundo.

Mas há também o lado redentor da palavra. O diálogo pode se tornar o fator revolucionário de toda e qualquer organização social. Talvez, exatamente por isto, o diálogo é tão difícil, tão absolutamente raro. O diálogo é uma arte, infelizmente limitada a círculos restritos da sociedade. Isso é muito curioso porque a sociedade moderna tagarela intensamente. Mas tagarelar não é dialogar. Em geral, as pessoas falam de coisas absolutamente acidentais e exteriores; quem fornece os temas de discussão são os meios de comunicação, o maquinário com o qual trabalho ou o manual de instruções do novo Windows 2001! Ou melhor, o problema não é propriamente o tema da conversa, mas o quanto estou dissociado daquilo que falo: o ser profissional dissociado do ser social, dissociado das emoções, das experiências e por aí vai. A tarefa, como diz Enrique Pichon-Rivière, é fundamental. Em torno dela o diálogo deve girar. O diálogo exige requinte e, dificuldade suprema para uma cultura narcisista, capacidade de apreender o outro como outro. Na ausência disso – o que é o mais comum – o diálogo produz tensões, conflitos. Dialogar é conviver com o conflito, geri-lo, e não, como é usual, reprimi-lo, paralisá-lo, escondê-lo. Os grupos operativos, nascidos na Universidade e respondendo às necessidades interdisciplinares, proposto por Pichon-Rivière, rapidamente ganharam as escolas, os hospitais psiquiátricos; com vagar ganham também as organizações produtivas. Há, portanto, um instrumento psicológico – os grupos operativos – dotado de flexibilidade, capaz de adaptar-se a vários níveis das exigências institucionais que pode ser o “vaso alquímico” capaz de conter os conflitos e tensões que o diálogo necessariamente produz. Além dos grupos operativos, há inúmeras outras modalidades de facilitação psicológica que podem ser úteis às instituições, inclusive empresas, especialmente quando face a processos de consultorias organizacionais, planejamento estratégico ou outras situações, que, justamente por imporem a necessidade de intenso diálogo, são geradoras de tensão.

Vou dar um exemplo muito freqüente do diálogo – ou da ausência dele – no processo terapêutico. Aliás, aprendi a valorizar o diálogo e ver nele uma potencialidade revolucionária como psicoterapeuta. No processo terapêutico o diálogo é peculiar e, todavia, acredito que tenha aí o seu paradigma. Tão velho quanto a dialética socrática, o diálogo terapêutico re-inaugura uma prática esquecida. Não raro, uma criança adoece porque a família também está doente. Uma das práticas terapêuticas comuns nesses casos é pedir para a família conversar durante 15 minutos semanalmente. O diálogo que no início se limita à expressão do desejo de cada um, pode demorar meses para se tornar uma prática durante 15 minutos por semana! Simplesmente as pessoas não têm o hábito de se ouvirem e, coisa mais rara ainda, de responderem àquilo que foi perguntado. Hoje, temos monólogos; as pessoas moram juntas por anos a fio na mais radical solidão.

A fissura entre o dizer e o fazer, através do diálogo poderia ganhar outras dimensões, porque se o diálogo efetivamente se estabelece, acontece um fenômeno revolucionário: começamos a perceber o outro como outro, as máscaras sociais caem, a verdade pontual a respeito de um problema, pouco a pouco, aparece. Para os românticos (Jean-Jacques Rousseau, Carl Gustav Jung) o social, a natureza, o mundo é coberto de véus. Projetamos nos outros, todos os outros, os nossos processos inconscientes, nossas fantasias, nossos jogos imaginativos. A tendência é que o outro seja extensão desses jogos; oculto pela minhas fantasias, ele é incapaz de se revelar como alteridade. Por isso, o monólogo é a tônica: falamos e encontramos a nós mesmos sob mil disfarces. Ora, o diálogo desarma exatamente isto. Quando me dirijo ao Sr. Fulano coberto por meus véus, o Sr. Fulano pode me dizer: “Alto lá, eu sou diferente do que você afirma que eu sou” ou “Esse Sr. Fulano só existe na sua imaginação”. Se eu puder escutá-lo e aprender com a situação, serei capaz de estabelecer uma relação mais autêntica, mais verdadeira. A revolução, no meu entender, é dialógica e pontual. Não há remédio-macro que dê conta da nossa realidade social. Se nos voltarmos, porém, para o micro, o pontual, o pequeno, o sutil – na família, na escola, nas organizações em geral – será possível obter importantes resultados, pois quando de fato há diálogo, as pessoas tornam-se criativas porque colocam sobre a mesa quem elas realmente são (seus sentimentos, seus desejos, suas capacidades de realização, suas necessidades de expressão). Na ausência do diálogo autêntico, as pessoas são artificiais, vivenciam papéis estereotipados, repetitivos, absolutamente não criativos. Vivenciam profunda solidão, sentem-se despersonalizadas e massacradas por um mecanismo gigantesco onde cada uma é peça intercambiável. Para criar é preciso abrir passagem para o deus Eros, o deus do amor, da junção, da união, da multiplicação. É preciso abrir passagem para a idéia de que cada um de nós é insubstituível e, quero enfatizar: cada um é insubstituível tanto nas organizações, sejam elas quais forem, como na vida. Pense por um momento, leitor, como uma empresa seria outra realidade simplesmente adotando como paradigma o fato de que ninguém é substituível. Pense como seria a organização sem a visão mecanicista de mundo na qual somos todos assemelhados a peças que podem ser substituídas por outras sem afetar o funcionamento do maquinário. Pense como seria considerar que as relações que integramos jamais seriam as mesmas sem que as integrássemos.

Pense, leitor, em como você é bem mais do que uma peça amorfa para que assim seja considerado.

Esta proposta que estou fazendo de aprender a dialogar – e de exercer o diálogo – é muito simples. Não implica custos que não possam ser absorvidos, e pode vir a se tornar uma prática realmente transformadora das relações, em direção àquilo que todos almejamos: a sua autenticidade. Quando nos abrimos para o diálogo, quando fazemos esse gesto supremo, passamos a ter outra referência de nós mesmos e do outro, passamos a sentir a dor, o sofrimento e a solidão do outro. Tornei-me psicoterapeuta exatamente porque precisava começar a conversar de uma nova forma. Fui professora por mais de 20 anos, na UNICAMP, e lá vivenciei o que chamo de “solidão coletiva”: transmitir conhecimento para classes de mais de 50 alunos não pressupõe diálogo; nessa forma de ensino nem perguntas cabem, pois atrapalham um cronograma exigente, burocrático e imposto de fora. As universidades tornaram-se os mais perniciosos reprodutores dessa solidão e alienação; lá as pessoas são amargas, pouco receptivas, competitivas. No lugar de Eros, Tanatos: desunião, separação, enfraquecimento, morte.

As máscaras sociais

 

Outra fissura importante da sociedade moderna se dá entre o fazer e o ser. O ser e o fazer dissociados. O dizer e o fazer dissociados. Todas essas dissociações fundam-se a partir da fissura entre o ser e o parecer. Jean-Jacques Rousseau teceu essa argumentação no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, no início da segunda metade do século XVIII. É essa fissura entre o ser e o parecer que permitiu ao filósofo um olhar crítico sobre a modernidade no seu alvorecer. Explicando um pouco: se tivermos como referência as sociedades tradicionais e a própria cultura ocidental até o início da modernidade, percebemos que as pessoas tinham lugares muito definidos na “cadeia do Ser”; o que elas deveriam fazer e, inclusive, falar, estava dado. A fissura entre o que eu sou e o que aparento ser simplesmente não se punha, não tinha sentido e, com ela, também não tinha sentido a fissura entre o dizer e o fazer e a fissura entre o ser e o fazer. Essa fissura, no entender de Rousseau, só fez alargar-se. Talvez tenhamos chegado ao seu ponto culminante, pois aquilo que somos -quando sabemos quem somos- escondemos, diminuímos, espezinhamos; só é permitida a emergência do aparecer, das máscaras, daquilo que Jung chama de persona. As máscaras nos permitem realizar no social um pequeno fragmento do nosso ser - o restante permanece atrofiado, reprimido e, muitas vezes, como o sangrento século XX provou, pronto a emergir de forma sombria, projetada nos “bodes expiatórios” sociais. Sem caminhos, os “melancólicos da cultura” sabem que perderam algo: partes importantes do ser; mas não sabem nomear o que perderam. Como seres errantes, passam a identificar-se com suas máscaras sociais. O parecer agiganta-se, o ser atrofia-se. O homem confunde-se com o papel social que realiza, com os penduricalhos sociais (títulos, cargos etc.) que as organizações lhe permitem ter, tornando-se cada vez mais frágil, inseguro, instável. Obviamente não há possibilidade de uma sociedade saudável com um abismo tão grande entre o ser e o parecer, entre o dizer e o fazer, entre o ser e o fazer. É preciso que haja uma nova recomposição do ser. O diálogo, de novo, poderia ser o elemento fundamental de recomposição do ser dissociado de si mesmo.

A pitié e a re-descoberta do outro

 

Para Rousseau, o “homem natural” é dotado de duas paixões: o amor de si e a pitié (a compaixão). O amor de si é o cuidado consigo mesmo e tudo aquilo que garante a sobrevivência do homem; a pitié é uma paixão que nos transporta para o outro, todos os outros, pois através dela nos é impossível ficar indiferentes diante daquele que sofre. A pitié tempera o amor de si, impedindo que se transforme em amor-próprio, que, para o filósofo, é uma paixão social que transforma o homem num ser egoísta, voltado para os seus interesses pessoais. Ora, o processo civilizatório enfraqueceu sobremaneira a pitié: convivemos com a miséria, a iniqüidade, a desigualdade social extrema, a morte e a destruição e permanecemos completamente indiferentes. O outro na sociedade moderna deixou de nos fazer apelos. A pitié enfraqueceu-se e, com isso, agigantou-se o amor-próprio: o egoísmo extremado do homem moderno, o furor pelo mundo do aparecer, das imagens, dos simulacros, das máscaras. O “mundo do ter” substituiu o “mundo do ser”, como tão bem apontou Erich Fromm. Com o enfraquecimento da pitié só resta o “mundo do eu”, a fúria do eu que só cuida dos seus interesses e é incapaz de alcançar o outro. O eu identifica-se com os interesses e os valores dados pelo imaginário coletivo. Queremos aquilo que o “imaginário coletivo” afirma ser bom e belo. O que Rousseau chama de “estima pública” pauta nossos pensamentos, nossos valores, nossa moral e, até mesmo, nossas emoções. Evidentemente, a identificação entre cada um de nós e o “imaginário coletivo” varia; na modernidade, todavia, a identificação é tão intensa que indivíduos que preservam ou conquistam a sua singularidade tornaram-se heróicos. Entre seres coletivos, é bom que se frise, não há diálogo, mas tagarelice. Para Rousseau, a renovação social e mesmo cultural só seria possível com o re-florescimento da pitié, da compaixão. Com o renascer dessa paixão natural, o outro, todos os outros seres -a própria natureza- passariam a fazer apelos, doravante perceptíveis. O outro deixaria de ser indiferente para o eu. É esse despertar do outro em cada um de nós que dará base ao diálogo.

Não há formulas, não há receitas para esse despertar. Cá e lá, se tivermos ouvidos para esse som, perceberemos falas indizíveis daqueles que estão tentando “furar o cerco” desse tecido espesso que é o “imaginário coletivo”. Se, de perto, pudermos acolher essas falas, ouvir esses sons, será possível facilitar o caminho desses novos buscadores. Na grande maioria dos casos tal busca começa independentemente da vontade das pessoas; não raro a busca começa contra a vontade do ego que, como órgão de adaptação da realidade interna e externa, vê com muita má vontade o despertar da singularidade. Como afirma Jung, a natureza é extremamente conservadora, a libido (a energia psíquica) quer percorrer os caminhos desde sempre trilhados, quer repetir o mesmo. Se tal busca da singularidade se impõe, se o processo não pára, tal se dá, como diziam os alquimistas, “contra a natureza” – e não em favor dela! O bonito é que quando esse processo começa não tem mais fim; puxa-se o fio de uma meada que nos leva ao infinito de nós mesmos. Toma-se gosto por essa estranha aventura que é o encontro consigo mesmo, com seus obstáculos, sutis pontos de apoio, guerras titânicas não audíveis, não visíveis, impensáveis. A cumplicidade no encontro com o outro que também busca e que reconhece o eco de suas palavras é prazeroso e dotado de tal sutileza que encanta.

Talvez o momento seja propício para esta tomada de consciência em favor do singular. Eis que habitamos um mundo contraditório e uma época tensa: ao mesmo tempo que vivemos a alienação, o fetichismo das palavras, a especialização, a unilateralidade, a banalização da democracia, temos também a oportunidade de viver a pluralidade, a emergência de novas possibilidades, a re-invenção do mundo, o diálogo, a singularidade. Em nenhum outro momento histórico tal tensão seria suportável ou imaginável. Nós temos postos os dois lados da balança: de um lado a unilateralidade, o coletivo massacrante e, de outro lado, crescente busca da singularidade, da criatividade. Se a crítica da modernidade é pertinente, não podemos nos esquecer que a modernidade e a democracia são as parteiras dessa incrível novidade: a “produção” de indivíduos singulares.

E, todavia, há “perigo no ar”: catástrofes naturais produzidas pelo desequilíbrio ecológico; catástrofes sociais e políticas produzidas pelo desequilíbrio da alma; catástrofes que podem ser produzidas pela própria ciência quando esta separa-se da ética. É responsabilidade de cada um de nós, mas também das Instituições, mudar a direção da seta: da catástrofe para a esperança de um mundo que re-conhece e venera Eros. Agir no pequeno, no pontual, permite a todos exercer-se aqui e agora ancorados no diálogo e no coração: não existe arma mais eficaz do que trazer à tona o outro e a si mesmo.

Fonte
MARONI, Amnéris. A divergência entre o discurso e a prática. Disponível em: <http://www.rubedo.psc.br/artigosb/divergen.htm>.

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