A seca não é igual para todos
Por Carlos Magno Lopes
A seca de 2012, considerada por alguns como a pior dos últimos 30 anos,
atinge duramente alguns estados nordestinos, sobretudo a Bahia, o Piauí,
Rio Grande do Norte e Paraíba. Só na Bahia, ao que parece o estado com
maior número de municípios em estado de emergência, cerca de 2,7 milhões
são afetadas pela seca deste ano (a pior dos últimos 47 anos no
estado).
Segundo estimativas, mais de 4 milhões de pessoas já estariam
sentido, diretamente, os efeitos da seca em todos os estados do
Nordeste, dos quais o Maranhão é o único que consegue escapar até o
momento de perdas maiores. Ao que tudo indica, a seca atual não será
igual à de 1877-79, durante a qual teriam perecido aproximadamente 500
mil pessoas, até mesmo em função da rede de proteção social que
atualmente pode ser mobilizada.
Como se sabe, em anos de seca, a agropecuária é o segmento que acumula
mais perdas. Afinal, plantações seguem um ritmo biológico
pré-determinado entre a semeadura e a colheita, durante o qual, em
determinados períodos não pode prescindir das chuvas, enquanto isso o
pasto não cresce sem água (há relatos segundo os quais o preço da palma
teria alcançado seu recorde histórico na atual seca). Felizmente, a
agropecuária tem participação relativamente pequena na economia dos
estados nordestinos, oscilando na maioria deles, entre 5% e 8,5% do PIB
nos anos que apesentam ritmo normal de chuvas.
Chama atenção o fato de que, apesar dos problemas que a seca já causa, a
estimativa da safra dos grãos mais importantes para e economia
nordestina, apresentada na tabela abaixo, é de crescimento da ordem de
2,9%, apesar do decréscimo previsto na produção de arroz (-19,7%) e
feijão (-27,4%). Há uma clara falta de sintonia entre o modesto recuo da
safra de milho (-2,1%) e o incremento na produção de soja (2,9%).
Essa
constatação resulta da dicotomia entre o desempenho da agricultura
familiar e do agronegócio no Nordeste. Em outras palavras, enquanto o
agronegócio regional concentra-se em áreas que possuem condições
edafoclimáticas favoráveis, menos suscetíveis a secas, a agricultura
familiar espalha-se pelo semiárido. É por essa razão que, nos dias
atuais, a seca é mais um flagelo social que um desastre econômico.
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