quarta-feira, 13 de junho de 2012

A seca não é igual para todos

Por Carlos Magno Lopes

A seca de 2012, considerada por alguns como a pior dos últimos 30 anos, atinge duramente alguns estados nordestinos, sobretudo a Bahia, o Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba. Só na Bahia, ao que parece o estado com maior número de municípios em estado de emergência, cerca de 2,7 milhões são afetadas pela seca deste ano (a pior dos últimos 47 anos no estado). 

Segundo estimativas, mais de 4 milhões de pessoas já estariam sentido, diretamente, os efeitos da seca em todos os estados do Nordeste, dos quais o Maranhão é o único que consegue escapar até o momento de perdas maiores. Ao que tudo indica, a seca atual não será igual à de 1877-79, durante a qual teriam perecido aproximadamente 500 mil pessoas, até mesmo em função da rede de proteção social que atualmente pode ser mobilizada.

Como se sabe, em anos de seca, a agropecuária é o segmento que acumula mais perdas. Afinal, plantações seguem um ritmo biológico pré-determinado entre a semeadura e a colheita, durante o qual, em determinados períodos não pode prescindir das chuvas, enquanto isso o pasto não cresce sem água (há relatos segundo os quais o preço da palma teria alcançado seu recorde histórico na atual seca). Felizmente, a agropecuária tem participação relativamente pequena na economia dos estados nordestinos, oscilando na maioria deles, entre 5% e 8,5% do PIB nos anos que apesentam ritmo normal de chuvas.

Chama atenção o fato de que, apesar dos problemas que a seca já causa, a estimativa da safra dos grãos mais importantes para e economia nordestina, apresentada na tabela abaixo, é de crescimento da ordem de 2,9%, apesar do decréscimo previsto na produção de arroz (-19,7%) e feijão (-27,4%). Há uma clara falta de sintonia entre o modesto recuo da safra de milho (-2,1%) e o incremento na produção de soja (2,9%). 

Essa constatação resulta da dicotomia entre o desempenho da agricultura familiar e do agronegócio no Nordeste. Em outras palavras, enquanto o agronegócio regional concentra-se em áreas que possuem condições edafoclimáticas favoráveis, menos suscetíveis a secas, a agricultura familiar espalha-se pelo semiárido. É por essa razão que, nos dias atuais, a seca é mais um flagelo social que um desastre econômico.

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