sábado, 2 de junho de 2012

taxa selic: Quebra de paradigma

José Paulo Kupfer

A redução da taxa Selic, que corresponde à taxa básica de juros, determinada na noite de quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária (Copom), quebra algumas paradigmas. Ao decidir, por unanimidade, pelo corte de 0,5 ponto porcentual, o Copom, formado por diretores do Banco Central, levou a taxa de juros ao nível mais baixo da sua história desde a introdução, há 13 anos, do sistema de metas de inflação. Além disso, acionou o gatilho para a alteração no cálculo do rendimento dos depósitos de poupança.

Ao trazer os juros básicos para 8,5% ao ano e apontar para pelo menos um novo corte de 0,5 em julho, os diretores do BC consideraram que o mau desempenho da economia internacional e a lenta progressão do nível de atividade econômica no Brasil oferecem espaço para reduzir juros sem pressionar a inflação. Tanto no ambiente externo quanto no interno, o momento, de fato, é de baixo crescimento.

Esta prevista para esta sexta-feira a divulgação pelo IBGE do PIB do primeiro trimestre do ano. Os indicadores prévios do BC já indicaram que o número será baixo, variando num intervalo magro entre 0,3% e 0,5% sobre o último trimestre de 2011. Se esses números se repetissem pelos próximos trimestres, o crescimento no ano de 2012 ficaria entre 1,2% e 2% – inferiores à capacidade econômica existente e abaixo das necessidades.

O corte na taxa Selic, que pode chegar a até 7% nominais ao ano, em fins de 2012, se a instável situação econômica da Europa evoluir para um colapso, abre horizontes para a economia. Tanto quanto colaboram para estimular a atividade econômica, juros mais baixos têm potencial para ajudar a remover distorções na economia. A principal delas diz respeito ao modo como se forma a poupança e se financia o investimento – dois dos grandes gargalos brasileiros, que dificultam crescimento mais rápido e mais sustentado.

Taxas de juros altas encarecem, numa ponta, o financiamento da produção.e, na outra, drenam recursos da aplicação em atividades produtivas, desviando-os para o mercado financeiro. Com juros mais baixos, as opções de renda fixa – fundos, principalmente os DI pós fixados, atrelados à Selic, e cadernetas de poupança tendem a render menos. Afinal, a existência de um sistema que oferece alta rentabilidade e baixo risco só é possível em ambientes econômicos insalubres, em que predominam juros altos.

Em busca de alternativas mais rentáveis, os investidores terão de se acostumar com negócios mais arriscados. Caso, na renda variável, de ações de empresas, negociadas em bolsas de valores. Ou, na renda fixa, alguns tipos de debêntures também emitidas por empresas.

Se o País conseguir chegar em juros reais em torno de 2% ao ano – e mantê-los em torno desse nível ao longo do tempo – começarão a surgir recursos privados dispostos a bancar a ampliação de negócios que empregam matérias-primas, partes e peças manufaturados, pessoas, tecnologia e também recursos financeiros, inclusive com maturação de prazo mais longo. É assim que uma economia estável cresce de forma sustentada.

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