taxa selic: Quebra de paradigma
José Paulo Kupfer
A redução da taxa Selic, que corresponde à taxa básica de
juros, determinada na noite de quarta-feira pelo Comitê de Política
Monetária (Copom), quebra algumas paradigmas. Ao decidir, por
unanimidade, pelo corte de 0,5 ponto porcentual, o Copom, formado por
diretores do Banco Central, levou a taxa de juros ao nível mais baixo da
sua história desde a introdução, há 13 anos, do sistema de metas de
inflação. Além disso, acionou o gatilho para a alteração no cálculo do
rendimento dos depósitos de poupança.
Ao trazer os juros básicos para 8,5% ao ano e apontar para pelo menos
um novo corte de 0,5 em julho, os diretores do BC consideraram que o
mau desempenho da economia internacional e a lenta progressão do nível
de atividade econômica no Brasil oferecem espaço para reduzir juros sem
pressionar a inflação. Tanto no ambiente externo quanto no interno, o
momento, de fato, é de baixo crescimento.
Esta prevista para esta sexta-feira a divulgação pelo IBGE do PIB do
primeiro trimestre do ano. Os indicadores prévios do BC já indicaram que
o número será baixo, variando num intervalo magro entre 0,3% e 0,5%
sobre o último trimestre de 2011. Se esses números se repetissem pelos
próximos trimestres, o crescimento no ano de 2012 ficaria entre 1,2% e
2% – inferiores à capacidade econômica existente e abaixo das
necessidades.
O corte na taxa Selic, que pode chegar a até 7% nominais ao ano, em
fins de 2012, se a instável situação econômica da Europa evoluir para um
colapso, abre horizontes para a economia. Tanto quanto colaboram para
estimular a atividade econômica, juros mais baixos têm potencial para
ajudar a remover distorções na economia. A principal delas diz respeito
ao modo como se forma a poupança e se financia o investimento – dois dos
grandes gargalos brasileiros, que dificultam crescimento mais rápido e
mais sustentado.
Taxas de juros altas encarecem, numa ponta, o financiamento da
produção.e, na outra, drenam recursos da aplicação em atividades
produtivas, desviando-os para o mercado financeiro. Com juros mais
baixos, as opções de renda fixa – fundos, principalmente os DI pós
fixados, atrelados à Selic, e cadernetas de poupança tendem a render
menos. Afinal, a existência de um sistema que oferece alta rentabilidade
e baixo risco só é possível em ambientes econômicos insalubres, em que
predominam juros altos.
Em busca de alternativas mais rentáveis, os investidores terão de se
acostumar com negócios mais arriscados. Caso, na renda variável, de
ações de empresas, negociadas em bolsas de valores. Ou, na renda fixa,
alguns tipos de debêntures também emitidas por empresas.
Se o País conseguir chegar em juros reais em torno de 2% ao ano – e
mantê-los em torno desse nível ao longo do tempo – começarão a surgir
recursos privados dispostos a bancar a ampliação de negócios que
empregam matérias-primas, partes e peças manufaturados, pessoas,
tecnologia e também recursos financeiros, inclusive com maturação de
prazo mais longo. É assim que uma economia estável cresce de forma
sustentada.
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