quinta-feira, 12 de julho de 2012

A administração em transformação


O cliente como fonte de informações nas empresas qualidade em serviços ao cliente: nova ferramenta competitiva da administração

 

1. INTRODUÇÃO

 

A guerra no mundo dos negócios voltou-se para um novo campo de batalha. Na década de 1960, o lema para se conseguir vantagens sobre a concorrência era o Marketing. A década de 1970 foi dedicada à Produtividade, obtida através da racionalização de custos e na década de 1980, foi a vez da Qualidade, na sua versão Total. Hoje a competição chegou a um quarto do campo de batalha – a Qualidade nos Serviços ao Cliente é a ferramenta competitiva da década de 1990.

 

[...]

 

Com a globalização da economia os padrões de qualidade são cada vez mais elevados, os preços caem cada vez mais, tornando a competição feroz. Na falta de formas significativas de distinguir produtos e serviços essenciais, as pessoas decidiram fazer negócios com base em como esperam ser tratadas. Como as empresas brasileiras estão se comportando frente à esta realidade? Para a maioria das empresas o caminho para a organização interessada em sobreviver e liderar é diferenciar seu negócio da concorrência, através da preocupação permanente com a Qualidade nos Serviços ao Cliente, de forma a construir e sustentar uma vantagem competitiva.

 

2. QUALIDADE EM SERVIÇOS: ALGUMAS DEFINIÇÕES

 

De acordo com Lobos (1993, p. 66), define-se qualidade em serviços como “antecipar, atender e exceder continuamente os requisitos e as expectativas dos clientes”. E, segundo análise do referido autor, a qualidade de um serviço está relacionada a três fatores:

·        desempenho: que é a razão do serviço em si;

·        atendimento: são os aspectos referentes ao ato da prestação o serviço;

·        custo: quanto é pago pelo serviço.

 

Num breve histórico pode-se afirmar que a Qualidade em Serviços é uma corrente de pensamento emergente, com origens em países europeus, como Suécia e Inglaterra, e ainda carece de um conjunto coerente de métodos próprios de trabalho. Embora siga princípios idênticos aos da Qualidade Total, - ex.: foco no cliente, sero erro, etc. -, requer ainda outros que lhe são exclusivos (ex.: o momento da verdade, o ciclo do Serviço, etc.).

 

[...]

 

3. ADMINISTRAÇÃO DE SERVIÇOS

 

A Administração de Serviços, definida por Albrecht (1994), é um enfoque organizacional global que faz da qualidade do serviço, tal como sentida pelo cliente, a principal força motriz do funcionamento da empresa. E de acordo com esta filosofia, toda a organização deve atuar como um grande departamento de atendimento ao cliente, construindo uma cultura de serviço que faz da excelência do serviço prestado ao cliente uma missão reconhecida para todos os membros da organização. Começando com a responsabilidade da alta administração quanto à definição da missão da empresa e à especificação da estratégia necessária para fazer da qualidade do serviço a chave do sucesso da empresa.

 

Os autores especializados em serviços costumam utilizar como exemplos de empresas excelentes, gigantes como IBM e Xerox, Frito Lay e Nordstrom, SAS e British Airways. No contexto nacional os exemplos mais citados pertencem à categoria de “casos isolados”, como TAM, Localiza e AMIL. O que diferencia essas organizações das medíocres chama-se “excelência de serviço”, que segundo Albrecht (1994, p. 13) é “um nível de qualidade de serviço, comparado ao de seus concorrentes ; que é suficientemente elevado, do ponto de vista de seus clientes, para lhe permitir cobrar um preço mais alto pelo serviço oferecido, conquistar uma participação de mercado acima do que seria considerado natural, e/a obter uma margem de lucro maior do que a de seus concorrentes”. E essa excelência de serviços se baseia em três características. Segundo Albrecht e Zemke, citados por Lobos (1993), as três características são denominadas e Triângulo dos Serviços, compostas por: uma Estratégia de serviços bem

 

concebida; Sistemas considerados amistosos pelos seus usuários; e Gente voltada para a satisfação do cliente. Porém Lobos (1993) acredita que faltou-lhes considerar ainda uma quarta característica: a Estrutura de Apoio, técnico e administrativo, capaz de suportar as três anteriores.

 

[...]

 

A primeira característica das Organizações de Serviços bem sucedidas é possuir uma Estratégia de Serviços, percebida pelos clientes e capaz de permeabilizar o comportamento da Linha de Frente.

 

[...]

 

Para Davidow & Uttal (1991) desenvolver uma estratégia nada mais é do que segmentar os clientes de acordo com suas expectativas em relação aos serviços, descobrir quais são exatamente essas expectativas e defini-las ou ajustá-las de modo que correspondam a sua capacidade de oferecer o serviço.

 

[...]

 

[...] a estratégia de serviços é parte central de uma estratégia comercial da empresa [...] porque define a cultura interna da empresa, assim como sua imagem externa desejada. [...] Deve incluir, além das necessidades e expectativas dos clientes, as atividades dos concorrentes e visão do futuro. Ou seja, saber o que os principais concorrentes estão fazendo, utilizando uma das formas mais rápidas, baratas e úteis de se obter inspiração para melhorar a Qualidade em Serviços, o “Benchmarking”.

 

[...]

 

Os autores Davidaw & Uttal (1991) elaboraram um plano de seis etapas para se adquirir um Serviço Total ao Cliente e a primeira etapa diz respeito a elaboração de uma estratégia de serviço. As etapas seguintes seriam: Fazer com que os gerentes comportem-se como fanáticos pelo serviço ao cliente. Concentrar-se na motivação e treinamento dos funcionários; Projetar produtos e serviços que possibilitem um bom serviço ao cliente; Investir numa infra-estrutura de serviços; Monitorar a realização dos objetivos do serviço ao cliente.

 

[...]

 

4. O NOVO CONSUMIDOR E AS EMPRESAS BRASILEIRAS

 

No Brasil surge um novo consumidor, muito mais exigente, crítico, bem informado dos seus direitos e com coragem de reclamar. [...] o novo cliente dos anos 90, no Brasil, é a primeira geração de clientes diplomados, maduros e conscientes. Que preferem os produtos ou serviços que garantam a melhor relação custo/benefício, o maior agregado de valores pelo mesmo montante de dinheiro.

 

[...]

 

Mas será que as empresas nacionais estão tão empenhadas assim em ouvir o cliente? Segundo uma enquete realizada pela HSM promoções (Marketing News, p. 8) o empresariado nacional ainda não prioriza o cliente como deveria. Eis os números da pesquisa:

·        51% dos executivos entrevistados ocasionalmente dedicam seu tempo a ouvir clientes.

·        42% dos designers e o staff de pesquisa raramente se dedicam ao consumidor final.

·        29% nunca usaram o banco de dados dos clientes para detectar novas oportunidades de marketing.

·        10% apenas analisam com freqüência seus clientes atuais para buscar novas oportunidades.

 

Entre esses dez por cento estão as empresas que conhecem profundamente os anseios de seus clientes: são aquelas empresas [...] que estão adaptadas aos conceitos do Primeiro Mundo. [...]

 

Essas empresas utilizam todos os instrumentos possíveis para ouvir os clientes.

 

[...]

 

A consultoria paulista Gouvêa de Souza & MH, especializada em desenvolvimento empresarial no comércio, resolveu saber por que isso acontece. Saiu a campo, ouviu 1.100 empresas em todo o país e chegou a conclusões preocupantes. A pesquisa publicada pela Revista EXAME (Ponce de Leon, 1991, p. 94), identificou os instrumentos de participação dos clientes, utilizados pelas 1.100 empresas do comércio – em % do universo pesquisado. Eis os resultados:

·        Caixa de sugestões .................................... 16

·        Pesquisa direta .......................................... 15

·        Balcão de Atendimento .............................. 12

·        Sugestões informais ................................... 04

·        Controle pós-venda .................................... 04

·        Encontros periódicos .................................. 03

·        Não participam .......................................... 46

 

QUADRO 1: INSTRUMENTO DE PARTICIPAÇÃO DOS CLIENTES

 

A julgar pelos resultados apurados pela Gouvêa de Souza, as empresas não tem o hábito de manter os ouvidos alertas às opiniões dos consumidores. Quase a metade dos entrevistados não possui nenhum canal de comunicação com os clientes. Para piorar, apenas 4% têm serviço de controle pós-venda. Se houver habilidade em distinguir o que é realmente importante numa reclamação, ela pode vir a ser mais valiosa que uma pesquisa estruturada. Algumas empresas instalam uma Central de Atendimento a Clientes, mas essa forma não pode ser a única dentro da empresa a ouvir os clientes insatisfeitos que se decidem a falar. Muitas das maiores Organizações Manufatureiras do país - Volkswagen, Sadia, Sharp, Nestlé, Du Pont, etc. – hoje possuem Centrais de Atendimento a Clientes. Dentre as Organizações de Serviços constam-se poucas, tais como Credicard, American Express e Banco Nacional. [...].

 

Segundo Rosseto (1994) pesquisas americanas da Technical Assistance Research Programs, Tarp, mostram que um cliente que reclama e fica satisfeito com a condução de sua queixa, tem um índice de fidelidade de 92%. Se reclama e fica insatisfeito, o número cai para 23%. Saber lidar eficientemente com as reclamações dos clientes é uma preocupação entre as empresas dispostas a entender a voz do cliente. De acordo com Walker (1991) as reclamações constituem a parte não solicitada do processo de ouvir os clientes e proporcionam muitas oportunidades: de identificar os pontos fracos; de corrigir os problemas; de recuperar um cliente; de incentivar a fidelidade.

 

[...]

 

5. A IMPORTÂNCIA DOS SERVIÇOS NA ECONOMIA BRASILEIRA

 

Estamos na Era dos Serviços, onde uma das tendências mais importantes do mundo empresarial moderno é a transição de uma economia baseada na produção para uma economia baseada no serviço. Para Cannie & Caplin (1994) como quer que chamemos esta era, entramos em um período dominado por companhias que realizam em vez de produzir. Como resultado, os clientes dessa nova era se concentram na qualidade dos serviços torna-se a nova “via expressa” da economia mundial.

 

[...]

 

Temos, entretanto, somente uma minoria de empresas de fato fornecendo serviços com qualidade e a cada dia, mais clientes estão decidindo fazer negócios com as organizações que realmente satisfazem as suas necessidades.

 

 [...]

 

Como afirma Albrecht (1994, p. 247), na “Era dos Serviços, o serviço não é apenas alguma coisa sobre a qual os administradores devem pensar de vez em quando; ele é a administração”.

 

6. CONCLUSÕES

 

Apesar da crescente importância do Setor de Serviços na economia e das prateleiras das livrarias especializadas em negócios estarem abarrotadas de livros (na maioria de procedência estrangeira) que pregam o culto ao Cliente e a Qualidade no mundo dos Serviços, raramente encontramos, no Brasil, empresas que forneçam um serviço de excelente qualidade e que tenham uma cultura voltada para o cliente.

 

Com a abertura da economia, o Brasil elevou extraordinariamente os padrões competitivos da indústria, comparado às Organizações de Serviços, estas se encontram a anos-luz dos padrões mundiais de eficiência. [...] No entanto, apesar da aparente consciência e das belas palavras das gerentes das empresas, foram feitas as seguintes conclusões:

·        A maioria das organizações nacionais não priorizam o cliente como deveriam, pois “ocasionalmente” dedicam seu tempo a ouvi-lo e muitas não possuem nenhum canal de comunicação com os clientes.

·        Em contrapartida há um crescente “senso crítico” por parte dos clientes, que estão mais maduros e conscientes. Além de estimulados pelo Código de Defesa do Consumidor, eles estão decidindo fazer negócios com as organizações que realmente satisfaçam suas necessidades [...].

·        É dada pouca importância a capacitação da Linha de Frente. Uma pequena parcela de empresas brasileiras já acordou para a necessidade de treinamento, vital para a saúde de qualquer organização. [...]

·        As poucas empresas que oferecem serviços com Qualidade, como a TAM, o Boticário, a Localiza, etc., são sempre citadas, como “ilhas” de excelência, ou casos “isolados”, nos poucos livros nacionais, em palestras e artigos. Mas, tais organizações não alcançam a excelência por pura sorte, elas esforçam-se. Colocam em prática uma estratégia de Serviços com o cliente como ponto de partida, investem em políticas de pessoal que valorizem a linha de Frente e contam com canais abertos de comunicação com os clientes.[...]

 

Em suma, diante do desafio da globalização, apresentamo-nos como um país dual. Num pólo há as empresas modernas, com perfil de Primeiro Mundo e que mostram que o país sabe oferecer Serviços com Qualidade. No outro pólo, merecemos o título de retaguarda do atraso, onde bom serviço é luxo e conversa fiada. Resta torcer para que este pólo se converta ao uso da ferramenta competitiva da década de 1990: a qualidade em serviços.

 

Fonte

LEITE, Ana Patrícia Rodrigues. A administração em transformação. [S.l.: s.n.].

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