Os trabalhos mais recentes têm pensado o significado da
Revolução de 1930 em termos cada vez mais abrangentes. Muitos deles foram
produzidos como teses acadêmicas e desligados do comprometimento político mais
imediato. O distanciamento no tempo em relação a este evento da história
brasileira e a análise crítica em relação às versões da década de 1950
possibilitam interpretações mais globais em que a comparação com outros casos
históricos está presente. Estas análises se ocupam em explicar o significado de
1930 em relação ao processo histórico brasileiro e o confronto com outros
movimentos revolucionários do mundo contemporâneo.
O sentido das transformações
operadas após a vitória revolucionária, na maioria dos estudos, é apresentado
dentro de formulações teóricas do tipo revolução pelo alto ou modernização
conservadora. Estes conceitos possibilitam a compreensão de situações
históricas em que o processo de transformação da sociedade, ainda que profundo,
não teve como suporte setores sociais dominados. O processo de mudança de uma
sociedade agrária para a industrial não teria sido comandado pela burguesia
industrial – asfixiada por uma aristocracia ou pela oligarquia rural –, nem
pelo proletariado ou pelo campesinato – guiados por setores de vanguarda
organizados em partido. Estes trabalhos se inspiram direta ou indiretamente na
obra de Barrington Moore, Social origins of dictator ship and democracy (1966).
Confrontando o caso brasileiro com outras situações históricas,
estas obras atribuem ao movimento de 1930 um importante papel na modernização
da sociedade brasileira, e o consideram uma revolução, embora de tipo
específico, uma ruptura que rompeu apenas com parte do passado, uma
modernização que conservou e valorizou aspectos da velha ordem. Uma questão
subjacente a estas análises é a de entender como ocorreu a passagem de uma
sociedade considerada atrasada, agrária, para uma sociedade moderna,
industrial. Imbricado nesta questão se encontra o debate em torno do próprio
significado de sociedade moderna. A noção de uma sociedade industrial nos
moldes anglo-americanos e a emergência ou reafirmação de um Estado
burocrático-autoritário estão, ambas, contidas na categoria de sociedade
moderna.
O momento político da década de 1970, em que o regime e a
sociedade se encontram em processo de transformação política, abre espaço para
trabalhos ocupados em analisar a ação do Estado. Não só as classes sociais têm
um papel definidor da vida brasileira, mas o Estado é reconhecido e questionado
enquanto principal definidor e promotor das mudanças sociais. Esta vertente dos
atuais trabalhos sobre 1930 proporcionou a recuperação da obra de Raimundo
Faoro Os donos do poder – editada pela primeira vez em 1959 –, em que os
traços de continuidade da vida brasileira são buscados na permanência e na
atualização de um Estado patrimonial.
Não só a utilização de fontes até então desconhecidas tem
permitido a revisão das interpretações anteriores, mas novas preocupações
teóricas têm permitido a discussão de diferentes problemas. As teorias não
fornecem as respostas para a pesquisa histórica, elas oferecem sim a
possibilidade de novas perguntas.
A permanência do debate foi reafirmada em 1980, por
ocasião do cinqüentenário da Revolução de 1930. Neste ano, inúmeros seminários
e simpósios procuraram recuperar a história e o significado deste movimento.
Um ponto parece ter obtido o consenso da maioria dos
estudiosos que participaram dos seminários por ocasião dos 50 anos da
revolução: o de ter 1930 representado a procura de um novo equilíbrio das
classes dominantes regionais em conseqüência da quebra da coesão das antigas
oligarquias e do remanejamento dos quadros políticos da Primeira República.
Outra questão que mereceu atenção destacada se refere à análise do
desdobramento da revolução. Foi revista a suposição de que 1937, ou seja, o
Estado Novo, estivesse necessariamente contido no movimento revolucionário de
1930.
O debate travado foi amparado por inúmeros trabalhos onde
predomina o esforço em analisar os diferentes momentos do período que se seguiu
à revolução. O espaço de tempo decorrido entre 1930 e 1937 não foi percebido
como um bloco unitário, monolítico, da história do Brasil, mas sim como um
período de experimentação de novas formas de organização nacional em que se
acentuou o conflito entre o poder dos estados e o poder central, ou seja, entre
o regionalismo e a centralização.
O regionalismo, como uma das variáveis mais significativas
na deflagração do movimento de 1930 e na vida política brasileira, marca sua
presença na bibliografia publicada em 1980 sobre a revolução. Alguns trabalhos
recentemente editados sobre o assunto – como Regionalismo e centralização
política, produzido por uma equipe do Cpdoc sob a coordenação de Ângela
Maria de Castro Gomes – mantêm como perspectiva a análise do regionalismo e de
seus conflitos com o poder central. E, nesse sentido, estão próximos das
pesquisas desenvolvidas pelos brasilianistas nos trabalhos. O
regionalismo gaúcho, de Joseph Love; A velha usina – sobre
Pernambuco –, de Roberto Levine; e O fiel da balança – sobre Minas
Gerais –, de John Wirth.
Mais significativo do que o interesse suscitado pelos 50
anos da Revolução de 1930 dentro dos círculos restritos das instituições
acadêmicas, entretanto, foi o imenso espaço aberto à tal reflexão nos órgãos de
comunicação de massa. Todos os jornais, as mais importantes revistas, a
televisão e o cinema foram pródigos em abrir espaço para noticiar o debate e
com isto atualizar o significado da revolução.
Voltou-se ao passado para se rediscutir impasses e
questões centrais do sistema político atual. A pauta do debate de hoje inclui
questões tais como eleições, representação, democracia, relação entre o
desenvolvimento econômico e o desenvolvimento político e a problemática
incorporação das massas à democracia liberal, ou seja, as mesmas questões que
orientaram o debate do pacto constitucional de 1934, de tão curta duração.
Apenas uma perspectiva do debate certamente se alterou.
Se, em 1930, era proposta e aceita pela maioria dos autores a necessidade
indiscutível de centralização do poder nas mãos do Estado para que através de
sua ação se transformasse a economia e a sociedade, a questão hoje é como a
sociedade pode vir a controlar este Estado já plenamente construído e
implantado na vida brasileira.
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