A crise gerencial brasileira
Vivemos no Brasil uma crônica crise gerencial cujos efeitos
vêm se tornando cumulativos e extremamente visíveis nos dias atuais.
É fato comum professores, conferencistas e consultores
receberem briefings sobre eventos e projetos de consultoria com a seguinte
frase: “Preciso que vocês dêem uma chacoalhada na minha equipe...”
Basta aprofundar um pouco a conversa para perceber que os
problemas não estão na equipe e sim, no estilo gerencial a que ela está
submetida. É também bastante comum ouvirmos frases do estilo: “É preciso que
“eles” (a equipe) percebam que os tempos mudaram...” E o que percebemos é que
os tempos mudaram sim, mas a empresa e sobretudo, a mentalidade gerencial, não.
Quantas vezes valorosos treinamentos são estruturados pela
equipe de RH e os gerentes de área (os que mais precisavam estar presentes)
alegam que o treinamento é pára a “sua” equipe e não para ele.
As empresas estão repletas de exemplos diários de erros
oriundos de tarefas mal estruturadas. Mal estruturadas por quem? Por
profissionais anacrônicos, acomodados, que preferem defender seu emprego com
base em um conservadorismo mantenedor da visão paternalista que seus superiores
têm sob uma empresa que julgam saber administrar.
Diversas empresas obtém sucesso porque as equipes (as
pontas) fazem muito bem o seu trabalho, arcando com os ônus de erros oriundos
de seus superiores e permitindo que estes levem a fama pelas ações que
verdadeiramente trouxeram resultados à organização.
Claro que não estamos falando da classe gerencial como um
todo, existem muitas exceções. Mas seja sincero, quantas destas exceções você
conhece e é capaz de listar?
Os MBAs explodem em progressão geométrica e a crise
gerencial continua crônica, curioso, não?!
Recentemente fui contratado por uma grande multinacional
que, preocupada com os detalhes importantes de sua convenção anual, arcou com
os custos de uma reunião para aprofundamento do briefing. Eu aguardava uma
efetiva participação da classe gerencial no sentido de substancializar os
elementos do briefing, mas o que encontrei foi um gigantesco encontro de
vaidades, medos e conservadorismo. Ao invés de tratarmos sobre os pontos
importantes a serem contemplados no projeto, ouvi longos discursos sobre quais
os assuntos deveriam ser evitados na formatação, adivinhe: os mais importantes
para repensar a realidade e o negócio.
Eu pergunto para que fazer uma reunião sobre o não-avanço da
organização?
Não é a toa que crescem no mercado consultores vazios. Quem
não tem senso crítico não agrega valor, e também não questiona. E o não
questionamento favorece a quem? Aos profissionais que defendem seu emprego, seu
status e sua posição com todos os meios menos a competência que se espera deles
por definição: gerentes existem para implantar mudanças!
Vivemos num universo de equipes de talento sufocadas por
gerências incompetentes. Alguém que não sabe lidar com pessoas e processos não
pode ser um gerente; alguém que acredita que mudança é algo que ocorre a sua
revelia e sem sua visceral participação, não serve para gerenciar processos e
pessoas.
Uma grande parte da classe gerencial está se defendendo
muito e produzindo pouco. Está na hora da meritocracia sair do papel e ganhar o
mundo real e, para nosso bem é bom que ela comece pela classe gerencial. Digo
isto em nome de todo os profissionais altamente competentes que conheço em
empresas engessadas por profissionais parasitários que não fazem jus ao seu
cargo, remuneração e oportunidade. Se queremos mudar o Brasil e as empresas que
aqui atuam, temos que começar mudando a classe à qual cabe a estruturação das
tarefas que permitirão a mudança. O resto é discurso vazio e empresas não vivem
de discursos, vivem de resultados.
Fonte
HILSDORF,
Carlos. A crise gerencial brasileira.
Disponível em: <http://www.sobreadministracao.com/a-crise-gerencial-brasileira/>.
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