por Pedro Jorge B. F. Lima
Discorrer
sobre a importância econômica, social, política e cultural da indústria
algodoeira para a humanidade, é inteiramente desnecessário, quando estou aqui
para falar para uma platéia constituída por especialistas em diversos aspectos
da cadeia produtiva do algodão.
Minha
pretensão é enfocar as bases técnicas da produção do algodão orgânico, com base
na experiência hoje existente em vários países, tratar dos aspectos legais
envolvidos no processo de certificação, e tocar, en passant, na
industrialização e mercado desse importante produto, de forma bem mais
superficial, tendo em vista o próprio estado da arte.
Antes
de mais nada, quero explicitar as razões da minha vinculação com essa temática,
na qualidade de técnico do ESPLAR, uma ONG situada em Fortaleza, com 21 anos de
atuação junto aos pequenos produtores rurais do semi-árido cearense. Desde 1990
coordeno um projeto de pesquisa e desenvolvimento, do qual participam vários
agricultores, denominado “Manejo ecológico do algodoeiro mocó (Gossypium hirsutum marie galante Hutch)
, visando a convivência produtiva com o bicudo (Anthonomus grandis Boheman)”.
Por
esse caminho, em 1992 fomos procurados pela Greenpeace do Rio de Janeiro,
consultando-nos sobre a possibilidade de fornecimento de “algodão ecológico”
àquela instituição, destinado à fabricação de camisetas “orgânicas”. Desde então
me envolvi com esse assunto, sempre na busca de oferecer às organizações de
pequenos produtores com quem trabalhamos, as informações indispensáveis para
que venham a se inserir no mercado do algodão orgânico.
Em
1993 e 1994, uma associação de pequenos produtores do município de Tauá, a
ADEC, forneceu um (pequeno) volume de 10 toneladas de algodão “limpo” à
Filobel, uma indústria têxtil de Jundiaí-SP, com o qual foram fabricadas
camisetas para a Greenpeace.
Agricultura orgânica e
algodão orgânico
A
modernidade, o progresso, a ciência e a tecnologia revolucionaram a vida da
humanidade, mas resultaram em produtos inesperados: incerteza, insegurança e
riscos. Os riscos produzidos se explicitaram com muita clareza na relação do
homem com a natureza.
O
homem moderno se habituou a tratar recursos naturais finitos como se fossem
infinitos e a utilizar um verdadeiro arsenal de produtos químicos sintetizados
em inúmeras atividades provocando assim
profundos desequilíbrios nos mais diferentes pontos do planeta.
Vejamos,
então, como esses riscos produzidos têm se expressado num contexto que nos é
familiar: o da cultura do algodão.
O
uso intensivo de fertilizantes químicos, inseticidas, fungicidas e
desfolhantes, resulta, em geral, em elevados níveis de poluição, que atingem o
solo, as fontes d’água, o ar e causam enormes prejuízos à saúde humana e animal
e, não raro, casos de envenenamento e morte. Isto cresce de importância, quando
consideramos que a superfície ocupada pelo algodão, no mundo, supera os 32
milhões de hectares e seu cultivo emprega cerca de 13 milhões de trabalhadores
(WEBER).
Vale
lembrar que, entre 1983 e 1994, o algodão consumiu em torno 10,2 a 12% dos
pesticidas vendidos no mundo, com valores estimados entre 1,3 e 2,9 bilhões de
dólares (COTTON FACTS).Essa pesada utilização de produtos químicos, em
diferentes países onde a cultura algodoeira tem importância econômica, tem
resultado em inúmeros e conhecidos casos de desastres ambientais (WEBER).
Os
exemplos desses graves acidentes são inúmeros, como no Imperial Valley, na
Califórnia; no Rio Grande Valley, no Texas; no Vale do Cañete, no Peru ou no
Ord River Valley, na Austrália, dentre outros (WEBER).
Lembraremos,
de passagem, o tão conhecido desastre ecológico ocorrido no Mar de Aral, no
Usbekistão, onde o plantio de milhares e
milhares de hectares de algodão, sob regime de irrigação, nas margens do rio Amou-Daria, provocou um
verdadeiro caos em um período de 30 anos (THALASSA). O emprego sistemático da irrigação em uma
enorme área diminuiu, de forma drástica, a alimentação desse mar. Sua
superfície se reduziu de 67.388 km2 em 1960, para 39.388 km2, em 1990, e suas
margens recuaram dezenas de quilômetros, desorganizando a navegação, desativando
portos e praticamente extingüindo a pesca, que era de 40 a 50 mil
toneladas/ano. As águas de irrigação, uma vez drenadas, carrearam para o mar,
pesadas cargas de resíduos químicos: fertilizantes, inseticidas, herbicidas e
desfolhantes. As tempestades não são mais absorvidas pelo mar e espalham poeira
contaminada por sal e pesticidas, tornando o ar irrespirável para os 3.000.000
de habitantes da Região. As conseqüências são muito graves: em Karakalpakistan,
87% das mulheres e 60% dos homens estão doentes. A expectativa de vida caiu
para menos de 50 anos. Das 178 espécies animais antes existentes, 140 já
desapareceram etc... etc... etc. (WEBER) e (THALASSA)
Quantos
dos presentes também foram testemunhas oculares do apogeu e declínio do cultivo
do algodão em diferentes áreas do Brasil, deixando para trás um rastro de
mazelas e desequilíbrios ambientais?
As
conseqüências ambientais, produzidas por um tipo de relação predatória entre o
homem e a natureza fizeram emergir as
preocupações do homem contemporâneo com a qualidade de vida, gerando uma
consciência da necessidade de preservação ambiental, de modo que as gerações
atuais possam atender as suas necessidades sem impedir que as gerações futuras
supram as suas próprias (GARFORTH). Deste modo, emerge como proposta dos anos
90 a idéia de desenvolvimento sustentável.
A virada do século está marcada por esta preocupação, explicitando-se
concretamente no modo de lidar com os recursos naturais ainda existentes.
O
conceito de Desenvolvimento Sustentável, incluindo as preocupações com a
preservação dos recursos naturais, abrange, também, questões econômicas,
sociais e institucionais (GARFORTH).
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