terça-feira, 28 de agosto de 2012

ALGODÃO ORGÂNICO: BASES TÉCNICAS DA PRODUÇÃO, CERTIFICAÇÃO, INDUSTRIALIZAÇÃO E MERCADO

por Pedro Jorge B. F. Lima

Discorrer sobre a importância econômica, social, política e cultural da indústria algodoeira para a humanidade, é inteiramente desnecessário, quando estou aqui para falar para uma platéia constituída por especialistas em diversos aspectos da cadeia produtiva do algodão.

Minha pretensão é enfocar as bases técnicas da produção do algodão orgânico, com base na experiência hoje existente em vários países, tratar dos aspectos legais envolvidos no processo de certificação, e tocar, en passant, na industrialização e mercado desse importante produto, de forma bem mais superficial, tendo em vista o próprio estado da arte.

Antes de mais nada, quero explicitar as razões da minha vinculação com essa temática, na qualidade de técnico do ESPLAR, uma ONG situada em Fortaleza, com 21 anos de atuação junto aos pequenos produtores rurais do semi-árido cearense. Desde 1990 coordeno um projeto de pesquisa e desenvolvimento, do qual participam vários agricultores, denominado “Manejo ecológico do algodoeiro mocó (Gossypium hirsutum marie galante Hutch) , visando a convivência produtiva com o bicudo (Anthonomus grandis Boheman)”.

Por esse caminho, em 1992 fomos procurados pela Greenpeace do Rio de Janeiro, consultando-nos sobre a possibilidade de fornecimento de “algodão ecológico” àquela instituição, destinado à fabricação de camisetas “orgânicas”. Desde então me envolvi com esse assunto, sempre na busca de oferecer às organizações de pequenos produtores com quem trabalhamos, as informações indispensáveis para que venham a se inserir no mercado do algodão orgânico.

Em 1993 e 1994, uma associação de pequenos produtores do município de Tauá, a ADEC, forneceu um (pequeno) volume de 10 toneladas de algodão “limpo” à Filobel, uma indústria têxtil de Jundiaí-SP, com o qual foram fabricadas camisetas para a Greenpeace.

 

Agricultura orgânica e algodão orgânico

 

A modernidade, o progresso, a ciência e a tecnologia revolucionaram a vida da humanidade, mas resultaram em produtos inesperados: incerteza, insegurança e riscos. Os riscos produzidos se explicitaram com muita clareza na relação do homem com a natureza.

O homem moderno se habituou a tratar recursos naturais finitos como se fossem infinitos e a utilizar um verdadeiro arsenal de produtos químicos sintetizados em inúmeras  atividades provocando assim profundos desequilíbrios nos mais diferentes pontos do planeta.

Vejamos, então, como esses riscos produzidos têm se expressado num contexto que nos é familiar: o da cultura do algodão.

O uso intensivo de fertilizantes químicos, inseticidas, fungicidas e desfolhantes, resulta, em geral, em elevados níveis de poluição, que atingem o solo, as fontes d’água, o ar e causam enormes prejuízos à saúde humana e animal e, não raro, casos de envenenamento e morte. Isto cresce de importância, quando consideramos que a superfície ocupada pelo algodão, no mundo, supera os 32 milhões de hectares e seu cultivo emprega cerca de 13 milhões de trabalhadores (WEBER).

Vale lembrar que, entre 1983 e 1994, o algodão consumiu em torno 10,2 a 12% dos pesticidas vendidos no mundo, com valores estimados entre 1,3 e 2,9 bilhões de dólares (COTTON FACTS).Essa pesada utilização de produtos químicos, em diferentes países onde a cultura algodoeira tem importância econômica, tem resultado em inúmeros e conhecidos casos de desastres ambientais (WEBER).

Os exemplos desses graves acidentes são inúmeros, como no Imperial Valley, na Califórnia; no Rio Grande Valley, no Texas; no Vale do Cañete, no Peru ou no Ord River Valley, na Austrália, dentre outros (WEBER).

Lembraremos, de passagem, o tão conhecido desastre ecológico ocorrido no Mar de Aral, no Usbekistão, onde  o plantio de milhares e milhares de hectares de algodão, sob regime de irrigação, nas  margens do rio Amou-Daria, provocou um verdadeiro caos em um período de 30 anos (THALASSA).  O emprego sistemático da irrigação em uma enorme área diminuiu, de forma drástica, a alimentação desse mar. Sua superfície se reduziu de 67.388 km2  em 1960, para 39.388 km2, em 1990, e suas margens recuaram dezenas de quilômetros, desorganizando a navegação, desativando portos e praticamente extingüindo a pesca, que era de 40 a 50 mil toneladas/ano. As águas de irrigação, uma vez drenadas, carrearam para o mar, pesadas cargas de resíduos químicos: fertilizantes, inseticidas, herbicidas e desfolhantes. As tempestades não são mais absorvidas pelo mar e espalham poeira contaminada por sal e pesticidas, tornando o ar irrespirável para os 3.000.000 de habitantes da Região. As conseqüências são muito graves: em Karakalpakistan, 87% das mulheres e 60% dos homens estão doentes. A expectativa de vida caiu para menos de 50 anos. Das 178 espécies animais antes existentes, 140 já desapareceram etc... etc... etc. (WEBER) e (THALASSA)

Quantos dos presentes também foram testemunhas oculares do apogeu e declínio do cultivo do algodão em diferentes áreas do Brasil, deixando para trás um rastro de mazelas e desequilíbrios ambientais?

As conseqüências ambientais, produzidas por um tipo de relação predatória entre o homem e a natureza  fizeram emergir as preocupações do homem contemporâneo com a qualidade de vida, gerando uma consciência da necessidade de preservação ambiental, de modo que as gerações atuais possam atender as suas necessidades sem impedir que as gerações futuras supram as suas próprias (GARFORTH). Deste modo, emerge como proposta dos anos 90 a idéia de desenvolvimento sustentável.  A virada do século está marcada por esta preocupação, explicitando-se concretamente no modo de lidar com os recursos naturais ainda existentes.

O conceito de Desenvolvimento Sustentável, incluindo as preocupações com a preservação dos recursos naturais, abrange, também, questões econômicas, sociais e institucionais (GARFORTH).

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