O economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, recentemente vaticinou que a estagnação da economia mundial deverá se prolongar por dez anos. Essa previsão, evidentemente, não foi feita por cartomantes, mas resulta do modelo econométrico de longo prazo utilizado pelo FMI. Keynes talvez repetisse uma de suas célebres frase: “No longo prazo, todos estaremos mortos” [A Tract on Monetary Reform]. Se considerarmos essa previsão como antecipação do futuro de facto, todos precisarão fazer algumas escolhas durante a travessia entre o presente e o futuro, isto é, o que fazer no curto prazo? Nesse cenário, o comportamento de alguns personagens deve ser observado com especial atenção.
Os governos, por exemplo, terão que ajustar suas finanças e seus gastos às agruras do baixo crescimento da economia. Portanto, deveremos acreditar ainda menos nas promessas políticas e mais na austeridade e eficiência administrativa como alternativa para atenuar a escassez de recursos. Acontece que os eleitores, com poucas exceções, preferem governos gastadores, pois nunca pensam que a conta será rateada entre eles próprios e seus descendentes. Ao invés da profusão de obras eleitoreiras e do empreguismo, os governos talvez se dediquem mais a qualificar e controlar seus gastos, pois terão menos dinheiro para inventar projetos e programas excessivamente criativos. Como descobriram os faraós, excesso de criatividade termina em retumbante fracasso.
Os investidores com faro apurado continuarão à procura de novas oportunidades de negócios, em meio a um ambiente pouco promissor. As disputas entre eles não serão fraternais: alguns serão derrotados e outros vitoriosos. A seleção natural poderá produzir uma nova geração de empreendedores ─ testados e aprovados ─ que não apenas sobreviverão, mas criarão riqueza durante a lenta travessia rumo à recuperação da economia mundial. No day after, os que emergirem da crise com solidez em seus negócios serão coroados no reino do capital.
Os consumidores, em boa parte do mundo, já refizeram seus planos de consumo, que passaram a levar em conta incrementos marginais na renda e probabilidades, em alguns casos, crescentes, de desemprego. Em outros países, os consumidores mantém imperturbável sorriso, comum aos que estão prestes a entrar no paraíso. Para eles, nada mudou. É, pode ser, quem viver verá, mas terá que esperar dez anos para ver quem tem razão. Como diria Shakespeare: consumir ou não consumir, eis a questão!
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