BRANDÃO, Carlos. Território e Desenvolvimento:
as múltiplas escalas entre o local e o global. São Paulo: Editora da Unicamp,
2007.
As transformações ocorridas no Brasil nos anos 1980 e 1990, tais
como o processo de redemocratização do país, a descentralização fiscal e o
reconhecimento dos municípios como entes federativos, a partir da Constituição
Federal de 1988, aliadas ao aumento das desigualdades estruturais internas nas
diversas porções do território nacional fazem emergir novas formas de pensar e
agir no campo das políticas públicas.
Nesse contexto, e como reflexo dele, as políticas públicas,
especialmente aquelas destinadas à promoção do desenvolvimento, outrora
caracterizadas pelo centralismo financeiro e decisório no plano federal, passaram
a ser mais descentralizadas, ou seja, deixaram de ser formuladas de cima para
baixo, com base no planejamento nacional, e passaram a se originar nos planos
regional e local. Isto implica dizer que o enfoque sobre a dimensão territorial
ou escala espacial para a concepção e implementação de políticas e programas de
desenvolvimento passa, principalmente, para o plano local.
Se por um lado houve a revalorização do território e da dimensão
espacial do desenvolvimento, notadamente a local, por outro parece ter se
consolidado uma visão cega, uma espécie de romantismo ou "pensamento único
localista" (p. 36). Verifica-se, assim, uma concepção do local como espaço
privilegiado de intervenção política para a solução de todas as mazelas
socioeconômicas, em detrimento das demais escalas territoriais. É como se o
local tudo pudesse, "dependendo de sua vontade de auto-impulso" (p.
39) para promover um virtuoso processo desenvolvimento.
À concepção localista sobre o desenvolvimento complementam-se as
idéias de inserção dos espaços locais ao espaço econômico global, engendrando a
polarização local-global desse processo. Nessa lógica, as escalas
intermediárias entre o local e o global - microrregional, mesorregional,
macrorregional e nacional - são desconsideradas ou perdem importância na
articulação para a promoção do desenvolvimento.
Recorrendo à história - e interrogando-a, conforme defendia Celso
Furtado - para compreender a formação espacial brasileira, as heterogeneidades
e vulnerabilidades estruturais e o processo que fez do Brasil um país
subdesenvolvido, Brandão afirma que o país só sairá dessa condição de
malformação estrutural a partir da construção de uma política nacional de
desenvolvimento, apontando, ainda, para as limitações das abordagens excessivamente
localistas e endogenistas para esse fim. Faz-se necessário reconstruir a escala
nacional, elaborando, contudo, políticas públicas e ações transversais nas
demais escalas, que deverão ser devidamente articuladas e integradas pelo
Estado para a efetivação de um projeto de desenvolvimento, levando-se em
consideração as peculiaridades de cada porção do território brasileiro, a
diversidade e as assimetrias existentes entre elas.
Nesse sentido, Brandão propõe uma abordagem transescalar do
desenvolvimento, que pode ser concretizada, na prática, por meio da
consolidação de um novo pacto federativo entre os níveis de governo. Assim,
busca-se "articular horizontalmente os atores institucionais de uma mesma
região e integrar verticalmente as diferentes escalas político-administrativas"
(p. 209), de forma que viabilize "modos de pensar e agir capazes de
produzir e-fetivas transformações das estruturas sociais, em todas as
escalas" (GOULART, VIEIRA E CARVALHO, 2005, p. 70).
O maior desafio das políticas públicas nacionais de
desenvolvimento parece ser, portanto, consolidar a "descentralização
coordenada", considerando as múltiplas escalas e evitando a atomização das
ações (BACELAR, 2006), pautando-se numa "combinação de relações
geográficas verticais e horizontais" (SAQUET, 2007, p. 112) para alargar
os horizontes de possibilidades dos cidadãos brasileiros, promover inclusão
social, reduzir as desigualdades estruturais internas, ativar as
potencialidades da diversidade social, econômica e cultural do território e
reduzir o grau de dependência externa do país.
É preciso, portanto, um novo modelo de desenvolvimento nacional,
considerando e trabalhando conjuntamente e de forma articulada as escalas
local, microrregional, marcrorregional e nacional, que nas últimas décadas vêm
sendo esquecidas pela literatura e pelos formuladores de políticas públicas,
sem, contudo, perder de vista a integração do país à escala global. Essa parece
ser a melhor maneira, segundo Brandão, de darmos continuidade à construção do
Brasil, que há muito tempo foi interrompida, para que assim tenhamos um novo e
promissor amanhecer.
Carlos Brandão, por meio de sua obra, aponta para a possibilidade
de um verdadeiro projeto de nação, a partir da discussão sobre território e das
potencialidades da formulação de uma política pública nacional de
desenvolvimento. O livro constitui-se em uma referência indispensável para
alunos e pesquisadores de Administração Pública, bem como para os formuladores
de políticas públicas brasileiros.
Referências
BACELAR, Tânia. Desenvolvimento regional: a descentralização
valorizaria a diversidade. In: FLEURY, S. (Org.). Democracia, descentralização
e desenvolvimento: Brasil & Espanha. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006.
[ Links ]
GOULART, Sueli; VIEIRA, Marcelo M. F.; CARVALHO, Cristina A.
Universidades e desenvolvimento local: uma abordagem institucional. Porto
Alegre: Sagra Luzzatto, 2005.
[ Links ]
SAQUET, M. A. Abordagens e concepções sobre território. São Paulo:
Expressão Popular, 2007.
[ Links ]
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