quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Da “vadiagem” ao fascismo em rede: o ataque à UFRN, o ódio ao conhecimento e a política do medo

 

O episódio protagonizado por General Girão na Universidade Federal do Rio Grande do Norte não representa uma simples divergência entre direita e esquerda. As acusações contra estudantes, o confronto físico e a utilização política das imagens levantam uma questão mais profunda: estamos diante de mais um capítulo da ofensiva da extrema direita contra a universidade pública, sua autonomia e seu papel na formação do pensamento crítico?

Uma universidade transformada em palco de confronto

No dia 19 de outubro de 2026, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, tornou-se cenário de um confronto entre participantes de uma manifestação de extrema direita e estudantes que se opunham ao ato.

A manifestação, intitulada “Vire à direita: UFRN anti-Lula”, contou com a participação do deputado federal General Girão (PL-RN), da vereadora Camila Araújo (PL) e de outras lideranças conservadoras. O evento terminou em tumulto, com empurrões, agressões físicas, danos patrimoniais e estudantes feridos.

Mas o episódio não se resume à violência física.

Em entrevista posterior, Girão afirmou que estudantes da universidade promoviam “baderna” e vendiam drogas, classificou universitários que demoram a concluir seus cursos como “estudantes profissionais” e acusou a segurança do campus de ter sido “fraca, omissa e talvez até conivente”. Segundo reportagem do Saiba Mais, o deputado não apresentou provas que sustentassem suas acusações contra os estudantes.

Reportagem: Saiba Mais - Sem provas, Girão acusa alunos da UFRN de tráfico e segurança de omissão.

A questão torna-se ainda mais relevante diante das declarações atribuídas ao parlamentar no vídeo divulgado pelo Blog do Barreto, no qual ele associa a UFRN à “vadiagem”, à “embromação”, ao tráfico de drogas e ao consumo de entorpecentes.

Essas expressões não se confundem com uma simples cobrança por melhorias na segurança ou na administração universitária. Quando utilizadas para caracterizar genericamente o ambiente acadêmico, tais declarações podem funcionar como instrumentos de desqualificação da instituição e de seus integrantes.

As falas atribuídas ao deputado Girão depreciam todos que trabalham ou estudam naquele ambiente.

É necessário distinguir, evidentemente, a crítica legítima à universidade de uma acusação generalizada contra sua comunidade. Denúncias de tráfico devem ser investigadas quando existirem elementos concretos. Não é razoável, porém, transformar suspeitas não demonstradas em uma caracterização de estudantes (ou servidores) como criminosos.

A liberdade de expressão protege o direito de um deputado criticar a universidade, o governo federal e os movimentos estudantis, mas não torna suas afirmações imunes ao escrutínio público, nem elimina eventuais responsabilidades por abusos.

Parece óbvio que se faz necessária uma investigação sobre o ato ocorrido na UFRN e, principalmente, sobre a fala do deputado em relação a suposta ocorrência de tráfico de drogas naquele espaço em que proferiu as acusações.

A provocação não é um detalhe: é parte do problema

A análise do episódio precisa considerar a natureza das declarações, o local em que foram proferidas e o contexto de confronto em que ocorreram.

Afirmar que determinada política universitária é inadequada é uma coisa. Associar a instituição, de maneira generalizada, à vadiagem e ao tráfico de drogas é outra bem diferente.

No segundo caso, o discurso deixa de se concentrar em problemas específicos e passa a desqualificar um ambiente inteiro. A universidade aparece não como uma instituição com problemas passíveis de investigação e correção, mas como um espaço supostamente degenerado, onde a atividade acadêmica seria pretexto para comportamentos ilícitos.

O deputado sabe que essa representação pode produzir efeitos políticos importantes: reforça preconceitos contra estudantes, alimenta a desconfiança em relação à universidade pública e transforma uma instituição de ensino, pesquisa e extensão em alvo de hostilidade.

O contexto agrava a preocupação. As declarações foram associadas a uma manifestação de oposição ao governo Lula, realizada dentro do campus e contestada por estudantes, que estavam em seu horário regular de aulas. O deputado sabe (ou deveria saber) que em um ambiente já polarizado, expressões depreciativas e acusações criminais sem sustentação apresentada podem contribuir para acirrar os ânimos.

Isso não significa atribuir automaticamente ao deputado a responsabilidade por todas as agressões que ocorreram. Tampouco significa justificar a violência praticada por estudantes ou por qualquer outro participante.

Significa reconhecer que a provocação política deve ser examinada como parte da sequência dos acontecimentos, e não descartada como um elemento irrelevante diante da violência física.

A investigação precisa esclarecer quem iniciou as agressões, quais foram as condutas individuais, se houve ameaças ou estímulo à hostilidade e como as declarações e as reações se sucederam.

O debate democrático exige que a liberdade de expressão não seja utilizada como justificativa automática para práticas de intimidação ou para acusações graves sem fundamento verificável. O ônus da prova recai sobre quem acusa. Cabe ao deputado apresentar as provas que dispõe sobre as práticas de vadiagem e tráfico de drogas, bem como indicar os servidores públicos que sabem e, supostamente, toleram essas práticas.

O ataque à universidade e a tradição do anti-intelectualismo

O episódio da UFRN ganha outra dimensão quando analisado à luz de uma tendência documentada no Brasil e em outros países: a deslegitimação das universidades por setores autoritários e da extrema direita.

Em maio de 2025, o Jornal da Unicamp publicou a reportagem “Ataques às universidades expõem ‘ódio ao conhecimento’”. O texto reuniu exemplos de ataques à autonomia universitária, campanhas de descredibilização, ameaças, vandalismo e tentativas de intimidar estudantes e docentes.

A publicação recuperou também análises sobre a deterioração das condições institucionais das universidades brasileiras durante o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, incluindo iniciativas que atingiram a autonomia e a imagem das instituições federais.

Leia: Jornal da Unicamp - Ataques às universidades expõem “ódio ao conhecimento”.

Em julho de 2026, Bruno Ciorlia Nascimento e Marcelo de Trói, pesquisadores vinculados à Universidade de São Paulo, publicaram no Jornal da USP uma análise intitulada “O que está por trás do ataque da extrema direita às universidades públicas?”.

Os autores examinam invasões à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ocorridas em 2025, e discutem como determinadas ações podem ser organizadas como performances políticas: o confronto é registrado, transformado em conteúdo audiovisual e disseminado nas redes sociais para produzir visibilidade, indignação e engajamento.

Os pesquisadores relacionam esse fenômeno ao anti-intelectualismo e à circulação digital de discursos autoritários. Em sua interpretação, as universidades são alvos porque representam espaços de produção de conhecimento, pluralidade e contestação de crenças e hierarquias estabelecidas.

Leia: Jornal da USP - O que está por trás do ataque da extrema direita às universidades públicas?.

Essa literatura oferece uma chave de interpretação para o episódio potiguar

O discurso que apresenta a universidade como lugar de “vadiagem”, “embromação” e “tráfico de drogas” pode ser examinado como parte de uma retórica anti-intelectualista, sobretudo quando desqualifica a instituição de maneira abrangente e sem apresentar evidências para as acusações.

É importante não confundir essa interpretação com uma conclusão automática sobre as intenções pessoais de Girão. O enquadramento do discurso como anti-intelectualista é uma hipótese analítica sustentada por suas características e pelo contexto político, obviamente não é uma prova de que o deputado tenha planejado deliberadamente um ataque à produção científica.

A pergunta pertinente é: quando a universidade é apresentada sistematicamente como um ambiente de corrupção moral, doutrinação ou criminalidade, quais são as consequências para sua legitimidade perante a sociedade?

Uma das consequências possíveis é que o debate sobre problemas reais do ensino superior seja substituído por uma campanha de desconfiança contra a própria instituição ou, de maneira mais abrangente, contra a educação superior pública.

Além de tentar descredibilizar toda a comunidade acadêmica da UFRN é defensável supor que o deputado Girão, a vereadora Camila e demais organizadores, escolheram aquele local para externarem o ódio contra a educação pública.

O que significa chamar esse fenômeno de fascismo?

O emprego da palavra “fascismo” exige rigor conceitual. Nem todo conservadorismo é fascismo; nem toda manifestação agressiva da direita pode ser automaticamente classificada dessa maneira.

O fascismo histórico foi marcado, entre outros aspectos, pelo ultranacionalismo autoritário, pela rejeição do pluralismo democrático, pela mobilização política de massas, pela construção de inimigos internos e pela legitimação da violência contra adversários.

As experiências fascistas também foram acompanhadas por ataques à liberdade intelectual, à autonomia das instituições e à produção cultural e científica que contrariavam seus projetos políticos.

Na atualidade, pesquisadores utilizam conceitos como neofascismo, extrema direita autoritária e fascismo em rede para examinar fenômenos contemporâneos que apresentam algumas dessas características, embora existam diferenças históricas importantes.

No artigo publicado em julho de 2026, os pesquisadores Bruno Ciorlia Nascimento e Marcelo de Trói empregam a ideia de “fascismo em rede” para interpretar determinadas performances políticas da extrema direita nas universidades. A expressão se refere à articulação entre discursos autoritários, ações de confronto e sua circulação nas plataformas digitais.

O conceito é útil para pensar o caso da UFRN, mas não autoriza uma conclusão automática sobre cada participante do ato ou sobre a existência de uma organização fascista coordenando todos os episódios.

A questão é saber se determinadas práticas apresentam características recorrentes: deslegitimação do conhecimento, hostilidade à pluralidade, construção de adversários como inimigos, intimidação e utilização de confrontos para alimentar a mobilização política.

Se essas características aparecem de forma consistente, o debate sobre autoritarismo e fascismo deixa de ser apenas uma disputa de rótulos e passa a ser uma investigação sobre práticas concretas.

No caso da UFRN, a associação genérica da universidade à criminalidade, a desqualificação dos estudantes e o confronto que se seguiu justificam examinar essa hipótese, sem antecipar conclusões que dependam de outras evidências.

Do discurso da “balbúrdia” à desqualificação dos estudantes

A história recente oferece outro elemento de comparação: o discurso sobre a suposta “balbúrdia” nas universidades federais durante o governo Bolsonaro.

Em 2019, declarações de integrantes do governo associaram universidades a comportamentos inadequados e questionaram a qualidade de suas atividades. O debate ocorreu em paralelo a controvérsias sobre cortes e contingenciamentos orçamentários, autonomia institucional e financiamento da educação superior.

A crítica à qualidade do ensino e à aplicação dos recursos públicos é legítima. O problema surge quando episódios isolados são generalizados para caracterizar toda uma instituição ou quando a desqualificação pública se converte em justificativa para enfraquecer sua autonomia.

A semelhança com o episódio da UFRN está na construção discursiva de um ambiente acadêmico supostamente improdutivo, moralmente suspeito ou dominado por interesses políticos ilegítimos.

No caso atual, a referência a estudantes que permaneceriam por muito tempo na universidade, associada à acusação de venda de drogas, cria uma narrativa na qual a permanência estudantil aparece vinculada à improdutividade e à criminalidade.

Mas estudantes podem demorar a concluir seus cursos por diferentes razões: trabalho, dificuldades financeiras, responsabilidades familiares, problemas de saúde, deficiências na oferta de disciplinas ou outras circunstâncias. A permanência prolongada não constitui evidência de tráfico ou de qualquer outro crime.

Se existem problemas de evasão, retenção ou segurança, cabe à universidade produzir diagnósticos e adotar medidas fundamentadas. A generalização depreciativa não substitui a investigação.

A universidade pública deve ser cobrada por resultados, transparência e qualidade. Mas a cobrança responsável começa pelo conhecimento dos fatos, e não pela desqualificação de seus estudantes ou servidores.

A violência física e o espetáculo digital

O confronto na UFRN também precisa ser analisado sob a perspectiva da comunicação política contemporânea.

A reportagem da Tribuna do Norte descreveu o ato, a reação dos estudantes, os empurrões, os danos ao patrimônio e os ferimentos registrados durante o tumulto. O Saiba Mais relatou as acusações posteriores de Girão contra estudantes e a segurança universitária.

Fontes:

As imagens de confronto podem adquirir vida própria nas redes sociais. Um acontecimento complexo, com diferentes participantes e responsabilidades, é frequentemente condensado em vídeos curtos, títulos provocativos e narrativas que apresentam um grupo como vítima absoluta e o outro como inimigo.

Essa dinâmica pode favorecer a circulação de conteúdos que provocam indignação, reforçam identidades políticas e mobilizam apoiadores. Os pesquisadores da USP identificaram mecanismos semelhantes na análise de invasões à FFLCH-USP.

Isso levanta uma questão importante: uma manifestação pode ser pensada não apenas para transmitir uma mensagem aos presentes, mas também para produzir imagens destinadas a circular posteriormente nas redes?

A resposta é sim, essa é uma possibilidade conhecida na comunicação política digital. Mas, no caso específico da UFRN, seria necessário examinar os registros, as publicações dos organizadores, os materiais de convocação e a sequência dos acontecimentos para concluir se houve planejamento dessa natureza.

É claro que o fato de um vídeo ser publicado ou viralizar não prova que o confronto tenha sido provocado deliberadamente para gerar engajamento dos “convertidos”.

Por outro lado, a possibilidade de transformar conflitos em conteúdo político é uma razão adicional para investigar se os organizadores adotaram comportamentos que aumentaram a tensão ou buscaram produzir cenas de confronto.

A análise deve considerar não apenas o que ocorreu diante das câmeras, mas também como o episódio foi narrado e explorado depois.

Cabem a Polícia Federal e ao MPF a adoção das providências cabíveis para apuração e, eventual, responsabilização dos envolvidos.

A política do medo: mobilização ou intimidação?

A referência à estratégia do medo atribuída a Pablo Marçal acrescenta uma dimensão relevante à discussão.

Segundo a informação do Portal G1, Marçal teria orientado cerca de 300 influenciadores digitais, em um evento de campanha ao lado de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, a utilizar o medo como recurso de mobilização e comunicação eleitoral.

A recomendação de utilizar o medo na comunicação política não demonstraria, por si só, qualquer vínculo operacional com o ato da UFRN. De novo, cabe aos órgãos responsáveis a apuração dos fatos.

O medo é um recurso recorrente na política. Pode ser mobilizado por discursos sobre insegurança, perda de direitos, ameaças econômicas, mudanças culturais ou riscos atribuídos a adversários.

O problema democrático aparece quando a comunicação passa a construir grupos inteiros como ameaças, dissemina acusações não comprovadas ou transforma a hostilidade contra adversários em elemento central da mobilização.

No ambiente universitário, a associação genérica entre estudantes, drogas, desordem e improdutividade pode contribuir para criar uma imagem de perigo moral e social. Quando combinada com manifestações de confronto, essa representação pode aumentar a tensão e alimentar a polarização.

É necessário, porém, distinguir três hipóteses:

  • Mobilização pelo medo: utilizar ameaças percebidas para atrair apoiadores e reforçar a identidade de um grupo.
  • Intimidação política: adotar comportamentos que possam constranger ou desencorajar a participação de adversários.
  • Provocação deliberada de violência: planejar ou estimular um confronto físico.

Essas situações não são equivalentes e exigem evidências diferentes.

A análise do episódio da UFRN pode investigar se o discurso contribuiu para intimidar estudantes ou intensificar o conflito. A hipótese de que os organizadores pretendiam provocar agressões requer provas adicionais, como mensagens, orientações ou registros de planejamento. Algo que não seria tão difícil de comprovação a partir de uma investigação policial.

Há um movimento coordenado contra universidades?

O episódio da UFRN não deve ser analisado isoladamente, mas, por prudência, não pode ser automaticamente inserido em uma suposta operação nacional sem investigação.

O Jornal da Unicamp documentou episódios de ataques, vandalismo e ameaças em diferentes instituições, incluindo a Universidade de Brasília e a própria Unicamp. O artigo da USP, por sua vez, examinou ações de grupos da extrema direita na FFLCH-USP e sua repercussão digital.

Esses registros permitem identificar um fenômeno mais amplo de hostilidade contra universidades públicas. Não demonstram, por si só, que todos os episódios foram planejados por uma mesma organização.

No Rio Grande do Norte, a ocorrência de conflitos ou tentativas de intimidação em mais de uma instituição federal justifica investigar eventuais conexões entre os acontecimentos.

Para demonstrar coordenação, seria necessário comparar:

  • os organizadores e os grupos políticos envolvidos;
  • as datas e os métodos de convocação;
  • os materiais de divulgação e as mensagens utilizadas;
  • a participação de lideranças comuns;
  • as orientações eventualmente compartilhadas;
  • a utilização das imagens dos episódios nas redes sociais.

A existência de discursos semelhantes pode indicar circulação de repertórios políticos, embora não seja comprovação da existência de um comando central.

Também é preciso evitar atribuir a todos os integrantes de um partido ou campo ideológico a responsabilidade pelas ações de determinados participantes.

A questão central é verificar se há uma combinação recorrente de deslegitimação da universidade, provocação, intimidação e exploração digital dos conflitos – e se existem evidências de que essas práticas estão conectadas.

A recorrência e até a escalada dos episódios requerem atuação firme das autoridades competentes. Episódios em São Paulo, Rio de Janeiro, Roraima, Paraíba, Rio Grande do Norte etc., precisam de investigações específicas, mas também de atuação ampla, pois uma suposta conexão não pode ser descartada de antemão.

O orçamento: uma forma menos visível de enfraquecer a universidade

Os ataques às universidades não se limitam a manifestações públicas, ameaças ou confrontos. Também é necessário discutir as condições materiais de funcionamento do ensino superior.

A pesquisa científica requer laboratórios, bibliotecas, equipamentos, bolsas, manutenção predial, contratação de pessoal e financiamento contínuo. A permanência estudantil depende de assistência, alimentação, moradia e outras políticas que permitam aos alunos concluir seus cursos.

Cortes e contingenciamentos podem comprometer essas atividades, sobretudo quando atingem despesas discricionárias essenciais ao funcionamento das instituições.

O Jornal da Unicamp documentou, em sua análise de 2025, tanto ataques discursivos quanto medidas institucionais que afetaram a autonomia universitária e as condições de pesquisa.

Para 2026, o Andes-SN também publicou uma análise sobre perdas orçamentárias das universidades federais e o crescimento dos recursos destinados a emendas parlamentares.

Fonte: Andes-SN - Orçamento de 2026: universidades perdem R$ 488 milhões enquanto recursos de emendas aumentam.

Quando campanhas de deslegitimação da universidade coincidem com decisões que reduzem sua capacidade de pesquisa, ensino e assistência estudantil, é necessário investigar os efeitos combinados dessas medidas. O enfraquecimento material das universidades pode reduzir sua capacidade de cumprir a missão pública, mesmo sem qualquer invasão ou confronto físico.

O poder político obtido pela extrema direita na Câmara dos Deputados e, mais ainda, no Senado Federal já sugere um cenário desafiador para as universidades públicas e a ciência brasileira no próximo quadriênio. O prognóstico se torna sombrio com a eleição de um presidente de extrema direita e o cenário de desmantelamento da universidade pública e da ciência brasileira totalmente plausível.

Defender a universidade, portanto, significa também defender financiamento adequado, autonomia acadêmica, transparência e avaliação pública de resultados.

Quais são as possíveis consequências jurídicas para General Girão?

A crítica política ao comportamento do deputado não deve ser confundida com uma condenação antecipada. Existem questões jurídicas concretas que merecem apuração.

Possível infração eleitoral

A realização de uma manifestação política em universidade pública não constitui automaticamente infração eleitoral. A liberdade de expressão e de reunião também protege atos críticos ao governo.

A análise deve considerar a finalidade eleitoral, a forma de utilização do espaço, eventuais irregularidades na propaganda e as circunstâncias do evento. A ADPF 548 do Supremo Tribunal Federal protege a liberdade de manifestação política nas universidades e impede que a legislação eleitoral seja utilizada como instrumento de censura. Assim, a existência de infração depende da análise dos fatos pelas autoridades competentes.

Crimes contra a honra

A imputação de tráfico de drogas a pessoas identificáveis pode suscitar investigação por calúnia, caso estejam presentes os requisitos legais, inclusive a atribuição falsa de fato definido como crime.

Outras declarações podem ser examinadas sob a perspectiva da difamação ou da injúria, conforme seu conteúdo, destinatários e contexto.

O fato de a acusação ter sido dirigida genericamente aos estudantes torna especialmente importante determinar se as pessoas supostamente atingidas são identificáveis ou determináveis. A apuração interna determinada pelo Reitor servirá para reunir mais elementos sobre os fatos e atos praticados na UFRN.

Incitação à violência

O artigo 286 do Código Penal trata da incitação pública à prática de crime. Uma declaração depreciativa ou provocativa não configura automaticamente esse delito. Não obstante, é necessário verificar se houve estímulo público à prática de uma conduta criminosa e/ou se o desfecho de confronto foi algo previamente planejado.

Dano moral coletivo

A responsabilidade civil pode ser discutida quando as declarações e condutas ultrapassam os limites legais da liberdade de expressão e produzem lesão juridicamente relevante a interesses coletivos.

Demonstrar os elementos da responsabilidade civil e identificar o interesse coletivo atingido não parecem aspectos tão complexos, inclusive pela abundância de material publicado nas redes sociais, declarações públicas e, provavelmente, pelo desfecho das apurações determinadas pelo Reitor da UFRN.

Quebra de decoro parlamentar

A representação apresentada ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados examinará a conduta de Girão à luz dos deveres inerentes ao mandato.

A presença no ato não constitui, isoladamente, quebra de decoro. Mas as declarações, a eventual participação na escalada do conflito e possíveis atos de intimidação podem ser relevantes para a avaliação disciplinar, caso comprovados e enquadrados nas normas aplicáveis.

Diferentemente do que parecem desejar os adeptos da extrema direita, a apuração deve observar o contraditório, a individualização das condutas e a proporcionalidade das eventuais sanções.

O que deve ser investigado?

Não restam dúvidas de que o caso exige uma apuração que não se limite à disputa sobre quem começou o confronto.

É necessário identificar os autores das agressões, esclarecer as circunstâncias dos ferimentos, verificar os danos ao patrimônio, analisar a atuação da segurança universitária etc., e, principalmente, as responsabilidades dos organizadores do ato.

Também é importante preservar e examinar os vídeos integrais, identificar as declarações efetivamente proferidas e verificar se houve ameaças, estímulo à hostilidade ou tentativas de impedir manifestações contrárias.

A Justiça Eleitoral deve examinar os aspectos eleitorais que estiverem dentro de sua competência. O Conselho de Ética deve avaliar a conduta parlamentar, caso a representação prossiga. E as autoridades responsáveis pela investigação criminal devem apurar eventuais delitos com base em provas.

Por fim, se houver suspeita de articulação entre episódios em diferentes universidades, a investigação deve procurar conexões concretas entre organizadores, comunicações, recursos e estratégias de divulgação.

O rigor é indispensável.

Conclusão: defender a universidade é defender a democracia

O episódio da UFRN coloca em evidência uma questão que ultrapassa a polarização eleitoral.

A universidade pública é um espaço de conhecimento, pesquisa, formação profissional, pluralidade e debate. Evidentemente que a universidade pública não está imune a críticas, problemas de gestão ou irregularidades. Mas sua legitimidade não pode ser atacada por generalizações que associem estudantes à criminalidade sem demonstração dos fatos.

As declarações atribuídas a General Girão merecem escrutínio porque vão além de uma crítica administrativa convencional. Ao associar a comunidade acadêmica à vadiagem, à embromação e ao tráfico, o discurso pode contribuir para deslegitimar a instituição e alimentar a hostilidade contra seus integrantes.

O episódio também deve ser situado no contexto mais amplo dos ataques à autonomia universitária, do anti-intelectualismo e da circulação digital de performances políticas de confronto, fenômenos documentados por pesquisadores e veículos universitários.

A hipótese de que manifestações desse tipo integrem uma estratégia de intimidação ou de produção deliberada de conflitos precisa ser investigada. Não pode ser descartada de antemão, mas também não deve ser apenas presumida.

O mesmo rigor vale para a discussão sobre fascismo. O conceito ajuda a interpretar práticas autoritárias quando sustentado por características concretas, mas perde valor analítico se for empregado apenas como insulto contra adversários.

A democracia não exige neutralidade diante de ataques à liberdade acadêmica. Exige capacidade de identificar práticas autoritárias, demonstrar seus mecanismos e responsabilizar os envolvidos dentro das regras do Estado de Direito.

Não se trata de defender estudantes de esquerda contra estudantes de direita, nem de conceder privilégios a uma determinada corrente política. Trata-se de garantir que pessoas com diferentes posições possam estudar, ensinar, pesquisar, protestar e expressar suas ideias sem intimidação ou violência.

Se a universidade for transformada em inimiga, o conhecimento em suspeita e o confronto em espetáculo eleitoral, o prejuízo ultrapassará qualquer partido. Será a própria democracia que perderá espaço. O povo brasileiro será o maior perdedor.

A tarefa dos representantes eleitos é compreender que o mandato parlamentar não lhes confere licença para desqualificar pessoas sem fundamento, estimular hostilidades ou tratar a divergência democrática como uma ameaça a ser combatida.

A universidade pública não pertence à esquerda nem à direita. Pertence à sociedade. Defender sua autonomia, sua integridade e sua capacidade de produzir conhecimento é defender um dos espaços fundamentais da democracia brasileira.

É preciso responsabilidade!

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