terça-feira, 20 de outubro de 2026

O Programa de Flávio Bolsonaro passa pelo teste de "Imagine"? E o de Lula?

Um comentário inicial: a ideia de escrever sobre o assunto foi motivada por uma conversa rápida com um  conterrâneo sobre a política brasileira. Trata-se de um fã fervoroso dos Beatles (e de John Lennon) e, surpreendentemente, apoiador do bolsonarismo.

Entre a paz para todos e a suposta “guerra ao crime”, a preservação ambiental e a exploração econômica desmedida, a solidariedade e a lógica implacável do mercado, os programas dos dois candidatos revelam diferentes maneiras de imaginar o futuro do Brasil.

Em 1971, John Lennon e Yoko Ono lançaram “Imagine”, uma canção que atravessou gerações ao propor um exercício de imaginação política e humanista: pensar em um mundo menos dividido por fronteiras, religiões, disputas nacionais e interesses materiais; uma humanidade capaz de compartilhar o planeta, superar antagonismos e viver em paz.

Mais do que uma canção sobre a paz, “Imagine” tornou-se uma provocação sobre os valores que organizam a vida coletiva. 

Que sociedade estamos construindo? 

A segurança deve ser obtida a qualquer custo? 

O crescimento econômico justifica a degradação ambiental? 

A prosperidade de alguns é suficiente quando milhões enfrentam a fome e a desigualdade?

Essas perguntas oferecem um ponto de partida interessante para examinar os programas de governo de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva para o período 2027-2030.

Trata-se, sobretudo, de exercício de imaginação, orientado por uma música que toca profundamente a minha alma.

É importante esclarecer, principalmente neste momento de profunda divisão que marca o povo brasileiro: “Imagine” não é um programa de governo, tampouco apresenta uma política ambiental detalhada. A comparação proposta aqui é interpretativa, especialmente imaginativa. Trata-se de confrontar os valores humanistas, pacifistas e solidários associados à obra de Lennon e Ono com as prioridades, os instrumentos e as contradições presentes nas propostas dos candidatos.

O resultado não é uma disputa sobre quem gosta mais de paz ou de natureza, mas uma análise de como cada projeto pretende transformar esses valores – ou subordiná-los a outras prioridades – em políticas públicas. Certamente, e infelizmente, nenhum dos dois candidatos considerou a mensagem da canção “Imagine” para construir suas propostas.

1. Paz para quem? O significado da segurança pública

A primeira diferença aparece na concepção de paz.

Em “Imagine”, a paz está associada à superação das divisões que transformam diferenças em motivos para matar ou morrer. A mensagem sugere que a humanidade precisa questionar as estruturas culturais e políticas que alimentam conflitos.

No programa de Flávio Bolsonaro, a segurança pública ocupa lugar central, com propostas de endurecimento penal, ampliação da capacidade prisional, reconhecimento facial, fortalecimento das forças policiais e combate ostensivo ao crime organizado. A linguagem de enfrentamento, inclusive com a expressão “guerra ao crime”, evidencia uma concepção de segurança fortemente apoiada na capacidade coercitiva do Estado.

Há uma finalidade legítima nessa preocupação: proteger a população contra homicídios, roubos, tráfico de drogas e organizações criminosas. Nenhuma sociedade pode prescindir de instituições capazes de garantir direitos e enfrentar a violência.

A questão essencial, porém, é saber se a paz será compreendida apenas como imposição da ordem ou também como redução das causas da violência, prevenção, respeito aos direitos fundamentais e diminuição das mortes.

Uma política de segurança compatível com o horizonte humanista de “Imagine” precisaria ser avaliada pela redução dos homicídios, das mortes em intervenções policiais, da reincidência criminal e da violência contra grupos vulneráveis.

O programa de Lula, por sua vez, associa a segurança pública à atuação coordenada do Estado, ao fortalecimento das instituições e à articulação com políticas sociais. Sua orientação geral é menos centrada na retórica de guerra e mais vinculada à coordenação institucional e à prevenção.

No teste de “Imagine”, a pergunta decisiva é: qual estratégia tem melhores condições de proteger vidas, reduzir a violência e preservar os direitos de todos.

2. Soberania nacional ou humanidade sem fronteiras?

Lennon e Ono convidam o público a imaginar um mundo no qual os países não sejam razões para matar ou morrer. Trata-se de uma crítica ao nacionalismo quando ele transforma a identidade nacional em antagonismo permanente. Para um país existir não é necessário eliminar os outros, como parecem acreditar Trump, Putin e outros mais.

Flávio Bolsonaro enfatiza a soberania brasileira, o controle territorial, o fortalecimento das fronteiras. Porém, trata-se de uma soberania limitada, uma vez que as relações estratégicas com países como Estados Unidos e Israel são apresentadas como essenciais. 

Essa orientação corresponde a uma visão de política externa na qual essas alianças estratégicas ocupam posição central. O alinhamento, principalmente com Trump, parece se sobrepor a posição que a diplomacia brasileira construiu ao longo de décadas. E o delineamento geral sinaliza que as guerras do Trump também poderão ser do Brasil bolsonarista.

Lula também defende a soberania nacional, mas dá maior destaque ao multilateralismo, à diplomacia, à cooperação internacional e à solução pacífica de controvérsias. Sua proposta de política externa procura ampliar a atuação brasileira em organismos internacionais e fortalecer as relações com países do Sul Global.

Nesse aspecto, há uma aproximação mais explícita entre o programa de Lula e o universalismo de “Imagine”. A valorização do diálogo e das instituições multilaterais está mais próxima da ideia de que os conflitos devem ser enfrentados pela negociação, e não pela transformação de adversários em inimigos permanentes.

Isso não significa que defender a soberania nacional seja incompatível com o pacifismo. Tampouco significa que a política externa de Lula corresponda integralmente ao ideal de Lennon. Os dois candidatos atuam dentro de uma ordem internacional na qual interesses econômicos, disputas geopolíticas e necessidades de defesa continuam determinantes.

O teste mais rigoroso consiste em perguntar se o Brasil utilizará sua influência para promover negociações, defender o direito internacional e aplicar princípios consistentes diante de conflitos envolvendo aliados e adversários? Ou vai aderir ao belicismo patrocinado por Trump?

Nesse eixo, Lula apresenta maior convergência programática com o ideal de cooperação internacional de “Imagine”, embora a atuação efetiva de qualquer governo precise ser julgada por suas decisões concretas.

3. Meio ambiente: patrimônio da humanidade ou ativo econômico?

É no debate ambiental que a comparação ganha uma dimensão particularmente importante.

A canção “Imagine” não formula uma agenda ecológica. Entretanto, sua mensagem de solidariedade e compartilhamento do mundo permite elaborar o seguinte questionamento: a natureza deve ser protegida apenas quando sua conservação oferece retorno econômico ou também porque dela dependem a vida, a saúde e o futuro das próximas gerações?

O programa de Flávio Bolsonaro, em seu capítulo dedicado ao meio ambiente, procura conciliar conservação e desenvolvimento econômico. Entre as propostas apresentadas estão o combate ao desmatamento ilegal até 2029, o uso de tecnologias para fiscalização, o pagamento por serviços ambientais, o incentivo à bioeconomia e a ampliação das energias renováveis.

O problema está na coerência entre esses compromissos e outras propostas do mesmo programa, como a exploração de gás não convencional por fraturamento hidráulico (fracking) e a flexibilização de procedimentos de licenciamento ambiental.

Agilizar o licenciamento não é necessariamente prejudicial. Prazos claros e processos eficientes podem melhorar a administração pública. Entretanto, a simplificação torna-se problemática quando compromete a qualidade dos estudos, a fiscalização, a participação das comunidades ou a prevenção de danos irreversíveis.

A questão central é se a conservação continuará sendo prioridade quando entrar em conflito com interesses econômicos imediatos. Os posicionamentos públicos de inúmeros políticos do PL e aliados, de membros da família Bolsonaro e do próprio candidato não permitem dúvidas de que os interesses econômicos serão preponderantes em relação as questões ambientais. 

O desmonte da fiscalização ambiental, a tolerância com garimpo ilegal e invasões de terras indígenas e outras mazelas ambientais patrocinadas durante o governo de Jair Bolsonaro sinalizam para um futuro tenebroso para a agenda ambiental.

O programa de Lula apresenta uma agenda climática mais abrangente. Propõe alcançar o desmatamento líquido zero até 2030, proteger os biomas, ampliar a adaptação às mudanças climáticas, fortalecer a segurança hídrica e expandir as fontes renováveis de energia.

A diferença não é apenas a existência de compromissos ambientais, mas o lugar que a crise climática ocupa na organização do programa. No caso de Lula, ela aparece como questão transversal ao desenvolvimento, à infraestrutura e à política externa.

Ainda assim, há uma contradição importante: o governo também pretende manter investimentos em petróleo e gás, ao mesmo tempo que promove a transição energética. A exploração de combustíveis fósseis pode ser justificada por razões de segurança energética e financiamento público, mas seus efeitos precisam ser confrontados com as metas de redução das emissões.

No teste ambiental de “Imagine”, Lula apresenta uma convergência programática mais ampla.

Flávio, por sua vez, reúne propostas subordinadas a uma estratégia que enfatiza mais explicitamente a exploração econômica dos recursos naturais brasileiros.

4. Fome, desigualdade e a lógica da acumulação

Outra passagem fundamental de “Imagine” é a crítica à ganância e a possibilidade de imaginar um mundo sem fome, no qual os recursos sejam compartilhados.

A mensagem de Lennon e Ono traz uma provocação moral e política: por que a abundância material convive com a privação de tantas pessoas?

Os programas de Lula e Flávio oferecem respostas diferentes a essa questão.

Lula prioriza a redução das desigualdades por meio de políticas sociais, segurança alimentar, valorização do trabalho, serviços públicos e medidas de redistribuição. Sua proposta procura reduzir a pobreza e ampliar as condições materiais de vida sem abandonar a economia de mercado.

Flávio Bolsonaro enfatiza a propriedade privada, o empreendedorismo, o crédito, a autonomia econômica e a criação de oportunidades para que as famílias ampliem seu patrimônio. A aposta é que o crescimento, o investimento e a atividade privada contribuam para a prosperidade.

Essas orientações não são inteiramente incompatíveis. O empreendedorismo pode gerar renda e emprego, assim como o investimento privado pode contribuir para o financiamento de serviços e infraestrutura. Políticas sociais, por sua vez, podem ampliar a capacidade das pessoas de trabalhar, estudar e empreender.

A divergência está na prioridade atribuída à distribuição dos resultados econômicos e no papel do Estado para garanti-la.

O Brasil ainda é um dos países mais desiguais do planeta, mesmo após os inúmeros avanços sociais conquistados a partir da estabilidade econômica conquistada a partir do Plano Real e, sem sombra de dúvidas, pelo conjunto de políticas públicas instituídos por Lula/Dilma.

A acusação de que o PT é comunista não se sustenta por nenhuma justificativa, mas a persistência da desigualdade é a prova definitiva. Fosse o PT um partido minimamente comunista não persistiria o cenário de desigualdade. Não obstante, os avanços conquistados parecem um grande desaforo para os devotos do bolsonarismo.

Uma leitura inspirada em “Imagine” perguntaria se o crescimento econômico consegue reduzir a fome e a pobreza de forma duradoura, se os ganhos são distribuídos de maneira justa e se as pessoas que não conseguem transformar trabalho em patrimônio dispõem de condições dignas de vida.

Por que esse ódio em recusar a necessidade de políticas de cotas? Por que recusar o combate da insegurança alimentar? Da desigualdade de renda? Da pobreza? Por que não reconhecer os direitos da comunidade LGBTQIA+? Por que não reconhecer que as mulheres, na sociedade machista brasileira, precisam de leis como Maria da Penha e do feminicídio? Por que não aceitar que as pessoas mais vulneráveis tenham acesso à moradia, à educação e à saúde? 

Por que algo assim é tão inaceitável?

5. Dois projetos, duas hierarquias de valores

A comparação permite identificar uma diferença mais profunda do que a oposição entre esquerda e extrema direita.

Flávio Bolsonaro organiza seu programa em torno da guerra ao crime (cujo campo de batalha coloca milhões de civis pobres na zona de ‘guerra’), da soberania limitada, pois declara alinhamento explicito aos interesses do governo Trump, da defesa da propriedade privada acima do interesse coletivo, da liberdade individual em que o pobre tem que competir sem suporte de políticas sociais e do crescimento econômico a qualquer custo. A preservação ambiental aparece subordinada à geração de riqueza.

Lula organiza o seu programa em torno da redução das desigualdades, da proteção social, da cooperação internacional, do desenvolvimento sustentável e do enfrentamento da crise climática. Ainda assim, mantém compromissos com a expansão econômica e com setores produtivos que podem gerar tensões ambientais.

Para tornar essa avaliação mais clara, podemos sintetizar o resultado do teste:

Critério inspirado em Imagine

Flávio Bolsonaro

Lula

Paz e redução dos antagonismos

Ênfase maior na repressão e no fortalecimento coercitivo do Estado – guerra ao crime, cujo campo de batalha é o lar da pobreza suburbana

Maior ênfase na diplomacia, na cooperação e na coordenação institucional

Cooperação internacional

Soberania limitada e alianças estratégicas como prioridades explícitas e totalmente alinhadas aos interesses de Trump

Multilateralismo e diálogo internacional como prioridades explícitas

Proteção ambiental

Conservação subordinada à exploração econômica, inclusive de biomas como a floresta amazônica.

Agenda climática transversal, com metas de conservação e adaptação

Transição energética

Expansão da exploração de gás, petróleo, conciliada com biocombustíveis

Renováveis combinadas com continuidade de investimentos em petróleo e gás

Combate à desigualdade

Ênfase em propriedade privada, empreendedorismo e autonomia econômica individual – ética do cada um por si

Ênfase em políticas sociais, trabalho e redução das desigualdades

Principal tensão

Uso da força e exploração econômica diante dos ideais de paz e conservação

Conciliação entre justiça social, expansão econômica e compromissos climáticos

Essas 

Essas classificações são uma interpretação dos documentos à luz dos princípios escolhidos.

6. Afinal, quem passa pelo teste de Imagine?

Se o critério for a convergência explícita com o pacifismo, a cooperação internacional, a redução da fome e a centralidade da crise climática, o programa de Lula apresenta maior proximidade com a mensagem humanista de Lennon e Ono.

Essa aproximação é particularmente visível na política externa, na centralidade conferida à redução das desigualdades e na presença de uma agenda climática abrangente.

O programa de Flávio Bolsonaro, por sua vez, não é desprovido de propostas ambientais ou de objetivos de proteção da vida. Há compromissos com a fiscalização do desmatamento e as energias renováveis. Entretanto, sua ênfase na repressão penal (foco em encarceramento em massa e ‘guerra’ ao crime, cujo confrontamento em áreas densamente povoadas podem gerar grande quantidade de vítimas inocentes), na soberania limitada com total alinhamento aos interesses de Trump e na exploração econômica dos recursos naturais revela tensões mais acentuadas com os ideais universalistas e pacifistas de “Imagine”.

A diferença fundamental está na concepção de sociedade que orienta as escolhas públicas.

Lennon e Ono nos convidam a imaginar uma humanidade na qual a segurança não dependa da perpetuação de inimigos, a prosperidade não conviva indiferentemente com a fome e a exploração econômica não comprometa as condições de vida no planeta.

Esse horizonte não oferece respostas prontas para os dilemas da administração pública, mas serviram como critérios para eu questionar as prioridades elencadas nos dois programas de governo.

O programa de Lula passa pelo teste de Imagine de maneira mais convincente no plano das intenções e das orientações declaradas.

O de Flávio enfrenta tensões mais profundas com o pacifismo e com uma visão da natureza que ultrapasse seu valor econômico.

No fim, a pergunta é: qual projeto político está mais preparado para transformar paz, solidariedade e preservação ambiental em resultados verificáveis?

Porque imaginar um mundo melhor é apenas o começo. O verdadeiro teste está nas escolhas feitas quando os ideais entram em conflito com os interesses econômicos, as disputas de poder e as urgências do presente frente a ética intergeracional.

Mais do que definir qual programa é "melhor" ou "pior", o objetivo final é convidar o leitor a sair do pragmatismo eleitoral imediato e pensar nos valores fundamentais (justiça, igualdade, fraternidade) que devem guiar o futuro do país.

..............................................................................................

Nota editorial: esta comparação utiliza os programas de governo divulgados para 2027-2030 e interpreta suas propostas à luz da mensagem de “Imagine”. As classificações são avaliações qualitativas, de cunho eminentemente pessoal, e que, no limite, arvoram-se ao chamamento para refletir que Brasil desejamos para o futuro?

Fontes de referência: programa de governo de Flávio Bolsonaro; programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva; materiais oficiais de John Lennon e Yoko Ono sobre “Imagine”; e reportagens da Agência Brasil sobre as propostas ambientais e de política externa dos candidatos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário