As eleições de 2026 permitem fazer algo que raramente é possível durante uma campanha: confrontar uma projeção produzida a partir de um conjunto de pesquisas com o resultado efetivamente registrado nas urnas.
O Sertão Potiguar publicou, em setembro,
dois levantamentos próprios sobre as eleições do Rio Grande do Norte. O
primeiro agregou pesquisas realizadas ao longo de setembro e produziu cenários
para o Governo do Estado, Senado e Presidência da República. O segundo calculou
o comparecimento, os votos brancos e nulos, os votos válidos e, a partir dessas
hipóteses, estimou possíveis votações para os principais candidatos.
A conclusão geral é relativamente clara: as
projeções tiveram bom desempenho na dimensão do eleitorado que compareceu às
urnas e na identificação dos principais nomes competitivos, mas tiveram
desempenho bastante desigual na estimativa das votações individuais e na
definição das disputas mais apertadas.
No Governo, acertaram a liderança de Allyson
Bezerra e a existência de um segundo turno, mas não identificaram corretamente
o segundo colocado: Cadu de Lula terminou à frente de Álvaro Dias por margem
muito superior à sugerida pelo agregado das pesquisas.
No Senado, acertaram Styvenson Valentim como
primeiro colocado, mas erraram a segunda vaga. Zenaide Maia terminou em
terceiro, apenas 5.765 votos atrás de Samanda de Lula.
Na Presidência, considerando exclusivamente a
votação no Rio Grande do Norte, a projeção acertou a liderança de Lula, embora
tenha subestimado a votação tanto do presidente quanto de Flávio Bolsonaro.
Antes de comparar candidatos: o
tamanho do eleitorado e o comparecimento
A segunda postagem do Sertão Potiguar trabalhava
com 2.660.565 eleitores aptos e projetava, no cenário principal, 2.176.951
comparecimentos.
A totalização oficial utilizada pelo TRE-RN para
governador registrou 2.656.207 eleitores aptos e 2.167.714
comparecimentos, correspondentes a 81,61% do eleitorado. A abstenção foi de
488.493 eleitores, ou 18,39%.
|
Indicador |
Projeção
do blog |
Resultado
oficial |
Diferença |
|
Eleitorado
apto |
2.660.565 |
2.656.207 |
-4.358 |
|
Comparecimento |
2.176.951 |
2.167.714 |
-9.237 |
|
Comparecimento
sobre aptos |
81,82% |
81,61% |
-0,21
p.p. |
|
Abstenção |
~18,18% |
18,39% |
+0,21
p.p. |
Esse é provavelmente o melhor resultado
quantitativo de toda a projeção.
O erro no número de comparecentes foi de
aproximadamente 0,42%. Em termos de taxa de participação, a diferença
foi de apenas 0,21 ponto percentual.
Ou seja: a hipótese de participação eleitoral
utilizada pelo blog ficou muito próxima do comportamento efetivamente
registrado nas urnas.
Isso é importante porque a projeção posterior das
votações dos candidatos utilizava justamente o comparecimento estimado como
base de cálculo.
Governo
do RN: Allyson liderou, mas Cadu ocupou a segunda vaga
Na postagem publicada em setembro, o agregado de 18
rodadas de pesquisas, envolvendo 26.476 entrevistas, produziu o seguinte
cenário:
|
Candidato |
Agregado
das pesquisas |
|
Allyson
Bezerra |
38,3% |
|
Álvaro
Dias |
21,9% |
|
Cadu de
Lula |
21,8% |
O blog registrou corretamente que os percentuais
eram calculados sobre todos os entrevistados, e não sobre votos válidos.
A conclusão naquele momento foi que Allyson era o
nome mais provável para chegar ao segundo turno, enquanto a segunda vaga
permanecia aberta entre Álvaro Dias e Cadu de Lula.
A urna produziu:
|
Candidato |
Votos
oficiais |
% dos
votos válidos |
|
Allyson
Bezerra |
733.809 |
36,94% |
|
Cadu de
Lula |
718.300 |
36,16% |
|
Álvaro
Dias |
530.580 |
26,71% |
O resultado oficial confirmou que Allyson e Cadu
avançaram ao segundo turno. A diferença entre os dois foi de apenas 15.509
votos, ou 0,78 ponto percentual. Álvaro ficou em terceiro.
O que a projeção acertou?
Acertou três elementos importantes:
- Allyson
aparecia como primeiro colocado no agregado e terminou efetivamente em
primeiro.
- A
eleição não foi decidida no primeiro turno.
- Cadu
e Álvaro eram identificados como os dois nomes que disputavam a segunda
vaga.
Mas existe uma diferença importante entre dizer que
uma disputa está aberta e apontar corretamente quem terminará à frente.
A projeção colocou:
Álvaro
Dias: 21,9%
Cadu de Lula: 21,8%
A diferença era de apenas 0,1 ponto percentual.
Nas urnas, entretanto, Cadu recebeu 718.300
votos, contra 530.580 de Álvaro.
A diferença foi de 187.720 votos,
equivalente a aproximadamente 9,45 pontos percentuais dos votos válidos.
Portanto, a projeção identificou corretamente o
bloco dos três principais candidatos, mas não dimensionou corretamente a força
eleitoral de Cadu de Lula.
A estimativa de votos do Governo:
onde ocorreu o maior erro
A segunda postagem transformou os percentuais das
pesquisas em números absolutos.
No cenário baseado nas taxas de participação de
2022, o cálculo produziu:
|
Candidato |
Votos
projetados |
Votos
oficiais |
Erro
absoluto |
|
Allyson |
833.772 |
733.809 |
-99.963 |
|
Álvaro |
476.752 |
530.580 |
+53.828 |
|
Cadu |
474.575 |
718.300 |
+243.725 |
A diferença mais expressiva está em Cadu.
A projeção estimava cerca de 475 mil votos
para o candidato. Ele terminou com mais de 718 mil.
Em termos relativos, a votação real de Cadu foi
aproximadamente 51% maior que a estimada nesse cenário.
Já Allyson teve votação cerca de 12% inferior
à projetada, enquanto Álvaro recebeu aproximadamente 11% mais votos que
a estimativa.
Isso mostra uma característica importante do método
utilizado: o agregado acertou melhor a posição relativa de Allyson do que o
volume de votos que ele efetivamente receberia.
E, sobretudo, o método não captou a aceleração de
Cadu na reta final.
Um teste
adicional: considerando somente os três principais candidatos
Há uma forma interessante de avaliar o agregado sem
misturar diretamente percentuais de universos diferentes.
Os três principais candidatos somavam, na projeção:
38,3 + 21,9 + 21,8 = 82,0%
Dentro desse subconjunto, a distribuição projetada
era aproximadamente:
|
Candidato |
Participação
entre os três |
|
Allyson |
46,7% |
|
Álvaro |
26,7% |
|
Cadu |
26,6% |
Nas urnas, os três principais concentraram
praticamente toda a votação válida:
|
Candidato |
Participação
entre os três |
|
Allyson |
36,9% |
|
Cadu |
36,2% |
|
Álvaro |
26,7% |
O resultado revela algo bastante específico:
- Álvaro
foi o candidato cuja participação relativa ficou mais próxima da projeção;
- Allyson
foi superestimado;
- Cadu
foi fortemente subestimado.
A principal mudança, portanto, não foi a presença
ou ausência de um candidato competitivo, mas a redistribuição da força
eleitoral entre Allyson e Cadu.
Segundo
turno: a projeção foi parcialmente acertada
O texto publicado antes da eleição afirmava: “Allyson
é o nome mais provável de avançar; a outra vaga permanece aberta entre Cadu e
Álvaro.” Esse enunciado merece uma avaliação cuidadosa.
A primeira parte estava correta: Allyson avançou
e terminou em primeiro. A segunda parte era metodologicamente cautelosa,
mas não se confirmou no resultado final. A vaga não ficou efetivamente
equilibrada entre Cadu e Álvaro: Cadu terminou quase 188 mil votos à frente.
Portanto, em uma avaliação objetiva:
Acerto: identificação de Allyson como favorito à
primeira vaga.
Acerto parcial: identificação de Cadu e Álvaro como
os dois principais concorrentes pela segunda vaga.
Erro: avaliação da proximidade entre os dois e
identificação de Álvaro como numericamente praticamente empatado com Cadu.
As
simulações de segundo turno
O agregado também havia calculado confrontos
hipotéticos:
|
Confronto |
Primeiro |
Segundo |
|
Allyson
× Álvaro |
43,1% |
26,5% |
|
Allyson × Cadu |
46,3% |
26,1% |
|
Cadu ×
Álvaro |
33,1% |
32,7% |
A eleição efetivamente definiu Allyson × Cadu
como segundo turno.
Isso significa que a simulação relevante para a
etapa seguinte é justamente a segunda: Allyson 46,3% × Cadu 26,1%.
Entretanto, esses números ainda não podem ser
classificados como acertados ou errados, porque a eleição de segundo turno
ocorrerá somente em 25 de outubro.
A projeção, portanto, produziu um cenário para uma
eleição que ainda não ocorreu. O que já pode ser avaliado é a identificação dos
finalistas: a combinação efetivamente ocorrida foi uma das duas principais
hipóteses consideradas pelo estudo.
O resultado do primeiro turno também
mostra que o segundo turno partirá de uma situação muito mais equilibrada do
que aquela sugerida pelo agregado de pesquisas: Allyson tem 36,94% e Cadu 36,16%,
uma diferença de apenas 15.509 votos.
Senado:
Styvenson foi corretamente identificado; a segunda vaga mudou de mãos
No Senado, o agregado de 13 rodadas e 20.076
entrevistas produziu:
|
Candidato |
Projeção
do blog |
|
Styvenson
Valentim |
20,6% |
|
Zenaide
Maia |
15,0% |
|
Samanda
de Lula |
9,3% |
|
Rafael
Motta |
7,0% |
|
Coronel
Hélio |
6,9% |
A projeção apontava: Styvenson + Zenaide.
O resultado oficial foi:
|
Posição |
Candidato |
Votos |
% dos
votos válidos |
|
1º |
Styvenson
Valentim |
1.055.000 |
29,25% |
|
2º |
Samanda
de Lula |
635.924 |
17,63% |
|
3º |
Zenaide
Maia |
630.159 |
17,47% |
|
4º |
Coronel
Hélio |
620.354 |
17,20% |
|
5º |
Rafael
Motta |
510.674 |
14,16% |
Styvenson e Samanda foram os dois eleitos.
Aqui o resultado é especialmente interessante
porque a projeção acertou uma das duas vagas e chegou muito perto da outra.
Zenaide terminou apenas 5.765 votos atrás de
Samanda.
A diferença entre as duas foi de apenas 0,16
ponto percentual.
Assim, não se trata de um erro grosseiro de
identificação de candidatos competitivos. Trata-se de um erro na ordenação
final de uma disputa extremamente apertada.
O problema foi justamente a
segunda vaga
A projeção colocou:
Zenaide → 15,0%
Samanda → 9,3%
A urna colocou:
Samanda → 17,63%
Zenaide → 17,47%
Ou seja, a projeção subestimou fortemente Samanda
e, em menor medida, Zenaide.
A distância prevista entre as duas era de 5,7
pontos percentuais.
Na realidade, a distância foi de apenas 0,16
ponto.
Esse é um dos casos em que a análise pré-eleitoral
mostra por que não se deve interpretar um agregado de pesquisas como se fosse
uma pesquisa com margem de erro própria.
O Senado
também mostra a dificuldade de transformar intenção em número de votos
O blog havia projetado, no cenário principal:
|
Candidato |
Votos
projetados |
Votos
oficiais |
|
Styvenson |
896.904 |
1.055.000 |
|
Zenaide |
653.085 |
630.159 |
|
Samanda |
404.913 |
635.924 |
|
Rafael
Motta |
304.773 |
510.674 |
|
Coronel
Hélio |
300.419 |
620.354 |
A estimativa de comparecimento e escolhas também
ficou relativamente próxima.
O blog projetava 4.353.902 escolhas válidas no
cenário principal. A totalização oficial registrou 3.606.806 votos válidos
para as duas vagas do Senado.
A diferença decorreu principalmente da estimativa
de votos brancos e nulos: a projeção trabalhava com 3,53 milhões de escolhas
válidas, enquanto a votação real chegou a 3,607 milhões.
O dado mais importante, entretanto, é a
distribuição entre os candidatos.
Styvenson foi subestimado em número absoluto, mas
manteve a liderança.
Zenaide ficou muito próxima do número projetado.
Samanda, Rafael Motta e Coronel Hélio foram
significativamente subestimados.
Isso significa que o agregado foi mais eficiente
para indicar o núcleo competitivo da eleição do que para dimensionar a
votação final de cada candidato.
Presidência:
o agregado acertou o vencedor no RN
A projeção presidencial tinha uma ressalva
importante: tratava-se exclusivamente da intenção de voto no Rio Grande do
Norte, e não de uma previsão da eleição nacional.
O agregado apontava:
|
Candidato |
Projeção |
|
Lula |
54,1% |
|
Flávio
Bolsonaro |
27,0% |
O resultado oficial no RN foi:
|
Candidato |
Votos |
% dos
válidos |
|
Lula |
1.237.963 |
59,75% |
|
Flávio
Bolsonaro |
720.493 |
34,77% |
|
Augusto
Cury |
57.367 |
2,77% |
|
Renan
Santos |
35.261 |
1,70% |
Aqui houve um acerto claro de ranking: Lula
terminou em primeiro no RN e Flávio Bolsonaro em segundo.
Mas os percentuais projetados ficaram abaixo dos
efetivamente registrados.
A diferença foi de aproximadamente:
- Lula:
+5,65 pontos percentuais;
- Flávio
Bolsonaro: +7,77 pontos percentuais.
Em números absolutos, a projeção estimava
aproximadamente 1,178 milhão de votos para Lula e 588 mil para Flávio.
O resultado foi de aproximadamente 1,238 milhão e 720 mil,
respectivamente.
Portanto, a projeção acertou a estrutura da
disputa, mas subestimou a concentração de votos nos dois principais
candidatos.
Comparecimento
presidencial: novamente um bom resultado
A projeção havia estimado 2.177.224
comparecentes para a votação presidencial no RN.
A totalização presidencial atualizada registrou 2.171.013
comparecimentos.
A diferença foi de aproximadamente 6,2 mil
eleitores, ou menos de 0,3%.
Também aqui aparece o mesmo padrão observado no
Governo: o modelo estimou muito melhor o tamanho do eleitorado efetivamente
participante do que a distribuição final dos votos entre os candidatos.
A
projeção do primeiro turno e o limite de 1 milhão de votos
A segunda postagem calculava que, no cenário
baseado em 2022, seriam necessários aproximadamente 954.030 votos válidos
para um candidato vencer o Governo do Estado no primeiro turno.
A totalização efetiva registrou 1.986.441 votos
válidos para governador. Portanto, o número mínimo para ultrapassar 50% dos
votos válidos foi de aproximadamente 993.221 votos.
A projeção havia, portanto, subestimado esse
patamar em aproximadamente 39 mil votos.
Isso não altera a conclusão principal feita na
postagem: um candidato precisaria de uma votação próxima ou superior a 1
milhão de votos para ter segurança matemática de vencer no primeiro turno
naquele cenário.
A realidade confirmou a necessidade de uma votação
muito elevada. Nenhum candidato chegou sequer a 800 mil votos, e a eleição foi
para o segundo turno.
Allyson terminou com 733.809 votos e Cadu com
718.300.
O que as
duas projeções acertaram melhor?
O confronto com as urnas permite organizar os
resultados em quatro níveis.
1) Participação eleitoral - acerto
elevado
A projeção chegou muito perto do número efetivo de
eleitores que compareceram.
A diferença foi inferior a 0,5%.
2) Identificação dos principais
candidatos - acerto razoável
No Governo, os três nomes apontados como principais
(Allyson, Álvaro e Cadu) efetivamente foram os três mais votados.
No Senado, os cinco nomes destacados pelo agregado
terminaram exatamente entre os cinco primeiros.
Na Presidência, Lula e Flávio foram os dois
primeiros no RN.
Isso mostra que o agregado conseguiu identificar
bem o campo competitivo.
3) Ordem final - acerto parcial
No Governo:
Allyson → correto.
Cadu/Álvaro → incorreto.
No Senado:
Styvenson → correto.
Zenaide/Samanda → incorreto.
Na Presidência:
Lula → correto.
Portanto, a projeção foi mais eficiente para
identificar os líderes do que para resolver as disputas pelas posições
seguintes.
4) Número absoluto de votos - acerto
menor
A conversão de percentuais de intenção de voto em
número de votos mostrou erros consideráveis, especialmente para candidatos que
apresentaram crescimento na reta final.
Esse é particularmente o caso de Cadu de Lula e
Samanda de Lula.
Um resumo
quantitativo do desempenho
|
Disputa |
Projeção |
Resultado |
Avaliação |
|
Comparecimento |
2,177
milhões |
2,168
milhões |
Muito
próximo |
|
Governo
- líder |
Allyson |
Allyson |
Acerto |
|
Governo
- 2º |
Álvaro/Cadu
muito próximos |
Cadu |
Erro na
ordenação |
|
Governo
- 2º turno |
Allyson
provável + Cadu/Álvaro |
Allyson
× Cadu |
Parcialmente
correto |
|
Senado -
1º |
Styvenson |
Styvenson |
Acerto |
|
Senado -
2º |
Zenaide |
Samanda |
Erro,
por apenas 5.765 votos |
|
Presidência
no RN - 1º |
Lula |
Lula |
Acerto |
|
Presidência
no RN - 2º |
Flávio |
Flávio |
Acerto |
|
Votação
absoluta dos candidatos |
Estimativas |
Resultado
real |
Erros
relevantes |
O
principal ensinamento metodológico
O resultado de 2026 também ajuda a avaliar a
própria metodologia utilizada pelo Sertão Potiguar.
O procedimento tinha uma virtude importante: não
apresentou a média das pesquisas como se fosse uma pesquisa única.
O texto explicitou que eram várias rodadas, com
diferentes institutos, tamanhos amostrais e momentos de coleta, e que não havia
uma margem de erro única para o agregado. Essa ressalva foi metodologicamente
importante. O resultado eleitoral reforça a necessidade dela.
O agregado de Governo colocou Cadu e Álvaro
praticamente empatados. Na urna, entretanto, Cadu abriu uma vantagem de quase
dez pontos sobre Álvaro.
No Senado, Zenaide apareceu cinco pontos à frente
de Samanda na projeção, mas as duas terminaram separadas por apenas 0,16 ponto.
Esses dois casos mostram que a média de
pesquisas pode identificar corretamente um conjunto de candidatos competitivos
sem necessariamente reproduzir a ordem final entre eles.
Também há outro limite: quando o percentual de uma
pesquisa é multiplicado pelo número projetado de comparecentes, assume-se que a
distribuição de preferências entre os entrevistados será reproduzida entre os
eleitores que efetivamente votarão. Essa hipótese funcionou razoavelmente para
dimensionar o eleitorado, mas não para alguns candidatos.
O caso
Cadu é particularmente revelador
Entre todos os resultados, talvez o caso mais
importante para avaliar a projeção do Governo seja o de Cadu de Lula.
O agregado de setembro apontava:
Cadu: 21,8%
A projeção transformava esse percentual em
aproximadamente 475 mil votos.
A urna registrou:
Cadu: 718.300 votos.
A diferença foi de aproximadamente 244 mil votos.
Isso significa que houve uma mudança significativa
entre o conjunto de pesquisas utilizado na média e o comportamento efetivamente
observado no dia da eleição.
E essa mudança foi suficiente para alterar
completamente a disputa pela segunda vaga.
O cenário projetado era:
Allyson - primeiro
Álvaro ≈ Cadu - disputa pela segunda vaga
O cenário real foi:
Allyson - 733.809
Cadu - 718.300
Álvaro - 530.580
A diferença entre Cadu e Álvaro foi, portanto,
muito maior do que a projeção sugeria.
O caso
Samanda também merece destaque
No Senado ocorreu fenômeno semelhante.
O agregado colocava:
Zenaide: 15,0%
Samanda: 9,3%
Na urna:
Samanda: 17,63%
Zenaide: 17,47%
Aqui, a projeção errou a ordem, mas a própria
eleição mostrou uma disputa extremamente apertada.
A diferença foi de somente 5.765 votos.
Assim, a classificação de Zenaide como candidata
competitiva não estava errada. O problema foi dimensionar corretamente a força
de Samanda.
É uma distinção importante entre errar o
candidato competitivo e errar a posição final entre candidatos muito
próximos.
E a
previsão para a Presidência?
Nesse caso, o resultado foi mais favorável ao
método.
O agregado apontava Lula na liderança no RN e
Flávio Bolsonaro na segunda posição.
A urna confirmou exatamente essa ordem.
O que ocorreu foi uma subestimação da concentração
dos votos nos dois principais candidatos.
Lula passou de 54,1% projetados para 59,75% dos
válidos.
Flávio passou de 27,0% para 34,77%.
A projeção, portanto, acertou o sentido da
disputa estadual, mas não a magnitude final das votações.
É importante repetir a ressalva original: isso não
significa previsão do resultado presidencial brasileiro. O presidente é
escolhido pela votação nacional, e o desempenho de Lula no Rio Grande do Norte
é apenas o resultado de uma unidade da Federação.
Resultado
geral da experiência do Sertão Potiguar
O confronto entre as projeções e as urnas permite
uma avaliação sem atribuir ao modelo uma precisão que ele não teve.
Onde a projeção funcionou melhor
- estimativa
do comparecimento eleitoral;
- identificação
de Allyson como líder da disputa pelo Governo;
- identificação
de Cadu, Álvaro e Allyson como principais nomes da disputa estadual;
- identificação
de Styvenson como líder para o Senado;
- identificação
de Zenaide como candidata efetivamente competitiva;
- identificação
de Lula como líder da votação presidencial no RN;
- identificação
de Flávio Bolsonaro como segundo colocado na votação presidencial no RN;
- reconhecimento
antecipado de que a disputa pelo Governo poderia exigir segundo turno.
Onde a projeção apresentou maior erro
- força
eleitoral de Cadu de Lula;
- distância
real entre Cadu e Álvaro;
- força
eleitoral de Samanda de Lula;
- força
de Coronel Hélio e Rafael Motta;
- conversão
das intenções de voto em números absolutos;
- definição
antecipada da segunda vaga do Senado;
- estimativa
da concentração dos votos nos principais candidatos à Presidência.
Conclusão
O resultado das eleições de 2026 permite afirmar
que as projeções publicadas pelo Sertão Potiguar foram mais eficientes para
identificar tendências gerais e o grupo de candidatos competitivos do que para
antecipar exatamente a distribuição dos votos e as posições finais.
No Governo, a projeção acertou o primeiro colocado
e a necessidade de segundo turno, mas não identificou corretamente o adversário
de Allyson. O resultado oficial colocou Allyson e Cadu no segundo turno,
com uma diferença de apenas 15.509 votos entre eles.
No Senado, a previsão de Styvenson e Zenaide
acertou uma das duas vagas. A segunda foi decidida por uma diferença
excepcionalmente pequena: Samanda superou Zenaide por 5.765 votos.
Na Presidência, considerando somente os votos do
Rio Grande do Norte, o agregado acertou os dois primeiros colocados: Lula e
Flávio Bolsonaro.
O maior acerto quantitativo, contudo, esteve em
outro aspecto: a estimativa do comparecimento eleitoral. O blog
projetava aproximadamente 2,177 milhões de votantes e a Justiça Eleitoral
registrou 2,168 milhões – uma diferença inferior a 0,5%.
O resultado também demonstra por que médias
próprias de pesquisas devem ser lidas como indicadores de cenário, e não
como uma pesquisa eleitoral convencional. Elas podem apontar corretamente quem
está no grupo de maior competitividade e, ainda assim, falhar na ordenação
final de candidatos próximos ou diante de movimentos ocorridos na reta final.
No caso do Rio Grande do Norte, foi exatamente isso
que aconteceu em duas das principais disputas: Cadu ultrapassou com folga a
posição sugerida pelo agregado diante de Álvaro, enquanto Samanda ultrapassou
Zenaide por uma diferença mínima.
Assim, olhando retrospectivamente para o trabalho
publicado antes da eleição, a melhor síntese talvez seja:
o Sertão Potiguar acertou mais o “mapa da disputa”
do que o placar final.
E a comparação com os resultados oficiais permite
agora identificar exatamente onde o método funcionou, onde falhou e quais
hipóteses precisam ser aperfeiçoadas para futuras projeções eleitorais.
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