segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Repasses no RN: o alinhamento político explica quem recebe mais?

 Já ouvi “argumentos” de gestores(as) municipais, não alinhados(as) politicamente a governadora Fátima Bezerra, sobre a importância de votar e eleger os candidatos escolhidos pelos referidos(as) prefeitos(as).

Comparar os recursos destinados aos municípios é necessário para fiscalizar o governo estadual. Mas uma análise séria precisa separar transferências constitucionais, convênios e emendas parlamentares. Misturar essas modalidades pode produzir acusações que os dados não sustentam.

As parcelas municipais de ICMS e IPVA pertencem aos municípios e seguem regras legais de distribuição. Portanto, seu recebimento não representa um favor da governadora, assim como diferenças nos valores não demonstram, por si, perseguição ou privilégio político.

O levantamento de 2022 a 2025, com os recortes disponíveis de 2026, mostra situações distintas.

Natal: a capital permaneceu como a maior recebedora dos repasses constitucionais nos períodos analisados. Recebeu R$ 454,54 milhões em 2022 e R$ 489,78 milhões em 2025. Entre janeiro e maio de 2026, foram R$ 216,60 milhões. Essa liderança precisa ser interpretada pelas regras de repartição e pelas características econômicas e demográficas da cidade.

Mossoró: durante a administração de Allyson Bezerra, hoje adversário do grupo governista na disputa estadual, os repasses constitucionais passaram de R$ 184,33 milhões em 2022 para R$ 259,75 milhões em 2025 - crescimento nominal de aproximadamente 40,9%. Entre janeiro e maio de 2026, chegaram a R$ 110,03 milhões. Os números mostram continuidade e crescimento dessas transferências.

Pau dos Ferros: os repasses constitucionais passaram de R$ 13,06 milhões em 2022 para R$ 17,54 milhões em 2025. Nos primeiros cinco meses de 2026, somaram R$ 8,33 milhões. Há também um registro de preparação de pagamento de R$ 500 mil para a Finecap, em setembro de 2025.

A mudança de posição política da prefeita Marianna Almeida já estava anunciada em fevereiro de 2026 (passou a apoiar Allyson). Para verificar eventual retaliação após essa mudança, seria necessário comparar solicitações, aprovações e pagamentos antes e depois do anúncio. A base disponível não demonstra essa relação.

Portalegre: os repasses constitucionais passaram de R$ 2,65 milhões em 2022 para R$ 3,21 milhões em 2025. Entre janeiro e maio de 2026, foram R$ 1,61 milhão. Também foi identificado pagamento de R$ 100 mil, até setembro de 2026, em emenda destinada à sinalização turística municipal.

A transferência de recursos a APAMI precisa aparecer separadamente nessa discussão. Foram localizados convênios de R$ 792 mil, em 2022, e R$ 340 mil, em 2025, vinculados à instituição e ao atendimento hospitalar em Portalegre. O segundo prevê reforma e manutenção do hospital. São valores dos instrumentos, não comprovação de pagamento integral. Além disso, recursos destinados à associação não podem ser contabilizados como dinheiro recebido pela prefeitura.

E os sete municípios associados às administrações do PT? Os achados também são diferentes entre si:

· Janduís: R$ 250 mil pagos em emenda de 2025 destinada à agropecuária.

· José da Penha: R$ 450 mil pagos em três emendas de 2025. O salto dos repasses constitucionais para R$ 8,51 milhões em 2024 acompanha uma alteração excepcional do índice de ICMS, cuja fundamentação precisa ser esclarecida.

· Jandaíra: repasses constitucionais de R$ 8,18 milhões em 2022 e R$ 14,28 milhões em 2025, além de convênio viário de R$ 4 milhões registrado em 2026, sem comprovação de desembolso integral.

·  Currais Novos: maior recebedor constitucional desse grupo e com convênio hospitalar de R$ 6,12 milhões registrado em 2023. O valor do convênio não equivale ao total pago.

· Santa Maria: R$ 350 mil pagos em duas emendas de 2025 destinadas ao Fundo Municipal de Saúde.

· Sítio Novo: registros de convênios e emendas, mas sua prefeita anunciou a saída do PT em maio de 2025. Classificar a administração do município como petista durante todo o período distorce a comparação.

· São Fernando: R$ 300 mil pagos em emenda de 2025 à prefeitura, além de registros destinados a outras entidades, que precisam ser contabilizados separadamente.

O que esses dados permitem afirmar? Existem recursos registrados para municípios de diferentes posições políticas. Há diferenças relevantes que merecem explicação, mas o levantamento não comprova favorecimento partidário nem permite descartar totalmente alguma possibilidade de seletividade.

Para avançar, precisaríamos conhecer os pedidos apresentados, os critérios de aprovação, os impedimentos técnicos e o tempo até o pagamento, comparando municípios com necessidades semelhantes. Emendas também exigem identificar a autoria parlamentar e as regras de execução.

Por exemplo, quantos pedidos formais de celebração de convênios foram formulados pela prefeitura de Portalegre ao governo estadual? Será que o governo estadual tem realmente capacidade fiscal para atendimento de demandas das diferentes gestões municipais?

Nos dados coletados, verifica-se uma limitação significativa do governo na celebração de convênios, inclusive com as gestões do mesmo partido da governadora. Com exceção de UM convênio celebrado, em 2023, com a gestão de Currais Novos (acima de 6mi), nada de representativo foi identificado para respaldar que alguma gestão dependeria da eleição de certo candidato ao governo para funcionar.

Evidentemente que dinheiro público exige critérios públicos e verificáveis e essa cobrança vale para aliados e adversários.

Nota: valores nominais, sem correção pela inflação. Os repasses constitucionais de 2026 abrangem janeiro a maio; as emendas, até setembro. A série de pagamentos de convênios permanece incompleta, e foram identificadas divergências de conciliação nas planilhas constitucionais.

Mais informações: https://www.transparencia.rn.gov.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário