quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Da “vadiagem” ao fascismo em rede: o ataque à UFRN, o ódio ao conhecimento e a política do medo

 

O episódio protagonizado por General Girão na Universidade Federal do Rio Grande do Norte não representa uma simples divergência entre direita e esquerda. As acusações contra estudantes, o confronto físico e a utilização política das imagens levantam uma questão mais profunda: estamos diante de mais um capítulo da ofensiva da extrema direita contra a universidade pública, sua autonomia e seu papel na formação do pensamento crítico?

Uma universidade transformada em palco de confronto

No dia 19 de outubro de 2026, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, tornou-se cenário de um confronto entre participantes de uma manifestação de extrema direita e estudantes que se opunham ao ato.

A manifestação, intitulada “Vire à direita: UFRN anti-Lula”, contou com a participação do deputado federal General Girão (PL-RN), da vereadora Camila Araújo (PL) e de outras lideranças conservadoras. O evento terminou em tumulto, com empurrões, agressões físicas, danos patrimoniais e estudantes feridos.

Mas o episódio não se resume à violência física.

Em entrevista posterior, Girão afirmou que estudantes da universidade promoviam “baderna” e vendiam drogas, classificou universitários que demoram a concluir seus cursos como “estudantes profissionais” e acusou a segurança do campus de ter sido “fraca, omissa e talvez até conivente”. Segundo reportagem do Saiba Mais, o deputado não apresentou provas que sustentassem suas acusações contra os estudantes.

Reportagem: Saiba Mais - Sem provas, Girão acusa alunos da UFRN de tráfico e segurança de omissão.

A questão torna-se ainda mais relevante diante das declarações atribuídas ao parlamentar no vídeo divulgado pelo Blog do Barreto, no qual ele associa a UFRN à “vadiagem”, à “embromação”, ao tráfico de drogas e ao consumo de entorpecentes.

Essas expressões não se confundem com uma simples cobrança por melhorias na segurança ou na administração universitária. Quando utilizadas para caracterizar genericamente o ambiente acadêmico, tais declarações podem funcionar como instrumentos de desqualificação da instituição e de seus integrantes.

As falas atribuídas ao deputado Girão depreciam todos que trabalham ou estudam naquele ambiente.

É necessário distinguir, evidentemente, a crítica legítima à universidade de uma acusação generalizada contra sua comunidade. Denúncias de tráfico devem ser investigadas quando existirem elementos concretos. Não é razoável, porém, transformar suspeitas não demonstradas em uma caracterização de estudantes (ou servidores) como criminosos.

A liberdade de expressão protege o direito de um deputado criticar a universidade, o governo federal e os movimentos estudantis, mas não torna suas afirmações imunes ao escrutínio público, nem elimina eventuais responsabilidades por abusos.

Parece óbvio que se faz necessária uma investigação sobre o ato ocorrido na UFRN e, principalmente, sobre a fala do deputado em relação a suposta ocorrência de tráfico de drogas naquele espaço em que proferiu as acusações.

A provocação não é um detalhe: é parte do problema

A análise do episódio precisa considerar a natureza das declarações, o local em que foram proferidas e o contexto de confronto em que ocorreram.

Afirmar que determinada política universitária é inadequada é uma coisa. Associar a instituição, de maneira generalizada, à vadiagem e ao tráfico de drogas é outra bem diferente.

No segundo caso, o discurso deixa de se concentrar em problemas específicos e passa a desqualificar um ambiente inteiro. A universidade aparece não como uma instituição com problemas passíveis de investigação e correção, mas como um espaço supostamente degenerado, onde a atividade acadêmica seria pretexto para comportamentos ilícitos.

O deputado sabe que essa representação pode produzir efeitos políticos importantes: reforça preconceitos contra estudantes, alimenta a desconfiança em relação à universidade pública e transforma uma instituição de ensino, pesquisa e extensão em alvo de hostilidade.

O contexto agrava a preocupação. As declarações foram associadas a uma manifestação de oposição ao governo Lula, realizada dentro do campus e contestada por estudantes, que estavam em seu horário regular de aulas. O deputado sabe (ou deveria saber) que em um ambiente já polarizado, expressões depreciativas e acusações criminais sem sustentação apresentada podem contribuir para acirrar os ânimos.

Isso não significa atribuir automaticamente ao deputado a responsabilidade por todas as agressões que ocorreram. Tampouco significa justificar a violência praticada por estudantes ou por qualquer outro participante.

Significa reconhecer que a provocação política deve ser examinada como parte da sequência dos acontecimentos, e não descartada como um elemento irrelevante diante da violência física.

A investigação precisa esclarecer quem iniciou as agressões, quais foram as condutas individuais, se houve ameaças ou estímulo à hostilidade e como as declarações e as reações se sucederam.

O debate democrático exige que a liberdade de expressão não seja utilizada como justificativa automática para práticas de intimidação ou para acusações graves sem fundamento verificável. O ônus da prova recai sobre quem acusa. Cabe ao deputado apresentar as provas que dispõe sobre as práticas de vadiagem e tráfico de drogas, bem como indicar os servidores públicos que sabem e, supostamente, toleram essas práticas.

O ataque à universidade e a tradição do anti-intelectualismo

O episódio da UFRN ganha outra dimensão quando analisado à luz de uma tendência documentada no Brasil e em outros países: a deslegitimação das universidades por setores autoritários e da extrema direita.

Em maio de 2025, o Jornal da Unicamp publicou a reportagem “Ataques às universidades expõem ‘ódio ao conhecimento’”. O texto reuniu exemplos de ataques à autonomia universitária, campanhas de descredibilização, ameaças, vandalismo e tentativas de intimidar estudantes e docentes.

A publicação recuperou também análises sobre a deterioração das condições institucionais das universidades brasileiras durante o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, incluindo iniciativas que atingiram a autonomia e a imagem das instituições federais.

Leia: Jornal da Unicamp - Ataques às universidades expõem “ódio ao conhecimento”.

Em julho de 2026, Bruno Ciorlia Nascimento e Marcelo de Trói, pesquisadores vinculados à Universidade de São Paulo, publicaram no Jornal da USP uma análise intitulada “O que está por trás do ataque da extrema direita às universidades públicas?”.

Os autores examinam invasões à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, ocorridas em 2025, e discutem como determinadas ações podem ser organizadas como performances políticas: o confronto é registrado, transformado em conteúdo audiovisual e disseminado nas redes sociais para produzir visibilidade, indignação e engajamento.

Os pesquisadores relacionam esse fenômeno ao anti-intelectualismo e à circulação digital de discursos autoritários. Em sua interpretação, as universidades são alvos porque representam espaços de produção de conhecimento, pluralidade e contestação de crenças e hierarquias estabelecidas.

Leia: Jornal da USP - O que está por trás do ataque da extrema direita às universidades públicas?.

Essa literatura oferece uma chave de interpretação para o episódio potiguar

O discurso que apresenta a universidade como lugar de “vadiagem”, “embromação” e “tráfico de drogas” pode ser examinado como parte de uma retórica anti-intelectualista, sobretudo quando desqualifica a instituição de maneira abrangente e sem apresentar evidências para as acusações.

É importante não confundir essa interpretação com uma conclusão automática sobre as intenções pessoais de Girão. O enquadramento do discurso como anti-intelectualista é uma hipótese analítica sustentada por suas características e pelo contexto político, obviamente não é uma prova de que o deputado tenha planejado deliberadamente um ataque à produção científica.

A pergunta pertinente é: quando a universidade é apresentada sistematicamente como um ambiente de corrupção moral, doutrinação ou criminalidade, quais são as consequências para sua legitimidade perante a sociedade?

Uma das consequências possíveis é que o debate sobre problemas reais do ensino superior seja substituído por uma campanha de desconfiança contra a própria instituição ou, de maneira mais abrangente, contra a educação superior pública.

Além de tentar descredibilizar toda a comunidade acadêmica da UFRN é defensável supor que o deputado Girão, a vereadora Camila e demais organizadores, escolheram aquele local para externarem o ódio contra a educação pública.

O que significa chamar esse fenômeno de fascismo?

O emprego da palavra “fascismo” exige rigor conceitual. Nem todo conservadorismo é fascismo; nem toda manifestação agressiva da direita pode ser automaticamente classificada dessa maneira.

O fascismo histórico foi marcado, entre outros aspectos, pelo ultranacionalismo autoritário, pela rejeição do pluralismo democrático, pela mobilização política de massas, pela construção de inimigos internos e pela legitimação da violência contra adversários.

As experiências fascistas também foram acompanhadas por ataques à liberdade intelectual, à autonomia das instituições e à produção cultural e científica que contrariavam seus projetos políticos.

Na atualidade, pesquisadores utilizam conceitos como neofascismo, extrema direita autoritária e fascismo em rede para examinar fenômenos contemporâneos que apresentam algumas dessas características, embora existam diferenças históricas importantes.

No artigo publicado em julho de 2026, os pesquisadores Bruno Ciorlia Nascimento e Marcelo de Trói empregam a ideia de “fascismo em rede” para interpretar determinadas performances políticas da extrema direita nas universidades. A expressão se refere à articulação entre discursos autoritários, ações de confronto e sua circulação nas plataformas digitais.

O conceito é útil para pensar o caso da UFRN, mas não autoriza uma conclusão automática sobre cada participante do ato ou sobre a existência de uma organização fascista coordenando todos os episódios.

A questão é saber se determinadas práticas apresentam características recorrentes: deslegitimação do conhecimento, hostilidade à pluralidade, construção de adversários como inimigos, intimidação e utilização de confrontos para alimentar a mobilização política.

Se essas características aparecem de forma consistente, o debate sobre autoritarismo e fascismo deixa de ser apenas uma disputa de rótulos e passa a ser uma investigação sobre práticas concretas.

No caso da UFRN, a associação genérica da universidade à criminalidade, a desqualificação dos estudantes e o confronto que se seguiu justificam examinar essa hipótese, sem antecipar conclusões que dependam de outras evidências.

Do discurso da “balbúrdia” à desqualificação dos estudantes

A história recente oferece outro elemento de comparação: o discurso sobre a suposta “balbúrdia” nas universidades federais durante o governo Bolsonaro.

Em 2019, declarações de integrantes do governo associaram universidades a comportamentos inadequados e questionaram a qualidade de suas atividades. O debate ocorreu em paralelo a controvérsias sobre cortes e contingenciamentos orçamentários, autonomia institucional e financiamento da educação superior.

A crítica à qualidade do ensino e à aplicação dos recursos públicos é legítima. O problema surge quando episódios isolados são generalizados para caracterizar toda uma instituição ou quando a desqualificação pública se converte em justificativa para enfraquecer sua autonomia.

A semelhança com o episódio da UFRN está na construção discursiva de um ambiente acadêmico supostamente improdutivo, moralmente suspeito ou dominado por interesses políticos ilegítimos.

No caso atual, a referência a estudantes que permaneceriam por muito tempo na universidade, associada à acusação de venda de drogas, cria uma narrativa na qual a permanência estudantil aparece vinculada à improdutividade e à criminalidade.

Mas estudantes podem demorar a concluir seus cursos por diferentes razões: trabalho, dificuldades financeiras, responsabilidades familiares, problemas de saúde, deficiências na oferta de disciplinas ou outras circunstâncias. A permanência prolongada não constitui evidência de tráfico ou de qualquer outro crime.

Se existem problemas de evasão, retenção ou segurança, cabe à universidade produzir diagnósticos e adotar medidas fundamentadas. A generalização depreciativa não substitui a investigação.

A universidade pública deve ser cobrada por resultados, transparência e qualidade. Mas a cobrança responsável começa pelo conhecimento dos fatos, e não pela desqualificação de seus estudantes ou servidores.

A violência física e o espetáculo digital

O confronto na UFRN também precisa ser analisado sob a perspectiva da comunicação política contemporânea.

A reportagem da Tribuna do Norte descreveu o ato, a reação dos estudantes, os empurrões, os danos ao patrimônio e os ferimentos registrados durante o tumulto. O Saiba Mais relatou as acusações posteriores de Girão contra estudantes e a segurança universitária.

Fontes:

As imagens de confronto podem adquirir vida própria nas redes sociais. Um acontecimento complexo, com diferentes participantes e responsabilidades, é frequentemente condensado em vídeos curtos, títulos provocativos e narrativas que apresentam um grupo como vítima absoluta e o outro como inimigo.

Essa dinâmica pode favorecer a circulação de conteúdos que provocam indignação, reforçam identidades políticas e mobilizam apoiadores. Os pesquisadores da USP identificaram mecanismos semelhantes na análise de invasões à FFLCH-USP.

Isso levanta uma questão importante: uma manifestação pode ser pensada não apenas para transmitir uma mensagem aos presentes, mas também para produzir imagens destinadas a circular posteriormente nas redes?

A resposta é sim, essa é uma possibilidade conhecida na comunicação política digital. Mas, no caso específico da UFRN, seria necessário examinar os registros, as publicações dos organizadores, os materiais de convocação e a sequência dos acontecimentos para concluir se houve planejamento dessa natureza.

É claro que o fato de um vídeo ser publicado ou viralizar não prova que o confronto tenha sido provocado deliberadamente para gerar engajamento dos “convertidos”.

Por outro lado, a possibilidade de transformar conflitos em conteúdo político é uma razão adicional para investigar se os organizadores adotaram comportamentos que aumentaram a tensão ou buscaram produzir cenas de confronto.

A análise deve considerar não apenas o que ocorreu diante das câmeras, mas também como o episódio foi narrado e explorado depois.

Cabem a Polícia Federal e ao MPF a adoção das providências cabíveis para apuração e, eventual, responsabilização dos envolvidos.

A política do medo: mobilização ou intimidação?

A referência à estratégia do medo atribuída a Pablo Marçal acrescenta uma dimensão relevante à discussão.

Segundo a informação do Portal G1, Marçal teria orientado cerca de 300 influenciadores digitais, em um evento de campanha ao lado de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, a utilizar o medo como recurso de mobilização e comunicação eleitoral.

A recomendação de utilizar o medo na comunicação política não demonstraria, por si só, qualquer vínculo operacional com o ato da UFRN. De novo, cabe aos órgãos responsáveis a apuração dos fatos.

O medo é um recurso recorrente na política. Pode ser mobilizado por discursos sobre insegurança, perda de direitos, ameaças econômicas, mudanças culturais ou riscos atribuídos a adversários.

O problema democrático aparece quando a comunicação passa a construir grupos inteiros como ameaças, dissemina acusações não comprovadas ou transforma a hostilidade contra adversários em elemento central da mobilização.

No ambiente universitário, a associação genérica entre estudantes, drogas, desordem e improdutividade pode contribuir para criar uma imagem de perigo moral e social. Quando combinada com manifestações de confronto, essa representação pode aumentar a tensão e alimentar a polarização.

É necessário, porém, distinguir três hipóteses:

  • Mobilização pelo medo: utilizar ameaças percebidas para atrair apoiadores e reforçar a identidade de um grupo.
  • Intimidação política: adotar comportamentos que possam constranger ou desencorajar a participação de adversários.
  • Provocação deliberada de violência: planejar ou estimular um confronto físico.

Essas situações não são equivalentes e exigem evidências diferentes.

A análise do episódio da UFRN pode investigar se o discurso contribuiu para intimidar estudantes ou intensificar o conflito. A hipótese de que os organizadores pretendiam provocar agressões requer provas adicionais, como mensagens, orientações ou registros de planejamento. Algo que não seria tão difícil de comprovação a partir de uma investigação policial.

Há um movimento coordenado contra universidades?

O episódio da UFRN não deve ser analisado isoladamente, mas, por prudência, não pode ser automaticamente inserido em uma suposta operação nacional sem investigação.

O Jornal da Unicamp documentou episódios de ataques, vandalismo e ameaças em diferentes instituições, incluindo a Universidade de Brasília e a própria Unicamp. O artigo da USP, por sua vez, examinou ações de grupos da extrema direita na FFLCH-USP e sua repercussão digital.

Esses registros permitem identificar um fenômeno mais amplo de hostilidade contra universidades públicas. Não demonstram, por si só, que todos os episódios foram planejados por uma mesma organização.

No Rio Grande do Norte, a ocorrência de conflitos ou tentativas de intimidação em mais de uma instituição federal justifica investigar eventuais conexões entre os acontecimentos.

Para demonstrar coordenação, seria necessário comparar:

  • os organizadores e os grupos políticos envolvidos;
  • as datas e os métodos de convocação;
  • os materiais de divulgação e as mensagens utilizadas;
  • a participação de lideranças comuns;
  • as orientações eventualmente compartilhadas;
  • a utilização das imagens dos episódios nas redes sociais.

A existência de discursos semelhantes pode indicar circulação de repertórios políticos, embora não seja comprovação da existência de um comando central.

Também é preciso evitar atribuir a todos os integrantes de um partido ou campo ideológico a responsabilidade pelas ações de determinados participantes.

A questão central é verificar se há uma combinação recorrente de deslegitimação da universidade, provocação, intimidação e exploração digital dos conflitos – e se existem evidências de que essas práticas estão conectadas.

A recorrência e até a escalada dos episódios requerem atuação firme das autoridades competentes. Episódios em São Paulo, Rio de Janeiro, Roraima, Paraíba, Rio Grande do Norte etc., precisam de investigações específicas, mas também de atuação ampla, pois uma suposta conexão não pode ser descartada de antemão.

O orçamento: uma forma menos visível de enfraquecer a universidade

Os ataques às universidades não se limitam a manifestações públicas, ameaças ou confrontos. Também é necessário discutir as condições materiais de funcionamento do ensino superior.

A pesquisa científica requer laboratórios, bibliotecas, equipamentos, bolsas, manutenção predial, contratação de pessoal e financiamento contínuo. A permanência estudantil depende de assistência, alimentação, moradia e outras políticas que permitam aos alunos concluir seus cursos.

Cortes e contingenciamentos podem comprometer essas atividades, sobretudo quando atingem despesas discricionárias essenciais ao funcionamento das instituições.

O Jornal da Unicamp documentou, em sua análise de 2025, tanto ataques discursivos quanto medidas institucionais que afetaram a autonomia universitária e as condições de pesquisa.

Para 2026, o Andes-SN também publicou uma análise sobre perdas orçamentárias das universidades federais e o crescimento dos recursos destinados a emendas parlamentares.

Fonte: Andes-SN - Orçamento de 2026: universidades perdem R$ 488 milhões enquanto recursos de emendas aumentam.

Quando campanhas de deslegitimação da universidade coincidem com decisões que reduzem sua capacidade de pesquisa, ensino e assistência estudantil, é necessário investigar os efeitos combinados dessas medidas. O enfraquecimento material das universidades pode reduzir sua capacidade de cumprir a missão pública, mesmo sem qualquer invasão ou confronto físico.

O poder político obtido pela extrema direita na Câmara dos Deputados e, mais ainda, no Senado Federal já sugere um cenário desafiador para as universidades públicas e a ciência brasileira no próximo quadriênio. O prognóstico se torna sombrio com a eleição de um presidente de extrema direita e o cenário de desmantelamento da universidade pública e da ciência brasileira totalmente plausível.

Defender a universidade, portanto, significa também defender financiamento adequado, autonomia acadêmica, transparência e avaliação pública de resultados.

Quais são as possíveis consequências jurídicas para General Girão?

A crítica política ao comportamento do deputado não deve ser confundida com uma condenação antecipada. Existem questões jurídicas concretas que merecem apuração.

Possível infração eleitoral

A realização de uma manifestação política em universidade pública não constitui automaticamente infração eleitoral. A liberdade de expressão e de reunião também protege atos críticos ao governo.

A análise deve considerar a finalidade eleitoral, a forma de utilização do espaço, eventuais irregularidades na propaganda e as circunstâncias do evento. A ADPF 548 do Supremo Tribunal Federal protege a liberdade de manifestação política nas universidades e impede que a legislação eleitoral seja utilizada como instrumento de censura. Assim, a existência de infração depende da análise dos fatos pelas autoridades competentes.

Crimes contra a honra

A imputação de tráfico de drogas a pessoas identificáveis pode suscitar investigação por calúnia, caso estejam presentes os requisitos legais, inclusive a atribuição falsa de fato definido como crime.

Outras declarações podem ser examinadas sob a perspectiva da difamação ou da injúria, conforme seu conteúdo, destinatários e contexto.

O fato de a acusação ter sido dirigida genericamente aos estudantes torna especialmente importante determinar se as pessoas supostamente atingidas são identificáveis ou determináveis. A apuração interna determinada pelo Reitor servirá para reunir mais elementos sobre os fatos e atos praticados na UFRN.

Incitação à violência

O artigo 286 do Código Penal trata da incitação pública à prática de crime. Uma declaração depreciativa ou provocativa não configura automaticamente esse delito. Não obstante, é necessário verificar se houve estímulo público à prática de uma conduta criminosa e/ou se o desfecho de confronto foi algo previamente planejado.

Dano moral coletivo

A responsabilidade civil pode ser discutida quando as declarações e condutas ultrapassam os limites legais da liberdade de expressão e produzem lesão juridicamente relevante a interesses coletivos.

Demonstrar os elementos da responsabilidade civil e identificar o interesse coletivo atingido não parecem aspectos tão complexos, inclusive pela abundância de material publicado nas redes sociais, declarações públicas e, provavelmente, pelo desfecho das apurações determinadas pelo Reitor da UFRN.

Quebra de decoro parlamentar

A representação apresentada ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados examinará a conduta de Girão à luz dos deveres inerentes ao mandato.

A presença no ato não constitui, isoladamente, quebra de decoro. Mas as declarações, a eventual participação na escalada do conflito e possíveis atos de intimidação podem ser relevantes para a avaliação disciplinar, caso comprovados e enquadrados nas normas aplicáveis.

Diferentemente do que parecem desejar os adeptos da extrema direita, a apuração deve observar o contraditório, a individualização das condutas e a proporcionalidade das eventuais sanções.

O que deve ser investigado?

Não restam dúvidas de que o caso exige uma apuração que não se limite à disputa sobre quem começou o confronto.

É necessário identificar os autores das agressões, esclarecer as circunstâncias dos ferimentos, verificar os danos ao patrimônio, analisar a atuação da segurança universitária etc., e, principalmente, as responsabilidades dos organizadores do ato.

Também é importante preservar e examinar os vídeos integrais, identificar as declarações efetivamente proferidas e verificar se houve ameaças, estímulo à hostilidade ou tentativas de impedir manifestações contrárias.

A Justiça Eleitoral deve examinar os aspectos eleitorais que estiverem dentro de sua competência. O Conselho de Ética deve avaliar a conduta parlamentar, caso a representação prossiga. E as autoridades responsáveis pela investigação criminal devem apurar eventuais delitos com base em provas.

Por fim, se houver suspeita de articulação entre episódios em diferentes universidades, a investigação deve procurar conexões concretas entre organizadores, comunicações, recursos e estratégias de divulgação.

O rigor é indispensável.

Conclusão: defender a universidade é defender a democracia

O episódio da UFRN coloca em evidência uma questão que ultrapassa a polarização eleitoral.

A universidade pública é um espaço de conhecimento, pesquisa, formação profissional, pluralidade e debate. Evidentemente que a universidade pública não está imune a críticas, problemas de gestão ou irregularidades. Mas sua legitimidade não pode ser atacada por generalizações que associem estudantes à criminalidade sem demonstração dos fatos.

As declarações atribuídas a General Girão merecem escrutínio porque vão além de uma crítica administrativa convencional. Ao associar a comunidade acadêmica à vadiagem, à embromação e ao tráfico, o discurso pode contribuir para deslegitimar a instituição e alimentar a hostilidade contra seus integrantes.

O episódio também deve ser situado no contexto mais amplo dos ataques à autonomia universitária, do anti-intelectualismo e da circulação digital de performances políticas de confronto, fenômenos documentados por pesquisadores e veículos universitários.

A hipótese de que manifestações desse tipo integrem uma estratégia de intimidação ou de produção deliberada de conflitos precisa ser investigada. Não pode ser descartada de antemão, mas também não deve ser apenas presumida.

O mesmo rigor vale para a discussão sobre fascismo. O conceito ajuda a interpretar práticas autoritárias quando sustentado por características concretas, mas perde valor analítico se for empregado apenas como insulto contra adversários.

A democracia não exige neutralidade diante de ataques à liberdade acadêmica. Exige capacidade de identificar práticas autoritárias, demonstrar seus mecanismos e responsabilizar os envolvidos dentro das regras do Estado de Direito.

Não se trata de defender estudantes de esquerda contra estudantes de direita, nem de conceder privilégios a uma determinada corrente política. Trata-se de garantir que pessoas com diferentes posições possam estudar, ensinar, pesquisar, protestar e expressar suas ideias sem intimidação ou violência.

Se a universidade for transformada em inimiga, o conhecimento em suspeita e o confronto em espetáculo eleitoral, o prejuízo ultrapassará qualquer partido. Será a própria democracia que perderá espaço. O povo brasileiro será o maior perdedor.

A tarefa dos representantes eleitos é compreender que o mandato parlamentar não lhes confere licença para desqualificar pessoas sem fundamento, estimular hostilidades ou tratar a divergência democrática como uma ameaça a ser combatida.

A universidade pública não pertence à esquerda nem à direita. Pertence à sociedade. Defender sua autonomia, sua integridade e sua capacidade de produzir conhecimento é defender um dos espaços fundamentais da democracia brasileira.

É preciso responsabilidade!

terça-feira, 20 de outubro de 2026

O Programa de Flávio Bolsonaro passa pelo teste de "Imagine"? E o de Lula?

Um comentário inicial: a ideia de escrever sobre o assunto foi motivada por uma conversa rápida com um  conterrâneo sobre a política brasileira. Trata-se de um fã fervoroso dos Beatles (e de John Lennon) e, surpreendentemente, apoiador do bolsonarismo.

Entre a paz para todos e a suposta “guerra ao crime”, a preservação ambiental e a exploração econômica desmedida, a solidariedade e a lógica implacável do mercado, os programas dos dois candidatos revelam diferentes maneiras de imaginar o futuro do Brasil.

Em 1971, John Lennon e Yoko Ono lançaram “Imagine”, uma canção que atravessou gerações ao propor um exercício de imaginação política e humanista: pensar em um mundo menos dividido por fronteiras, religiões, disputas nacionais e interesses materiais; uma humanidade capaz de compartilhar o planeta, superar antagonismos e viver em paz.

Mais do que uma canção sobre a paz, “Imagine” tornou-se uma provocação sobre os valores que organizam a vida coletiva. 

Que sociedade estamos construindo? 

A segurança deve ser obtida a qualquer custo? 

O crescimento econômico justifica a degradação ambiental? 

A prosperidade de alguns é suficiente quando milhões enfrentam a fome e a desigualdade?

Essas perguntas oferecem um ponto de partida interessante para examinar os programas de governo de Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva para o período 2027-2030.

Trata-se, sobretudo, de exercício de imaginação, orientado por uma música que toca profundamente a minha alma.

É importante esclarecer, principalmente neste momento de profunda divisão que marca o povo brasileiro: “Imagine” não é um programa de governo, tampouco apresenta uma política ambiental detalhada. A comparação proposta aqui é interpretativa, especialmente imaginativa. Trata-se de confrontar os valores humanistas, pacifistas e solidários associados à obra de Lennon e Ono com as prioridades, os instrumentos e as contradições presentes nas propostas dos candidatos.

O resultado não é uma disputa sobre quem gosta mais de paz ou de natureza, mas uma análise de como cada projeto pretende transformar esses valores – ou subordiná-los a outras prioridades – em políticas públicas. Certamente, e infelizmente, nenhum dos dois candidatos considerou a mensagem da canção “Imagine” para construir suas propostas.

1. Paz para quem? O significado da segurança pública

A primeira diferença aparece na concepção de paz.

Em “Imagine”, a paz está associada à superação das divisões que transformam diferenças em motivos para matar ou morrer. A mensagem sugere que a humanidade precisa questionar as estruturas culturais e políticas que alimentam conflitos.

No programa de Flávio Bolsonaro, a segurança pública ocupa lugar central, com propostas de endurecimento penal, ampliação da capacidade prisional, reconhecimento facial, fortalecimento das forças policiais e combate ostensivo ao crime organizado. A linguagem de enfrentamento, inclusive com a expressão “guerra ao crime”, evidencia uma concepção de segurança fortemente apoiada na capacidade coercitiva do Estado.

Há uma finalidade legítima nessa preocupação: proteger a população contra homicídios, roubos, tráfico de drogas e organizações criminosas. Nenhuma sociedade pode prescindir de instituições capazes de garantir direitos e enfrentar a violência.

A questão essencial, porém, é saber se a paz será compreendida apenas como imposição da ordem ou também como redução das causas da violência, prevenção, respeito aos direitos fundamentais e diminuição das mortes.

Uma política de segurança compatível com o horizonte humanista de “Imagine” precisaria ser avaliada pela redução dos homicídios, das mortes em intervenções policiais, da reincidência criminal e da violência contra grupos vulneráveis.

O programa de Lula, por sua vez, associa a segurança pública à atuação coordenada do Estado, ao fortalecimento das instituições e à articulação com políticas sociais. Sua orientação geral é menos centrada na retórica de guerra e mais vinculada à coordenação institucional e à prevenção.

No teste de “Imagine”, a pergunta decisiva é: qual estratégia tem melhores condições de proteger vidas, reduzir a violência e preservar os direitos de todos.

2. Soberania nacional ou humanidade sem fronteiras?

Lennon e Ono convidam o público a imaginar um mundo no qual os países não sejam razões para matar ou morrer. Trata-se de uma crítica ao nacionalismo quando ele transforma a identidade nacional em antagonismo permanente. Para um país existir não é necessário eliminar os outros, como parecem acreditar Trump, Putin e outros mais.

Flávio Bolsonaro enfatiza a soberania brasileira, o controle territorial, o fortalecimento das fronteiras. Porém, trata-se de uma soberania limitada, uma vez que as relações estratégicas com países como Estados Unidos e Israel são apresentadas como essenciais. 

Essa orientação corresponde a uma visão de política externa na qual essas alianças estratégicas ocupam posição central. O alinhamento, principalmente com Trump, parece se sobrepor a posição que a diplomacia brasileira construiu ao longo de décadas. E o delineamento geral sinaliza que as guerras do Trump também poderão ser do Brasil bolsonarista.

Lula também defende a soberania nacional, mas dá maior destaque ao multilateralismo, à diplomacia, à cooperação internacional e à solução pacífica de controvérsias. Sua proposta de política externa procura ampliar a atuação brasileira em organismos internacionais e fortalecer as relações com países do Sul Global.

Nesse aspecto, há uma aproximação mais explícita entre o programa de Lula e o universalismo de “Imagine”. A valorização do diálogo e das instituições multilaterais está mais próxima da ideia de que os conflitos devem ser enfrentados pela negociação, e não pela transformação de adversários em inimigos permanentes.

Isso não significa que defender a soberania nacional seja incompatível com o pacifismo. Tampouco significa que a política externa de Lula corresponda integralmente ao ideal de Lennon. Os dois candidatos atuam dentro de uma ordem internacional na qual interesses econômicos, disputas geopolíticas e necessidades de defesa continuam determinantes.

O teste mais rigoroso consiste em perguntar se o Brasil utilizará sua influência para promover negociações, defender o direito internacional e aplicar princípios consistentes diante de conflitos envolvendo aliados e adversários? Ou vai aderir ao belicismo patrocinado por Trump?

Nesse eixo, Lula apresenta maior convergência programática com o ideal de cooperação internacional de “Imagine”, embora a atuação efetiva de qualquer governo precise ser julgada por suas decisões concretas.

3. Meio ambiente: patrimônio da humanidade ou ativo econômico?

É no debate ambiental que a comparação ganha uma dimensão particularmente importante.

A canção “Imagine” não formula uma agenda ecológica. Entretanto, sua mensagem de solidariedade e compartilhamento do mundo permite elaborar o seguinte questionamento: a natureza deve ser protegida apenas quando sua conservação oferece retorno econômico ou também porque dela dependem a vida, a saúde e o futuro das próximas gerações?

O programa de Flávio Bolsonaro, em seu capítulo dedicado ao meio ambiente, procura conciliar conservação e desenvolvimento econômico. Entre as propostas apresentadas estão o combate ao desmatamento ilegal até 2029, o uso de tecnologias para fiscalização, o pagamento por serviços ambientais, o incentivo à bioeconomia e a ampliação das energias renováveis.

O problema está na coerência entre esses compromissos e outras propostas do mesmo programa, como a exploração de gás não convencional por fraturamento hidráulico (fracking) e a flexibilização de procedimentos de licenciamento ambiental.

Agilizar o licenciamento não é necessariamente prejudicial. Prazos claros e processos eficientes podem melhorar a administração pública. Entretanto, a simplificação torna-se problemática quando compromete a qualidade dos estudos, a fiscalização, a participação das comunidades ou a prevenção de danos irreversíveis.

A questão central é se a conservação continuará sendo prioridade quando entrar em conflito com interesses econômicos imediatos. Os posicionamentos públicos de inúmeros políticos do PL e aliados, de membros da família Bolsonaro e do próprio candidato não permitem dúvidas de que os interesses econômicos serão preponderantes em relação as questões ambientais. 

O desmonte da fiscalização ambiental, a tolerância com garimpo ilegal e invasões de terras indígenas e outras mazelas ambientais patrocinadas durante o governo de Jair Bolsonaro sinalizam para um futuro tenebroso para a agenda ambiental.

O programa de Lula apresenta uma agenda climática mais abrangente. Propõe alcançar o desmatamento líquido zero até 2030, proteger os biomas, ampliar a adaptação às mudanças climáticas, fortalecer a segurança hídrica e expandir as fontes renováveis de energia.

A diferença não é apenas a existência de compromissos ambientais, mas o lugar que a crise climática ocupa na organização do programa. No caso de Lula, ela aparece como questão transversal ao desenvolvimento, à infraestrutura e à política externa.

Ainda assim, há uma contradição importante: o governo também pretende manter investimentos em petróleo e gás, ao mesmo tempo que promove a transição energética. A exploração de combustíveis fósseis pode ser justificada por razões de segurança energética e financiamento público, mas seus efeitos precisam ser confrontados com as metas de redução das emissões.

No teste ambiental de “Imagine”, Lula apresenta uma convergência programática mais ampla.

Flávio, por sua vez, reúne propostas subordinadas a uma estratégia que enfatiza mais explicitamente a exploração econômica dos recursos naturais brasileiros.

4. Fome, desigualdade e a lógica da acumulação

Outra passagem fundamental de “Imagine” é a crítica à ganância e a possibilidade de imaginar um mundo sem fome, no qual os recursos sejam compartilhados.

A mensagem de Lennon e Ono traz uma provocação moral e política: por que a abundância material convive com a privação de tantas pessoas?

Os programas de Lula e Flávio oferecem respostas diferentes a essa questão.

Lula prioriza a redução das desigualdades por meio de políticas sociais, segurança alimentar, valorização do trabalho, serviços públicos e medidas de redistribuição. Sua proposta procura reduzir a pobreza e ampliar as condições materiais de vida sem abandonar a economia de mercado.

Flávio Bolsonaro enfatiza a propriedade privada, o empreendedorismo, o crédito, a autonomia econômica e a criação de oportunidades para que as famílias ampliem seu patrimônio. A aposta é que o crescimento, o investimento e a atividade privada contribuam para a prosperidade.

Essas orientações não são inteiramente incompatíveis. O empreendedorismo pode gerar renda e emprego, assim como o investimento privado pode contribuir para o financiamento de serviços e infraestrutura. Políticas sociais, por sua vez, podem ampliar a capacidade das pessoas de trabalhar, estudar e empreender.

A divergência está na prioridade atribuída à distribuição dos resultados econômicos e no papel do Estado para garanti-la.

O Brasil ainda é um dos países mais desiguais do planeta, mesmo após os inúmeros avanços sociais conquistados a partir da estabilidade econômica conquistada a partir do Plano Real e, sem sombra de dúvidas, pelo conjunto de políticas públicas instituídos por Lula/Dilma.

A acusação de que o PT é comunista não se sustenta por nenhuma justificativa, mas a persistência da desigualdade é a prova definitiva. Fosse o PT um partido minimamente comunista não persistiria o cenário de desigualdade. Não obstante, os avanços conquistados parecem um grande desaforo para os devotos do bolsonarismo.

Uma leitura inspirada em “Imagine” perguntaria se o crescimento econômico consegue reduzir a fome e a pobreza de forma duradoura, se os ganhos são distribuídos de maneira justa e se as pessoas que não conseguem transformar trabalho em patrimônio dispõem de condições dignas de vida.

Por que esse ódio em recusar a necessidade de políticas de cotas? Por que recusar o combate da insegurança alimentar? Da desigualdade de renda? Da pobreza? Por que não reconhecer os direitos da comunidade LGBTQIA+? Por que não reconhecer que as mulheres, na sociedade machista brasileira, precisam de leis como Maria da Penha e do feminicídio? Por que não aceitar que as pessoas mais vulneráveis tenham acesso à moradia, à educação e à saúde? 

Por que algo assim é tão inaceitável?

5. Dois projetos, duas hierarquias de valores

A comparação permite identificar uma diferença mais profunda do que a oposição entre esquerda e extrema direita.

Flávio Bolsonaro organiza seu programa em torno da guerra ao crime (cujo campo de batalha coloca milhões de civis pobres na zona de ‘guerra’), da soberania limitada, pois declara alinhamento explicito aos interesses do governo Trump, da defesa da propriedade privada acima do interesse coletivo, da liberdade individual em que o pobre tem que competir sem suporte de políticas sociais e do crescimento econômico a qualquer custo. A preservação ambiental aparece subordinada à geração de riqueza.

Lula organiza o seu programa em torno da redução das desigualdades, da proteção social, da cooperação internacional, do desenvolvimento sustentável e do enfrentamento da crise climática. Ainda assim, mantém compromissos com a expansão econômica e com setores produtivos que podem gerar tensões ambientais.

Para tornar essa avaliação mais clara, podemos sintetizar o resultado do teste:

Critério inspirado em Imagine

Flávio Bolsonaro

Lula

Paz e redução dos antagonismos

Ênfase maior na repressão e no fortalecimento coercitivo do Estado – guerra ao crime, cujo campo de batalha é o lar da pobreza suburbana

Maior ênfase na diplomacia, na cooperação e na coordenação institucional

Cooperação internacional

Soberania limitada e alianças estratégicas como prioridades explícitas e totalmente alinhadas aos interesses de Trump

Multilateralismo e diálogo internacional como prioridades explícitas

Proteção ambiental

Conservação subordinada à exploração econômica, inclusive de biomas como a floresta amazônica.

Agenda climática transversal, com metas de conservação e adaptação

Transição energética

Expansão da exploração de gás, petróleo, conciliada com biocombustíveis

Renováveis combinadas com continuidade de investimentos em petróleo e gás

Combate à desigualdade

Ênfase em propriedade privada, empreendedorismo e autonomia econômica individual – ética do cada um por si

Ênfase em políticas sociais, trabalho e redução das desigualdades

Principal tensão

Uso da força e exploração econômica diante dos ideais de paz e conservação

Conciliação entre justiça social, expansão econômica e compromissos climáticos

Essas 

Essas classificações são uma interpretação dos documentos à luz dos princípios escolhidos.

6. Afinal, quem passa pelo teste de Imagine?

Se o critério for a convergência explícita com o pacifismo, a cooperação internacional, a redução da fome e a centralidade da crise climática, o programa de Lula apresenta maior proximidade com a mensagem humanista de Lennon e Ono.

Essa aproximação é particularmente visível na política externa, na centralidade conferida à redução das desigualdades e na presença de uma agenda climática abrangente.

O programa de Flávio Bolsonaro, por sua vez, não é desprovido de propostas ambientais ou de objetivos de proteção da vida. Há compromissos com a fiscalização do desmatamento e as energias renováveis. Entretanto, sua ênfase na repressão penal (foco em encarceramento em massa e ‘guerra’ ao crime, cujo confrontamento em áreas densamente povoadas podem gerar grande quantidade de vítimas inocentes), na soberania limitada com total alinhamento aos interesses de Trump e na exploração econômica dos recursos naturais revela tensões mais acentuadas com os ideais universalistas e pacifistas de “Imagine”.

A diferença fundamental está na concepção de sociedade que orienta as escolhas públicas.

Lennon e Ono nos convidam a imaginar uma humanidade na qual a segurança não dependa da perpetuação de inimigos, a prosperidade não conviva indiferentemente com a fome e a exploração econômica não comprometa as condições de vida no planeta.

Esse horizonte não oferece respostas prontas para os dilemas da administração pública, mas serviram como critérios para eu questionar as prioridades elencadas nos dois programas de governo.

O programa de Lula passa pelo teste de Imagine de maneira mais convincente no plano das intenções e das orientações declaradas.

O de Flávio enfrenta tensões mais profundas com o pacifismo e com uma visão da natureza que ultrapasse seu valor econômico.

No fim, a pergunta é: qual projeto político está mais preparado para transformar paz, solidariedade e preservação ambiental em resultados verificáveis?

Porque imaginar um mundo melhor é apenas o começo. O verdadeiro teste está nas escolhas feitas quando os ideais entram em conflito com os interesses econômicos, as disputas de poder e as urgências do presente frente a ética intergeracional.

Mais do que definir qual programa é "melhor" ou "pior", o objetivo final é convidar o leitor a sair do pragmatismo eleitoral imediato e pensar nos valores fundamentais (justiça, igualdade, fraternidade) que devem guiar o futuro do país.

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Nota editorial: esta comparação utiliza os programas de governo divulgados para 2027-2030 e interpreta suas propostas à luz da mensagem de “Imagine”. As classificações são avaliações qualitativas, de cunho eminentemente pessoal, e que, no limite, arvoram-se ao chamamento para refletir que Brasil desejamos para o futuro?

Fontes de referência: programa de governo de Flávio Bolsonaro; programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva; materiais oficiais de John Lennon e Yoko Ono sobre “Imagine”; e reportagens da Agência Brasil sobre as propostas ambientais e de política externa dos candidatos.