sexta-feira, 5 de julho de 2013

A CONCEPÇÃO DE PLANEJAMENTO VIGENTE NA PROPOSTA DE UM ESTADO INTERVENCIONISTA

GT: Estado e Política Educacional/nº05

Fabiana Silva Fernandes de Medeiros – UNESP
Agência Financiadora: CNPq

Inicialmente, o planejamento, no capitalismo, restringia-se à racionalização dos processos de produção industrial, mediante a organização administrativa, a divisão de tarefas, o controle, a supervisão, o planejamento de venda, de aplicação de capital (FERREIRA, 1936, p.1518).
A partir da Segunda Guerra Mundial, tornou-se instrumento indispensável, pois o desenvolvimento da tecnologia trouxe a necessidade de grande investimento de capital. Daí a necessidade de organizar e planejar, previamente, os meios utilizados para a obtenção da produção. É também nesse período que o pensamento político ocidental direcionou-se para idéias de uma era de reconstrução mediante uma atividade humana consciente e planificadora, que se dava por meio do planejamento da economia de guerra e dos programas soviéticos de industrialização (MORAES, 1987).
O planejamento governamental ou estatal surgiu de uma necessidade de se estender ao nível social mais geral a preocupação de racionalidade, na medida em que o capitalismo implicou no aumento da miséria social. O radicalismo desse forma de planejamento expressou-se no socialismo, quando toda a atividade econômica da sociedade foi submetida a um plano elaborado pelo Estado.
Após a Segunda Guerra Mundial, o Estado teve uma papel importante, pois representava uma possibilidade de coordenação do esforço nacional para a reconstrução dos países atingidos pela guerra e para a racionalidade geral da atividade econômica, mediante “planos nacionais de desenvolvimento”.
A crise de 1.929 também foi significativa para a inserção do Estado como planejador, mediante o desenvolvimento de políticas de racionalização e controle dos mercados, visando a expansão da economia e a não ocorrência de uma nova crise e o planejamento de setores estratégicos: saneamento básico, transporte, siderurgia, metalurgia, indústria automobilística, etc. O Estado surgiu como um fator de abertura de novas fontes de investimento (GALBRAITH, 1982).
        O planejamento ganhou força na América Latina, como instrumento técnico-político de intervenção do Estado, a partir da década de 50, com a divulgação das idéias desenvolvimentistas, expressas principalmente pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL). A CEPAL defendeu a necessidade de intervenção estatal na economia para implementar a industrialização nos países latino-americanos. Forneceu uma teoria de desenvolvimento que influiu diretamente no desenvolvimento econômico latino-americano e contribuiu para a elaboração de planos de governo que seriam praticados na segunda metade dos anos 50 (FURTADO, 1985) .
        O Estado então definido pela CEPAL seria o centro racionalizador da economia, promotor da infra-estrutura para a expansão industrial e faria o levantamento de recursos nacionais para as novas atividades. Essa definição de Estado tinha um cunho nacionalista, na medida em que incentivava a acumulação capitalista em bases locais. Paralelamente, estimulava certa hostilidade contra os países capitalistas considerados “imperialistas”.
A idéia força da CEPAL era a da planificação como condição para o processo de industrialização substitutiva, na medida em que as forças de mercado limitavam a capacidade de crescimento da periferia, devido a condições estruturais.
        A CEPAL difundiu na América Latina a ideologia do “nacional desenvolvimentismo”, que visava o favorecimento da acumulação capitalista, mediante o fornecimento de um projeto político de desenvolvimento, com base de legitimação no Estado.
Propunha a industrialização da periferia mediante a propagação do progresso técnico, pois os países periféricos somavam duas desvantagens que deveriam ser contornadas: baixa elasticidade –renda dos produtos primários, base da produção dos países periféricos e alta elasticidade-renda de produtos manufaturados, base das importações desses países.
A industrialização se daria por uma política que promovesse a modificação na composição das importações, mediante uma industrialização apoiada na importação de equipamentos e tecnologia e num programa de substituição de importações. Este programa exigiria a combinação entre as ações dos mercados com o planejamento promovido pelo Estado, que teria por função corrigir os desequilíbrios que se devem pela ação espontânea do mercado.
        Caberia ao Estado, portanto, tornar-se agente da política econômica, o dinamizador da política de desenvolvimento, na correção das distorções do sistema econômico periférico. Desenvolvimento este entendido como ação consciente e sustentada por parte do Estado através de políticas de desenvolvimento expressas em programas.
A intervenção do Estado, para a CEPAL, não é incompatível com o funcionamento do mercado, mas cumpre o papel de dar curso e eficácia ao seu funcionamento. É contrária ao laissez-faire, mas reconhece a existência de um regime de iniciativa privada, cuja eficácia e adequação aos grandes objetivos do desenvolvimento dependerão de diferentes graus de intervenção.
As técnicas de planificação, começam  a ser elaboradas, na década de 50, pela Divisão de Desenvolvimento Econômico, unidade da CEPAL, dirigida por Celso Furtado. As preocupações iniciais eram metodológicas e consistiam na tentativa de elaboração de um modelo de plano de desenvolvimento (FURTADO, 1982).
No início da década de 60, ocorreu a cristalização de uma ortodoxia latino-americana de planejamento, com a conferência de Punta del Este e a criação da “Aliança para o Progresso” (MATTOS, 1987).
Nessa conferência, houve a legitimação formal do termo planificação e estabeleceu-se como necessidade a formulação e execução de planos nacionais até para que os países da América Latina tivessem acesso à financiamentos.
Em termos metodológicos, a forma estabelecida e implementada nos países da América Latina foi o modelo normativo de planejamento, esboçado originalmente pela CEPAL e impulsionado pela Carta de Punta del Este. Foi entendido como o meio mais adequado para a superação dos problemas latino-americanos.
Os procedimentos eram correspondentes a uma planificação por etapas bem definidas: diagnóstico, fixação de objetivos e metas, previsão do comportamento das variáveis econômicas, elaboração de programas e projetos. Os diagnósticos tendiam a circunscrever sua análise sobre a escassez de recursos, defendendo o planejamento para o desenvolvimento como planificação econômica.
Essa estratégia de planificação fracassou na implementação dos planos, devido à disparidade entre seus objetivos e a evolução dos fatos, somando-se a agudeza dos problemas sociais.
No final da década de 70, houve uma crise instalada no planejamento latino-americano que se intensificou com os movimentos reivindicatórios, sociais e de oposição política, acompanhados pelo esgotamento do modelo econômico altamente concentrador de rendas e de exclusão social. Não houve o questionamento do papel do Estado como responsável principal pelas políticas públicas nas áreas sociais, mas iniciou-se uma discussão sobre formas de planejamento e gestão descentralizadas que se intensificou com a emergência dos regimes democráticos.
É consensual entre os estudiosos da evolução dos modelos de planejamento na América Latina que a crise dos anos 80 foi como um “divisor de águas” entre o modelo de planejamento das décadas de 50, 60 e 70 e os modelos posteriores. Na década de 80,  houve a ampliação das demandas por democracia e participação e questionamento do modelo centralizador e verticalista. Com o endividamento externo houve o esgotamento do modelo de Estado intervencionista e o impedimento da continuidade do financiamento dos gastos públicos  e as políticas sociais (GENTILINI, 1999).
        Esse momento histórico possibilitou a abertura para as idéias neoliberiais e neoconservadoras, na medida em que o Keynesianismo, expressão máxima de intervenção do Estado nas relações econômicas e sociais, entrou em crise e generalizou-se a idéia de que o Estado de Bem-Estar-Social proporcionou o aumento do gasto público, além de ter permitido uma pressão das classes trabalhadoras na manutenção dos direitos sociais. Buscou-se, a partir daí, um novo modelo de Estado, reduzido em seu tamanho e em sua política intervencionista, assegurando apenas uma política de “ordenamento institucional”, caracterizada pela garantia da livre concorrência e o livre jogo do mercado.
        Frente à crise do modelo de intervenção do Estado, os teóricos do Planejamento questionavam-se sobre como seria o planejamento num contexto de crise e de ajuste econômico, ainda desprovidos de conhecimentos sobre os paradigmas implícitos no novo modelo de Estado. Com a descentralização da gestão e do planejamento coloca-se uma alternativa para a redução do poder de intervenção do Estado, possibilitando o questionamento do planejamento centralizado, incoerente com a dinâmica capitalista, e a priorização da capacidade de planejamento e de gestão nas instâncias locais[1].
Inserida nesse contexto, a educação planejada foi concebida como o principal instrumento para a qualificação dos recursos humanos e para o desenvolvimento, portanto, uma das ferramentas que possibilitariam a viabilização do planejamento governamental e o progresso econômico e científico.
        A educação tornou-se alvo de discussões políticas na medida em que as condições para o processo de modernização social, presenciadas na América Latina,  a partir dos anos 50, exigiam uma demanda por recursos humanos com qualificação educacional provida por instituições escolares. A urbanização, o crescimento dos setores médios, a consolidação de um proletariado e os processos de mobilidade social configuravam uma nova estrutura, motivando a crença no desenvolvimento social  e na mobilidade individual mediante a educação. Verifica-se nesse período, uma pressão das classes médias urbanas pela expansão da educação média e superior, cujo objetivo era a preparação das elites políticas (RAMA, 1986).
        A orientação da UNESCO era a de um planejamento educacional integrado com o planejamento geral do desenvolvimento. Isso fortaleceu a educação enquanto investimento, na medida em que o setor educacional passou a ser planejada em função das metas definidas nos planos de desenvolvimento econômico.
        Durante as décadas de 50 e 60, na América Latina, houve um esforço no sentido de organizar a educação de forma racional e criar “sistemas educacionais” adaptados ao desenvolvimento econômico e social vigentes. Marcadas pelo centralismo e as restrições da participação política da população, as reformas nos sistemas de ensino visavam adequá-los ao processo de “modernização econômica” e estavam condicionadas às metas difundidas nos planos de  desenvolvimento econômico (GENTILINI, 1999).
Na década de 70, o planejamento educacional mantém os objetivos de expansão quantitativa dos sistemas nacionais de ensino, concebidos nos decênios de 50 e 60, e as esferas de planejamento e gestão continuam nas instâncias centrais dos sistemas.
        Em 1989, na discussão sobre a crise no planejamento e na gestão educacionais, pensou-se na necessidade de modernização dos órgãos de gestão, tornando-os menos burocráticos e rígidos. Defendeu-se o planejamento e a gestão descentralizados por meio da instituição de sistemas educacionais locais que planejassem suas necessidades e administrassem sem a excessiva dependência das burocracias centrais.
        O planejamento educacional, nas décadas de 50 a 70, dominados pela visão normativa de planejamento, cedeu seu lugar para uma forma de planejamento que garantisse a transferência de decisões para os níveis locais, o que exigia a redistribuição de poder, uma questão eminentemente política.
        Entre as diferentes propostas alternativas para o planejamento normativo, influenciadas pelas conjunturas políticas de transição democrática, estava o “planejamento estratégico”, por meio do qual introduziu-se, na década de 80, o tema da governabilidade.[2]
No setor educacional, o planejamento estratégico restringiu-se ao traçado de cenários[3], nos quais se priorizavam a utilização eficiente dos recursos financeiros disponíveis.
Na medida em que houve a demanda por recursos humanos e o desenvolvimento econômico e social vinculado à intervenção estatal, a centralização e a subordinação da educação num órgão de governo comprometido com interesses econômicos foi marcante nesse período. É com a abertura política e o fim das ditaduras militares na América Latina que formas mais democráticas e participativas de planejamento  e gestão são concebidas. O caráter economicista e instrumental do planejamento normativo e suas limitações para a compreensão das circunstâncias sociais são criticados e passa-se a discutir sobre a necessidade de formas mais complexas de planejamento que acompanhassem as transformações sociais e políticas ocorridas nos países da América Latina.




Referências Bibliográficas:
FERREIRA, F. W.   Planejamento Sim e Não: um modo de agir em um mundo em permanente mudança. São Paulo:  Paz e Terra, 1985.
FURTADO, C. A fantasia organizada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
GALBRAITH, J. K.  O Novo Estado Industrial. São Paulo: Abril Cultural, 1982.
GENTILINI, João A.  Crise e Planejamento Educacional na América Latina: Tendências e Perspectivas no Contexto da Descentralização, tese de doutorado apresentada à Faculdade de Educação da Universidade de Campinas (São Paulo), 1999.
MATTOS, C. A. de.  Estado, procesos de decisión y planificación en América Latina. In: Revista  de La Cepal. Chile, nº 31: p. 119 - 137, abr. 1987.
MATUS, C.  O líder sem Estado-Maior. São Paulo: Fundap, 2000.
—————   Política, Planejamento e Governo. Brasília: IPEA, 1993.
MORAES, R. C. C. de Planejamento: democracia ou ditadura? Tese de Doutoramento: São Paulo, 1987. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
PEREIRA, J. C.  Planejamento, mudança e democracia. In: SBPC, Ciência e Cultura. São Paulo, 38 (9): 1517 – 1529, set. 1986.
SAVIANI, D.; RAMA, G.; LAMARRA, N.; AGUERRONDO,I.; WEIBERG, G Desenvolvimento e Educação na América Latina. São Paulo: Autores Associados e Cortez, 1986.



[1] A substituição do modelo racional-normativo ocorreu devido à crise do modelo intervencionista de Estado e aos prejuízos sociais causados por esse estilo de planificação. Em fins dos anos 60, surgem questões sobre como formular estratégias orientadas para o desenvolvimento, a autonomia, a equidade e a democracia, desencadeando, a partir da década de 70, uma concepção de Estado cuja função era garantir a regência dos mecanismo democráticos, sem conduzir a sociedade, na medida em que se concebia o conjunto da sociedade como o resultado da ação de distintos grupos sociais. Decorre, dessa concepção, críticas ao desenvolvimento interno do pensamento cepalino, provocando mudanças nas concepções de planejamento governamental.
[2] A governabilidade é uma preocupação constante no planejamento estratégico e caracteriza-se pela relação entre as variáveis controladas pelo planejador e as não controladas, constituindo-se em uma resistência para a concretização dos objetivos propostos pelo plano (MATUS, 2000).
[3] Os cenários são diferentes perspectivas da realidade, sugeridas pelo ator que planeja, que têm por propósito criar estratégias de ação,  no caso de o plano principal não ser contemplado ou surgir algo não previsto durante a fase de ação do planejamento (MATUS, 1993).

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