No primeiro semestre deste ano, o Banco do Nordeste investiu mais
de R$ 355 milhões no Rio Grande do Norte só em recursos do Fundo Constitucional
de Financiamento do Nordeste (FNE), um crescimento de 70% em relação ao mesmo
período do ano passado. Foram 17,7 mil operações de crédito, dos quais 73%
contratados em municípios localizados na região do semiárido potiguar,
atingidos pela seca de 2012 e parte deste ano.
Desse montante, o segmento rural ficou com R$ 118,9 milhões;
Indústria, R$ 76,8 milhões; Comércio R$ 67,3 milhões; Turismo com R$ 54,6
milhões e Serviços R$ 37,4 milhões. O volume de recursos foi consideravelmente
engordado pela linha de emergência aos efeitos da seca, que totalizaram R$ 78
milhões.
Considerando todos os segmentos cobertos pelo dinheiro do Fundo
Constitucional do Nordeste, o setor rural ficou com 90% de tudo. A agricultura
familiar obteve R$ 81,5 milhões em contratações dentro do Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), uma política do Governo
Federal à qual os bancos oficiais são obrigados a seguir. Os demais produtores
acima dessa faixa receberam por volta de R$ 37 milhões.
Para 2013, o BNB já anunciou que manterá um “tratamento
diferenciado e favorecido” aos projetos de mini e pequenos produtores, às micro
e pequenas empresas, aos empreendimentos produtivos localizados em espaços
prioritários definidos pela Política Nacional de Desenvolvimento Regional
(PNDR), do Ministério da Integração Regional, sobretudo em relação ao limite de
financiamento.
Essa política governamental é um osso atravessado na garganta dos
produtores rurais não incluídos entre os micro e pequenos cobertos pelas linhas
do Pronaf. Nesta quinta-feira, o presidente da Federação da Agricultura do
estado, José Álvares Vieira, voltou a condenar os critérios de destinação dos
recursos do FNE.
“Essa política está financiando não produtores rurais, mas
residentes rurais e está irrigando dinheiro para quem não produz em detrimento
de muitos pequenos agricultores que têm na base de suas vidas a agricultura”,
afirmou.
“O resultado é que um dinheiro do financiamento público importante como o do FNE acaba não cumprindo seus objetivos essenciais”, acrescentou.
Mais números
Em toda a área de atuação do Banco do Nordeste, foram contratados
R$ 6,2 bilhões no primeiro semestre deste ano. Só o setor rural, que recebeu
mais de R$ 2,4 bilhões, 18% a mais que no 1º semestre do ano passado. E foi
seguido pelos setores de comércio e serviço, com R$1,9 bilhão e da indústria,
com R$ 1,47 bilhão.
Além disso, o BNB renegociou 431.634 operações de crédito, depois
das medidas anunciadas pelo Governo Federal para minimizar os efeitos da seca –
um montante de R$ 3,4 bilhões.
Provido de recursos federais, o FNE financia investimentos de
longo prazo e, complementarmente, capital de giro ou custeio. Além dos setores
agropecuário, industrial e agroindustrial, também são contemplados com
financiamentos os setores de turismo, comércio, serviços, cultural e
infraestrutura.
Criado em 1988 (artigo 159, inciso I, alínea “c” da Constituição
da República Federativa do Brasil e artigo 34 do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias) e regulamentado em 1989 (Lei nº 7.827, de
27/09/1989), o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) é um
instrumento de política público federal operado pelo Banco do Nordeste
teoricamente para contribuir para o desenvolvimento econômico e social do
Nordeste.
Por meio de programas de financiamento aos setores produtivos, com
foco regional de desenvolvimento, o programa passou a integrar o arsenal de
políticas do Governo Federal para a redução da pobreza, o que segundo os seus
críticos teria gerado todas as distorções.
O FNE financia investimentos de longo prazo e, complementarmente,
capital de giro ou custeio que, além dos setores agropecuário, industrial e
agroindustrial, irrigam com recursos os setores de turismo, comércio, serviços,
cultural e infraestrutura. Mas, como ficou demonstrado pelos números oficiais
do BNB, a parte do leão (90%) financia o segmento rural.
Os recursos do Fundo não substituem outros fluxos financeiros do
Governo Federal, de órgãos repassadores ou do próprio BNB. Por definição legal,
teoricamente, não poderia se sujeitar a injunções de políticas conjunturais de
contingenciamento de crédito, tendo em vista a conveniência e a necessidade de
se assegurar a continuidade das inversões de desenvolvimento regional. Os
maiores críticos da aplicação do FNE, porém, dizem que não é isso o que
acontece.
Atualmente, o Fundo atende a 1.990 municípios situados nos nove
estados que compõem a região Nordeste e no Norte dos estados do Espírito Santo
e de Minas Gerais, incluindo os Vales do Jequitinhonha e do Mucuri. Têm acesso
a ele os segmentos empresariais de empreendedores individuais, produtores,
empresas, associações e cooperativas de produção. É, por definição, um
instrumento de fomento à produção intraurbano e mesorregional.
Anualmente, o Banco do Nordeste submete ao Ministério da Integração
Nacional e à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), proposta
de aplicação de recursos por meio da Programação do Fundo Constitucional de
Financiamento do Nordeste.
Este ano, o processo de elaboração da Programação FNE, além da
legislação que regulamenta os fundos constitucionais, adotou metodologia
participativa, a partir da realização de reuniões de trabalho em cada um dos
Estados que compõem a área de abrangência do Fundo, representantes dos governos
Federal, estaduais e municipais, além representantes do setor produtivo e da
sociedade.
Por: Marcelo Hollanda
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