Num de seus escritos, Millôr
Fernandes anotou: “Se em vez de salvar Barrabás a multidão tivesse salvado
Cristo, a coisa só mudaria de nomenclatura. A humanidade teria criado em torno
de Barrabás a mesma lenda que criou em torno do Outro. E nós seríamos todos
barrabãos.”
Em pronunciamento levado ao ar na
noite passada, Dilma Rousseff disse que o leilão do campo petrolífero de Libra
“é bem diferente de privatização.” Ora, existe no Estado brasileiro uma certa
incapacidade de investir. Essa debilidade força o governo a buscar na
iniciativa privada o dinheiro de que não dispõe.
Se em vez de chamar esse mecanismo de
privatização Dilma passar a chamá-lo carinhosamente de Valdirene, a coisa
também só mudará de nomenclatura. O sindicalismo companheiro vai pendurá-la na
mesma cruz em que o ex-PT pregou FHC. E o investidor, sem vocação para a
idolatria, só colocará dinheiro onde houver perspectiva de lucro.
A União levou ao martelo um dos
maiores campos petrolíferos do planeta. No modelo anterior, de concessão, seria
um negócio com potencial para atrair o interesse de mais de três dezenas de
empresas. No modelo Valdirene, de partilha, a concorrência não teve
concorrentes. Foi um leilão de consórcio único (quatro empresas, noves fora a
Petrobras).
A coisa toda foi bem esquisita.
Guindada à condição de operadora, a Petrobras já entrou na parada com 30%. Quer
dizer: o investidor foi convidado a arrematar o privilégio de ser sócio da
Petrobras num negócio comandado por outra estatal brasileira, a PPSA, criada
especialmente para gerir o pré-sal.
De repente, depois de escolher os
parceiros que participariam com ela do leilão, a Petrobras resolve também dar
um lance. Aos 30% que já detinha por força do edital, adicionou outros 10%.
Como os participantes do consórcio terão de pagar ao governo um bônus de R$ 15
bilhões na assinatura do contrato, a estatal petroleira do Brasil contraiu uma
dívida de R$ 6 bilhões com o Tesouro brasileiro. Fez isso num instante em que,
descapitalizada, necessita de capital.
Potencializando a ironia, as
supercapitalizadas estatais chinesas CNOOC e CNPC acharam melhor economizar
no lance. Cada uma pingou 10%. Para alívio do governo, as europeias Shell (20%)
e Total (20%) associaram-se ao lance mínimo de um leilão sem disputa. O
ministro Guido Mantega (Fazenda) soltou fogos: “Foi um sucesso”.
Mantega negou que o modelo Valdirene
de partilha do pré-sal vá ser alterado —“principalmente agora que vimos que ele
funciona.” O mesmo Mantega declarou que nada impede o governo de aperfeiçoar o
modelo para os futuros leilões. “Sempre estaremos buscando modelos atraentes
para as empresas”. Heimmm?!? “Queremos competição”. Ah. bom!
Dilma também festejou “o sucesso do
leilão do Campo de Libra”. Para ela, “as etapas de viabilização do pré-sal têm
acumulado, até agora, grandes vitórias.” Acha que “as etapas futuras vão
trazer, sem dúvida, novos desafios.” Mas está otimista: “Eu tenho certeza que o
Brasil responderá à altura.”
Assim, convencionou-se chamar de
vitória um leilão esquisito, feito sob regras que provocaram um atraso de cinco
anos, num instante em que o investidor dispõe de novas jazidas no México e na
África, e numa hora em que os EUA desbravam as fronteiras energéticas do gás de
xisto.
Fazer o quê? Na falta do ótimo, não
resta senão comemorar o razoável. Com muita criatividade e boa propaganda,
urubu sempre poderá fazer pose de ‘meu loro’ em rede nacional de rádio e tevê.
Não fosse pela plumagem preta, nem os petroleiros da CUT notariam a diferença.
blog do Josias
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